Um mês após o 7 a 1, futebol brasileiro segue perdido

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selecaoUm mês após a Seleção sofrer a maior goleada de sua história em uma Copa do Mundo, não há o mais pálido sinal de mudança nas estruturas do futebol brasileiro. De pires na mão, os clubes lutam para sair do atoleiro financeiro e renegociar suas bilionárias dívidas. Times tradicionais, o Botafogo entre eles, não conseguem honrar nem mesmo o salário dos jogadores. No Campeonato Brasileiro, a melhora do público (a média cresceu de 12 mil para 17 mil por partida após o Mundial) não compensa o custo dos novos estádios.

A Seleção permanece à deriva. Em seu simulacro de reforma, a CBF resgatou do limbo o técnico Dunga e escolheu como novo coordenador Gilmar Rinaldi, ex-agente de jogadores. Diante desse nebuloso cenário, os únicos sinais de esperança vêm de projetos de lei que buscam mais transparência e disciplina na gestão dos clubes e federações. Os avanços mais significativos são, porém, sistematicamente boicotados pela Bancada da Bola no Congresso.

Na terça-feira 5, uma comissão do Senado aprovou um texto que estabelece normas rígidas de fiscalização às entidades do futebol. Entre outras medidas, o projeto obriga a CBF a encaminhar anualmente suas contas para apreciação do Tribunal de Contas da União e informar trimestralmente ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras movimentações acima de 5 mil reais. A lei representaria um duro golpe à cartolagem e suas nebulosas negociatas. Mas a tramitação da proposta, de autoria do senador tucano Álvaro Dias, enfrenta obstáculos.

“Em julho, costuramos um acordo com as lideranças de todos os partidos para levar o projeto diretamente para a votação no plenário. De última hora, o PMDB retirou sua assinatura. Agora, o caminho será bem mais longo”, explica o senador do PSOL Randolfe Rodrigues, relator do texto na Comissão de Educação, Cultura e Esporte. “Mantive a essência do texto, com alguns aperfeiçoamentos. Mas temo o que ocorrerá quando ele passar pela Comissão de Fiscalização. O relator será o petebista Gim Argello, que tem excessiva boa vontade com a cartolagem.”

Em 2013, Argello foi relator da Medida Provisória  nº 615, que possibilitou aos clubes em atraso com a Timemania negociar o retorno à Loteria Federal. Naquele período, o senador foi procurado pela ONG Atletas pela Cidadania, que pediu para incluir no texto uma emenda com regras de transparência para os clubes e federações, entre elas a limitação dos mandatos de dirigentes esportivos em quatro anos, com direito a apenas uma reeleição. Argello recusou-se a acatar a sugestão.

“Não será fácil vencer o lobby da CBF, mas é indispensável criar mecanismos de fiscalização”, afirma Rodrigues. “A Lei Geral da Copa definiu que a CBF goza de isenções fiscais. Além disso, ela representa o País em competições internacionais e beneficia-se dos estádios públicos de futebol. Portanto, deve prestar contas à sociedade.”

Em tramitação na Câmara, outro projeto desperta grande expectativa: a recém-batizada Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte. O projeto original, conhecido como Proforte, previa o parcelamento da dívida tributária dos clubes no prazo de 20 anos, com descontos de até 25% em caso de antecipações no pagamento. Além disso, 90% dos débitos poderiam ser trocados por prestação de serviços, como a formação de atletas para modalidades olímpicas ou atividades de iniciação esportiva.

Cartacapital