Deputada Marussa Boldrin denuncia ser vítima de violência doméstica

Em um ato de extraordinária coragem, a Deputada Federal Marussa Boldrin decidiu romper esse silêncio. Através de uma carta aberta dirigida a todas as mulheres que já silenciaram sua dor, ela compartilha sua própria experiência em um relacionamento abusivo que perdurou por anos, oferecendo não apenas um testemunho pessoal, mas também um farol de esperança […]

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Em um ato de extraordinária coragem, a Deputada Federal Marussa Boldrin decidiu romper esse silêncio. Através de uma carta aberta dirigida a todas as mulheres que já silenciaram sua dor, ela compartilha sua própria experiência em um relacionamento abusivo que perdurou por anos, oferecendo não apenas um testemunho pessoal, mas também um farol de esperança para milhares de brasileiras que ainda vivem presas em ciclos de violência doméstica.

“Eu estive em um relacionamento abusivo. Dizer isso em voz alta já é, por si só, um ato de coragem”, declara Marussa logo no início de seu relato. Suas palavras ecoam a realidade de milhões de mulheres brasileiras que, segundo dados recentes do Ministério das Mulheres, enfrentam diariamente diferentes formas de violência, muitas vezes dentro de suas próprias casas, perpetradas por aqueles que deveriam oferecer amor e proteção.

Uma História de Silenciamento Gradual

O relato da deputada Marussa Boldrin revela um padrão dolorosamente comum em relacionamentos abusivos. O que começou como uma história de amor e parceria, com sonhos compartilhados e a expectativa de construir uma família, rapidamente se transformou em um pesadelo de abusos psicológicos que, com o tempo, evoluíram para agressões físicas.

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O perigo mora em casa: Em 76,6% dos casos de violência doméstica, o agressor é do sexo masculino, sendo que 40% são parceiros íntimos atuais e 26,8% são ex-parceiros. A residência é o local de maior risco para as mulheres, onde ocorrem 71,6% das agressões | Reprodução Internet

“Me casei acreditando no amor, acreditando na parceria. Tínhamos uma filha a caminho, uma vida inteira pela frente e muitos sonhos a serem vividos”, relembra a deputada. No entanto, a realidade se mostrou drasticamente diferente das expectativas. “Logo após o nascimento da minha primeira filha, o homem que havia jurado cuidar de mim se afastou, emocional e fisicamente, e as agressões psicológicas começaram.”
Este padrão de mudança comportamental após eventos significativos como o nascimento de um filho é frequentemente observado em relacionamentos abusivos. Segundo especialistas em violência doméstica, momentos de vulnerabilidade da mulher, como a maternidade, podem desencadear ou intensificar comportamentos controladores e abusivos por parte do parceiro.

A deputada descreve como insistiu no relacionamento mesmo quando os sinais de abuso se tornaram evidentes: “Insisti, mesmo quando ele passou a me ferir com palavras. Quando dizia que meu trabalho não prestava, que eu era incompetente. Quando desdenhava do meu mandato, usando até mesmo palavras de baixo calão. Quando dizia sentir nojo do meu leite enquanto eu amamentava.”

Estes relatos de desvalorização profissional e pessoal refletem uma das formas mais comuns de violência psicológica. De acordo com a pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 31,4% das mulheres brasileiras relataram ter sofrido insultos, humilhações ou xingamentos nos últimos 12 meses – um aumento de 8 pontos percentuais em relação a 2023, representando aproximadamente 17,7 milhões de brasileiras.

O Silêncio como Estratégia de Sobrevivência

“Por medo, por vergonha, por acreditar que tudo ia mudar. Eu me calei. E me arrependo profundamente de ter silenciado a minha voz”, confessa Marussa em seu relato. Este silenciamento, muitas vezes interpretado erroneamente como passividade ou consentimento, é na verdade uma estratégia de sobrevivência adotada por muitas vítimas de violência doméstica.

Especialistas em violência de gênero explicam que o silêncio das vítimas é frequentemente motivado por múltiplos fatores: dependência emocional e/ou financeira, medo de retaliação, preocupação com os filhos, vergonha social, e até mesmo a esperança de que o comportamento abusivo cesse. No caso da deputada, todos esses elementos parecem ter estado presentes, especialmente a preocupação com os filhos e a esperança de mudança.

“Enquanto eu lutava na vida pública, ele me sabotava na vida privada. Nunca me apoiou com sinceridade, apenas por conveniência”, relata Marussa, destacando o contraste entre sua vida profissional bem-sucedida e o inferno particular que vivia em casa. Esta dualidade é comum entre mulheres que sofrem violência doméstica – muitas conseguem manter carreiras de sucesso enquanto escondem o abuso que sofrem em suas relações íntimas.

Os dados do Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2025, do Ministério das Mulheres, corroboram esta realidade ao apontar que a residência é o local de maior risco para as mulheres, onde ocorrem 71,6% das notificações de violência. O mesmo relatório indica que em 76,6% dos registros de violências domésticas, sexual e/ou outras violências contra mulheres, o agressor é do sexo masculino – confirmando o padrão descrito pela deputada em seu relato.

