Suicídio de pai ou mãe é forte como um abuso, mas criança deve saber a verdade

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Psicóloga lança livro ‘E agora?’ com o intuito de criar uma ferramenta para ajudar crianças que perderam parentes por suicídio a falar sobre o assunto e superar traumas

suicidioA criança que perde alguém por suicídio vive o luto duas vezes. A primeira quando a pessoa morre e a segunda quando ela sabe qual foi a causa da morte. A psicóloga Karen Scavacini, mestre em saúde pública e especialista em prevenção ao suicídio, defende que, nestas situações, a família deve fugir do caminho aparentemente mais confortável de evitar o assunto ou de contar mentiras. O ideal e falar com a criança sobre o que aconteceu.

Karen explica que não falar sobre o assunto só contribui para deixar a criança solitária, desamparada e desconfiada. E mais: não contribui em nada para a prevenção de suicídios. Pensamentos relativamente corriqueiros como “a vida é mesmo uma droga” podem ganhar um peso maior e desnecessário para filhos ou netos de suicidas.

No Brasil, acontecem dez mil suicídios por ano, o que representa um a cada hora. Um tanto deles devem ser de homens e mulheres que deixam filhos pequenos. Para auxiliar pais, psicólogos e educadores na missão de ajudar a criança a enfrentar o luto decorrente do suicíd
io, Karen escreveu o livro E agora?(ed. All Print; 64 págs.)

Uma conversa longe de ser fácil, principalmente pelo fato de o adulto também estar enlutado e emocionalmente abalado. Leia abaixo a entrevista:

iG: Como contar para uma criança que o pai, a mãe, ou o avô dela se matou?Karen Scavacini: A criança vai entender com o tempo e vai voltar no assunto várias vezes. Então é preciso explicar numa primeira vez de uma forma simples. Depois disso, ela vai retornar ao assunto várias vezes, trazendo perguntas. É um processo. O importante é começar a falar.

iG: Você pode dar um exemplo de como falar?
Karen: É preciso ser simples e mostrar que está ali para conversar com ela. “Olha, eu preciso conversar com você sobre como tal pessoa morreu”. Se a pessoa estava com depressão, é preciso falar que ela estava muito triste e essa doença que ela tinha, que chamava depressão, deixou ela tão triste e tão confusa que ela acabou colocando uma corda no pescoço de modo que ficou tão forte que faltou ar e morreu.

iG: Assim?
Karen: É impactante, né?

iG: Muito.
Karen: A criança vai entender com o tempo. Ela precisa saber que pode conversar, que tem apoio em casa. Quando você não conta, muitas vezes ela acaba descobrindo de forma inadequada. É melhor explicar do que um dia alguém chegar e falar “nossa, seu pai morreu por suicídio”. Estudos mostram que, em casos de suicídio, a criança vive o luto duas vezes: uma quando o parente morre e outra quando ela descobre que foi suicídio. Nessa situação, como que a fica a confiança desta criança em quem não contou antes? Algumas pesquisas dizem que o impacto do suicídio de um dos pais é tão forte quanto um abuso que a criança tenha sofrido. Quanto mais a família não fala do assunto, mais faz com que o tabu aumente. Fazer de conta que nada aconteceu? Contar uma mentira e depois outra? E depois outra? É difícil contar, mas é necessário.

iG: Mas na maioria dos casos não se fala…
Karen: Não. E, como não se fala, cada um vai para um canto. Não tem contato. Então uma família que poderia se unir, se separa. Até porque dentro de uma mesma família existem várias formas de lidar com o enlutamento. Tem um que vai chorar mais, outro vai ficar mais quieto, ou agressivo. O suicídio tende a ser um assunto proibido na família. Só que imagina que a criança chega na adolescência e comece ela mesma a ter algum pensamento suicida. Porque este pensamento é normal, todo mundo tem em algum momento da vida. Agora imagina dentro desse contexto. Se ela não pode falar sobre isso, não pode pedir ajuda. Calar pode fazer aumentar uma questão que muitas vezes nem era relevante.

