Intolerância contra Nossa Senhora Aparecida pauta eleição

No próximo 12 de outubro, respeita-se o dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira de Aparecida de Goiânia e padroeira do Brasil. A devoção à esta santa da Igreja Católica movimenta a fé de milhões de brasileiros. Neste ano, a data trará outros valores, para além do simbolismo religioso. Com os ataques recentes promovidos pela extrema-direita, […]

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Foto: Jhonney Macena

No próximo 12 de outubro, respeita-se o dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira de Aparecida de Goiânia e padroeira do Brasil. A devoção à esta santa da Igreja Católica movimenta a fé de milhões de brasileiros. Neste ano, a data trará outros valores, para além do simbolismo religioso. Com os ataques recentes promovidos pela extrema-direita, em especial o bolsonarismo, à Igreja Católica, a efeméride ganha também um peso político.

Em setembro, foram veiculados nas redes sociais e na imprensa conteúdos que associavam o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a um projeto que previa a retirada de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do país.

Um mês antes, Flávio Bolsonaro, que é evangélico e se cerca de pastores e outras lideranças desse mesmo grupo religioso, afirmou que “quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, causando um incômodo nos católicos do país.

Dom Geraldo Maia, bispo de Araçuai (MG), explica o incômodo. “O Brasil é de Jesus desde o seu início, porque aqui foi celebrada a primeira missa, aqui Jesus foi anunciado pelos missionários e é terra verdadeiramente da Santa Cruz de Jesus Cristo. Então isso está presente na cultura, na tradição, na história. Não precisa nenhum poder civil fazer esse tipo de declaração ou retirar alguma coisa da fé, da história, da cultura do nosso povo, porque a religião não está ligada à legislação de Estado; a religião está ligada à fé e às tradições.”

A proposta da mudança de categoria de Nossa Senhora Aparecida é de 2007 e foi apresentada pelo então deputado federal Professor Victório Galli, parlamentar ligado à direita. O Projeto de Lei 2.623/2007, que foi arquivado em 2022, previa a mudança na lei do feriado do dia 12 de outubro e trocar a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.

Porém, os católicos, em especial as lideranças da igreja no Brasil, se incomodavam com a relação com a extrema-direita há mais tempo. Um relatório produzido pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), organismo ligado à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), divulgado pelo Brasil de Fato, mostra 58 ataques dos direitistas à Igreja Católica nos últimos oito anos.

Dom Geraldo Maia pediu “respeito aos católicos”. “Como nós procuramos respeitar as tradições evangélicas, as tradições de matriz africana, outras tradições religiosas de minoria, nós também queremos respeito para com a nossa igreja, por aquilo que a igreja representa, pelas atividades da igreja.”

Sobre o futuro político do país, caso Flávio Bolsonaro vença o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas urnas, Dom Geraldo deixa aparentar seu receio. “O horizonte é preocupante, mas, ao mesmo tempo, não intimida a ação da igreja. Nós não temos uma ideologia como igreja, nós não temos um partido político e muito menos um mito”, explica o religioso, que lembra a história da igreja para apontar um caminho de reação.

“Esse futuro, se ele acontecer, não nos traz medo, não, porque a igreja sempre teve e sempre vai ter a sua missão. Nasceu assim, nasceu sendo perseguida pelo Império Romano e, ao longo dos tempos, também nós passamos por muitos desafios, mas a igreja de Jesus Cristo continua cada vez mais profética a realizar a sua missão de anunciar o Reino de Deus”, explica Dom Geraldo Maia, que explica a importância da padroeira para o país.

“Nossa Senhora se manifestou a pessoas simples, a pessoas no tempo de escravidão. Ela se manifesta na cor negra, identificando-se com os pobres escravos daquele tempo. Ela tem um lado, que é o lado dos oprimidos; ela está do lado das pessoas sofredoras. Assim, manifestando-se como uma mulher negra, ela mostra a sua solidariedade a todas as pessoas que sofrem, a todos os brasileiros e brasileiras, a todos os sofredores da história até os dias de hoje. Por isso, um atentado assim contra a figura, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, é um atentado cultural, histórico, além de religioso”, finaliza.