A seguir, a íntegra da carta publicada por Marussa Boldrin:

CARTA ABERTA
Por todas as mulheres que já silenciaram sua dor

Eu estive em um relacionamento abusivo. Dizer isso em voz alta já é, por si só, um ato de coragem. Durante anos, fui silenciada dentro da minha própria casa. Fui desvalorizada, desacreditada, diminuída como mulher, como mãe e como profissional. E, por muito tempo, acreditei que suportar em silêncio era o caminho. Hoje, sei que não era.

Me casei acreditando no amor, acreditando na parceria. Tínhamos uma filha a caminho, uma vida inteira pela frente e muitos sonhos a serem vividos. Mas, logo após o nascimento da minha primeira filha, o homem que havia jurado cuidar de mim se afastou, emocional e fisicamente, e as agressões psicológicas começaram. Eu tentava compreender, tentava reconectar, insistia no que já não existia. Não casei para separar – repeti isso tantas vezes para mim mesma.

Insisti, mesmo quando ele passou a me ferir com palavras. Quando dizia que meu trabalho não prestava, que eu era incompetente. Quando desdenhava do meu mandato, usando até mesmo palavras de baixo calão. Quando dizia sentir nojo do meu leite enquanto eu amamentava. Ainda assim, eu me calava. Por medo, por vergonha, por acreditar que tudo ia mudar. Eu me calei. E me arrependo profundamente de ter silenciado a minha voz.

Enquanto eu lutava na vida pública, ele me sabotava na vida privada. Nunca me apoiou com sinceridade, apenas por conveniência. Nem mesmo compareceu à minha posse de reeleição como vereadora. Eu seguia tentando. Mesmo depois de descobrir uma traição, em que a outra pessoa chegou a me mandar mensagem expondo o relacionamento entre eles, tentei reconstruir. Engravidei do segundo filho mais uma vez tentando corrigir a rota do abuso com amor. Ao invés da relação dar sinais de melhora, os abusos se transformaram em pesadelos diários e a pressão psicológica e moral passaram a ser regra dentro de um lar que deveria ser um porto seguro.

Fui xingada, maltratada, ameaçada e humilhada criando, infelizmente, uma rotina de sofrimento. Me agarrei à falsa esperança de que o amor pudesse curar o que, na verdade, era abuso. Mas não há cura quando não há respeito. Não há reconstrução possível onde há destruição emocional diária.

A distância entre nós passou a ser questão de segurança para mim e quando decidi avançar na política almejando um cargo maior, ele se reaproximou – não por mim, mas pelo interesse no que eu representava.

E, mais uma vez, me iludi acreditando que a prestatividade dele era real, mas o tempo provou que eu estava errada. Ele continuou a me machucar psicologicamente e a me humilhar moralmente. E, em 2023, ultrapassou todos os limites: me agrediu fisicamente pela primeira vez. Eu tive medo. Tive vergonha e optei por não contar nem para minha família, que já havia entendido o relacionamento abusivo em que eu estava.

Pensando em proteger nossos filhos do trauma de um divórcio e com medo de expor minha vida em público, decidi seguir com medo.

Nos últimos tempos, minha vida ganhou intensidade. Me dividi entre Brasília e meus filhos, entre compromissos e a maternidade. Direcionei todo meu amor para meus pequenos. Sempre fui mãe, mesmo sob ameaças. Mesmo ouvindo gritos e ofensas e sofrendo agressões. Passamos a coexistir no mesmo ambiente, dividindo apenas o mesmo teto. Eu estava sozinha, buscando forças para sair de um relacionamento que nunca deveria ter sido construído. Em 2025 resolvi seguir com minha vida para tentar voltar a ter paz, ele reagiu com ódio e me espancou pela segunda vez, agora com mais intensidade. E finalmente resolvi falar. Tive coragem de procurar a delegacia, de fazer o boletim de ocorrência, o corpo de delito, e pedir uma medida protetiva. Porque não cabe amor onde existe violência.

Eu sobrevivi.

Busquei em Deus a força e a coragem que eu precisava, e agora, finalmente, eu falei. Falei por mim e por todas as mulheres que sofrem em silêncio. Falei porque quero viver feliz, e a felicidade só é possível com paz. Tomei meu primeiro passo para romper de vez esse ciclo. Meu divórcio já foi consumado pela justiça que entendeu os abusos que vivi e me garantiu a guarda dos meus filhos.

A justiça já conhece a minha verdade, e sei que para uma pessoa que só conhece a agressão, falta a ele tentar agredir minha imagem de maneira pública. Vão usar desse infeliz episódio como uma manobra política para tentar abafar os abusos que vivi em troca de desgaste de imagem e eu não vou aceitar isso.

Eu vou resistir assim como eu já resisti aos abusos morais e físicos. Eu sei que tenho a verdade ao meu lado — e mais: tenho minha história, meu trabalho limpo e o apoio de quem sempre me viu com respeito.

Não quero mais carregar essa dor calada. Não quero mais fingir que está tudo bem. Não aceito mais ser abusada, nem física, nem moral, nem psicologicamente. E se você, mulher, estiver lendo isso e vivendo algo parecido, saiba: você não está sozinha. Não tenha medo de denunciar, de pedir ajuda, de buscar sua liberdade.

Hoje, eu começo a escrever um novo capítulo da minha vida. Um capítulo de cura, de força, de dignidade.

Por mim. Pelos meus filhos. Por todas nós.

Marussa