Exercício físico diário não basta para melhorar saúde e qualidade de vida de entregadores de aplicativos

Dia-a-dia desses entregadores é marcado por condições precárias de trabalho, sobrecargas, riscos de lesões e acidentes e exposição intensa a poluição do ar

Da Redação
29/05/2022 - 12:40
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Exercício físico diário não basta para melhorar saúde e qualidade de vida de entregadores de aplicativos

Dia-a-dia desses entregadores é marcado por condições precárias de trabalho, sobrecargas, riscos de lesões e acidentes e exposição intensa a poluição do ar

do Jornal da USP 

As condições precárias de trabalho e o esforço físico e mental exigido nas atividades dos entregadores por bicicleta a serviço de aplicativos digitais frequentemente passam despercebidos. Por essa razão, em sua tese de doutorado, o pesquisador Eduardo Rumening Souza, formado em Ciências Sociais e em Educação Física, acompanhou o trabalho de ciclistas entregadores na cidade de São Paulo para analisar sua qualidade de vida. Segundo a pesquisa, realizada na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, esta modalidade de entregas transmite a imagem de sustentabilidade e vida ativa, mas isso não se reflete em saúde e bem estar para o trabalhador, devido às cobranças constantes de desempenho, sobrecargas, riscos de lesões e acidentes e exposição intensa à poluição do ar.

A análise foi feita a partir do acompanhamento de cinco ciclistas entregadores durante parte de suas jornadas diárias. O pesquisador observou os trabalhadores de março a agosto de 2020, pedalando junto com eles durante quatro horas por dia. A partir disso, foi elaborada uma etnografia do grupo. De acordo com o autor do trabalho, essa etnografia consiste em observar o cotidiano, tentando entender a vida social e traduzir determinada cultura urbana para outras pessoas que não são parte daquele universo. Também foram levantados dados quantitativos como poluição atmosférica nos trajetos percorridos e intensidade e volume do esforço físico.

A economia de plataforma tem sido uma grande tendência dos últimos anos em termos de modelos de negócio. Nesse sistema, os serviços são disponibilizados por meio de uma plataforma digital – um aplicativo de celular, por exemplo -, que gerencia as demandas dos clientes e a prestação do serviço. Transportes e entregas são setores que adotaram intensamente esse modelo, sendo que uma boa porção do trabalho é feita por ciclistas entregadores. Uma característica apontada pelo estudo foi a gamificação do trabalho, que acontece por meio da atribuição de pontos calculados pelos algoritmos levando em consideração uma série de fatores, como a performance dos ciclistas, condições climáticas, dia da semana e horário das entregas, além da avaliação dos atores imbricados no processo. É dessa forma que os ciclistas são constante e intensamente cobrados pelo próprio aplicativo a serem cada vez mais rápidos e eficientes, mesmo que isso resulte em riscos de lesões e acidentes.

O modelo estimula uma competitividade acentuada, mas o pesquisador ressalta que é nítida a construção de laços de empatia e solidariedade entre os colegas, que se ajudam mutuamente diante dos desafios enfrentados no dia a dia. Mesmo assim, a pressão exercida pelas plataformas gera nos ciclistas uma busca frenética pela eficiência e produtividade. Nesse contexto, não se trata apenas da recompensa financeira, mas também é uma prova de habilidade e força entre os colegas.

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A pressão exercida pelas plataformas gera nos ciclistas uma busca frenética pela eficiência e produtividade – Foto: Reprodução/EEFE-USP

Sobrecarga

Ser mais eficiente, no caso das entregas por bicicleta, significa carregar cada vez mais peso de forma mais rápida. A constante sobrecarga das bicicletas – algumas delas modificadas para acomodar ainda mais produtos – e a rotina de trabalho extenuante podem gerar lesões crônicas e dores articulares. Até mesmo a relação com os espaços urbanos entra na equação que envolve produtividade, deslocamento com sobrecarga e demanda por velocidade. É comum observar ciclistas entregadores circulando de forma não convencional por vias de pedestres, por exemplo. Devido ao conhecimento particular do terreno urbano e suas irregularidades, o trajeto calculado matematicamente pelo GPS é substituído por caminhos que exigem menos esforço físico. “A interpretação corpográfica da cidade, mediada pela bicicleta, enseja modos alternativos de perceber e viver o espaço”, comenta o pesquisador.

Bicicleta adaptada para aumentar a capacidade de carga – Foto: Reprodução/EEFE-USP

A circulação pelos espaços urbanos se apresenta como mais um desafio a ser enfrentado pelos ciclistas. Não apenas pela falta de estrutura para suprir as necessidades básicas, como uso do banheiro ou espaço para se alimentar, mas também pelo intenso contato com a poluição. Segundo os dados levantados por meio de um equipamento acoplado à bicicleta e um monitor cardíaco, os ciclistas chegam a inalar cinco vezes mais poluentes do que uma pessoa em deslocamento sedentário, como o carro ou o ônibus. Como o estudo foi feito em meio ao isolamento social imposto pela pandemia de covid-19, quando houve menos circulação de veículos nas ruas, é possível que a poluição inalada seja ainda mais intensa.