Estadão vincula Flávio às milicias do Rio de Janeiro

A candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute “o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República”, advertiu o Estadão em editorial de 23 de setembro. O alerta é um novo peso para a candidatura da extrema direita, sobretudo por vir do mesmo jornal que, em 2018, tratou a ascensão fascista como uma […]

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A candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute “o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República”, advertiu o Estadão em editorial de 23 de setembro. O alerta é um novo peso para a candidatura da extrema direita, sobretudo por vir do mesmo jornal que, em 2018, tratou a ascensão fascista como uma “escolha difícil”. 

A revisão tardia do Estadão aconteceu em setembro, semanas antes do debate da Band deste domingo (18), quando Lula cobrou o senador por sua atuação na defesa de um policial acusado de matar Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos. 

estadao flavio miliciano 1

Ana Clara, de 5 anos, foi atingida por tiros de fuzil na porta de casa, em Niterói, em 2 de fevereiro de 2021. O Ministério Público do Rio denunciou o então cabo da PM Bruno Dias Delaroli, e a Justiça decidiu levá-lo a júri popular. Flávio Bolsonaro integrou a defesa do policial e, em 2024, assinou um recurso para tentar reverter essa decisão. Cinco anos depois da morte da menina, o julgamento ainda não ocorreu e Delaroli responde em liberdade.

No debate, Flávio desviou da pergunta de Lula por diversas vezes e deixou os eleitores sem explicação do por que entrou no caso ou por que assinou um recurso contra a decisão que submeteu o PM a júri popular.

A cobrança por esclarecimentos que Lula fez no debate se soma ao alerta que o Estadão fez sobre as relações de Flávio com milicianos e agentes de segurança ligados a esses grupos. 

flavio e ana lucia

No editorial, o jornal retoma o caso de Robson Calixto, o “Peixe”, condenado pelo STF por integrar uma organização criminosa ligada ao assassinato de Marielle Franco. O Estadão considera “extremamente preocupante” a proximidade que Flávio manteve com o miliciano.

O texto veio depois de uma reportagem do próprio jornal sobre a negociação de uma emenda parlamentar de quase R$200 mil. Em 2023, uma assessora de Flávio tratou da destinação dos recursos com Calixto. Nas mensagens obtidas pela Polícia Federal, ele pediu ajuda ao “nosso senador”. 

A investigação identificou indícios de desvio de parte do dinheiro enviado à entidade.

O editorial também recupera episódios anteriores da trajetória de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio. Em 2007, o então deputado defendeu as milícias como alternativa de policiamento. 

Segundo o jornal, ele chegou a dizer que não se importaria em pagar às milícias “R$ 30 ou R$ 40” por mês para ter “mais segurança”. Dois anos antes, havia concedido a Medalha Tiradentes a Adriano da Nóbrega, ex-PM posteriormente apontado como chefe do Escritório do Crime.

A família de Ana Clara ainda espera pelo júri

Quando o julgamento de Bruno Dias Delaroli pelo Tribunal do Júri parecia inevitável, Flávio Bolsonaro entrou na defesa do policial e assinou um novo recurso para tentar reverter a decisão que o levaria a julgamento.

A tentativa de barrar o júri não prosperou no STJ, mas o atual candidato à Presidência apresentou outras medidas que prolongaram o processo. Cinco anos depois da morte de Ana Clara, Delaroli continua sem ser julgado.

Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, foi atingida por disparos de fuzil na porta de casa, na comunidade do Monan Pequeno, em Niterói, em 2 de fevereiro de 2021. O Ministério Público do Rio denunciou o então cabo da PM por homicídio com dolo eventual: segundo a acusação, ao atirar em uma área residencial, ele assumiu o risco de matar.

Naquela manhã, a menina estava com a mãe, Cristiane Gomes, e o irmão de 2 anos. Cristiane contou que ouviu o filho dizer “é morador” pouco antes dos disparos. “Escutei ‘morador’ e escutei quatro tiros”, relatou.

A versão inicial da Polícia Militar era de que os agentes haviam sido atacados por criminosos e reagido. A perícia encontrou no local apenas cápsulas de fuzil calibre 7,62, compatíveis com a arma de Delaroli, e nenhuma munição de pistola que indicasse troca de tiros. O exame balístico apontou que os disparos que atingiram Ana Clara partiram do fuzil do então cabo.

Delaroli foi preso em flagrante, mas deixou a prisão em novembro de 2021 e responde ao processo em liberdade. A soltura ocorreu antes de Flávio entrar na defesa. A atuação do senador veio depois, quando a Justiça já havia determinado o júri, e incluiu uma tentativa de reverter essa decisão.

Dois júris foram marcados para 2026, mas nenhum ocorreu. A previsão divulgada para o julgamento é 5 de maio de 2027. Cristiane diz que não busca vingança: espera que o policial seja julgado pela morte da filha.