Uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2022) analisou a relação entre os dias de jogos do Campeonato Brasileiro e o aumento dos registros de violência doméstica e familiar. Os resultados são alarmantes: em dias de partidas, os casos de ameaça aumentam em 23,7% e os de lesão corporal em 20,8%.
Em entrevista à BBC News Brasil, Juliana Martins, coordenadora do Fórum e doutora em Psicologia, explica: “O jogo de futebol é uma espécie de catalisador de valores do patriarcado e das masculinidades. É como se o futebol trouxesse à tona valores como violência, virilidade e agressividade, como se essas fossem as únicas respostas possíveis para a frustração. Esses valores estão presentes nas relações das famílias brasileiras.”
Essas dinâmicas estão diretamente relacionadas à construção social da masculinidade, à cultura da virilidade e da competitividade, frequentemente agravadas por fatores de risco como o consumo de bebidas alcoólicas e o ambiente de aglomeramento e hostilidade nos jogos.
A misoginia e o sexismo presentes nesse contexto afetam igualmente a participação das mulheres no esporte, dentro e fora das quatro linhas, seja como torcedoras, atletas, técnicas, árbitras, gestoras, comunicadoras, dirigentes ou profissionais de apoio, uma vez que o ambiente ainda é compreendido como essencialmente “masculino”.
Para Christhiane Souza, ex-Coordenadora-Geral de Futebol Feminino no Ministério do Esporte, ex-diretora da ANATORG e torcedora organizada: “ser mulher no esporte é resistir todos os dias a um sistema que insiste em nos silenciar, invisibilizar e excluir. Mas nós seguimos – nas arquibancadas, nos campos, nas quadras, nas gestões e nas leis – abrindo caminho e escancarando portas. Falar de direitos das mulheres no esporte é reafirmar que não queremos favores, queremos igualdade. Não queremos concessões, queremos o que é nosso por direito. Queremos o direito que nos é historicamente negado. O esporte também é nosso lugar, não podendo ser instrumento de violência. Seguiremos ocupando, transformando e revolucionando espaço com coragem, voz e ação.”