iG: Trabalhar o luto da criança também tem a ver com a prevenção, é isso?
Karen: Sem dúvida. Você previne o desenvolvimento de transtornos mentais muito sérios. Ou pelo menos vai poder cuidado desse transtorno para que ela tenha uma vida com menos impacto do que teria sem nenhuma ajuda. E você pode prevenir também novos suicídios, porque o luto do sobrevivente é muito mais traumático, duradouro e intenso. É um sentimento muito grande de culpa. Vergonha. Imagina tudo isso em uma família com uma criança. Os adultos não estão bem emocionalmente. É preciso mostrar para ela que está sendo difícil, sim. Dói muito, sim. Mas junto é possível superar. Não adianta o adulto só cuidar da criança e a criança perceber que ele está muito depressivo, que não se cuida, não sai do quarto. É uma situação muito difícil, por isso que muitas vezes se quebram os laços familiares.

iG: O que não se deve falar para a criança?
Karen: É importante deixar ela perguntar, se mostrar disponível, falar que está disponível para conversar no momento em que ela quiser. É lógico que com muita sensibilidade. Você não vai chegar e contar detalhes de que a pessoa deu um tiro na cabeça e que a parede e a cabeça estavam assim, assim, assim. Não se faz isso. A conversa deve obedecer uma linguagem de criança. “Olha, ele não estava bem”, “ele não estava pensando direito” “Por não estar bem e achar que nada ia resolver, por mais que soubesse que a gente podia ajudar, ele acabou pulando de um prédio e morreu”. Tem que ser linguagem simples.

iG: Existe um medo de a criança se sentir rejeitada.
Karen: Muito. A criança já normalmente vai achar que qualquer coisa que aconteça é culpa dela. Então é preciso explicar que o suicídio ocorre por muitas coisas, que é um mistério, que a gente não tem todas as respostas, nem um culpado e que nada do que a criança pudesse ter feito ou falado iria mudar o que aconteceu. Isso é importante para que ela não pense coisas como “eu não falei pro meu pai que eu amava ele”, “e se eu não tivesse quebrado aquele copo”. Porque isso é fantasia de criança.

iG: Mesmo sendo extremamente importante, parece muito difícil para uma mãe que acabou de perder o marido, por exemplo, falar assim com a criança.
Karen: É muito difícil. Principalmente responder perguntas como: “mamãe, o papai não me amava?”, ou “se ele me amasse ele não ia fazer isso, né?”. Mas tem que falar que suicídio não tem nada a ver com amor, nem com falta de amor. Tem a ver com sofrimento. Não é culpa da mãe ou da criança. Mas isso é uma coisa que se trabalha por anos. É um processo. Uma coisa comum é a criança brincar e representar com bonecos o momento da morte. O adulto pode ficar horrorizado com isso, mas é preciso saber que isso é uma forma da criança lidar com isso, poder representar, refletir e passar por isso.

iG: Como o assunto deve ser tratado nas escolas?
Karen: Nas escolas, a criança vai precisar de um acolhimento quando retorna às aulas. Para isso, muitas vezes a escola vai ter de conversar com os alunos da sala antes. Porque tem criança que vai querer se isolar, tem criança que vai querer atenção, que não vai fazer os trabalhos. Só que a escola não quer falar sobre isso. Quando muito, simplesmente ignoram. Tem casos de escola que após duas semanas já diz: “olha, tem o trabalho que você não entregou”, “vai ter prova na semana que vem”. Então a criança está tendo o seu luto negado.

iG: Que insensibilidade…
Karen: Total. Assim como eu já escutei pessoas que foram a grupos de luto e quando chegaram lá e disseram que era luto por suicídio, teve gente que levantou e saiu. Falando “não, o seu escolheu se matar. O meu morreu por acidente. Não quero falar com você”. As famílias passam por uma discriminação muito forte. As pessoas são muito insensíveis. Tem muito julgamento. Lançam perguntas como: “Você jura que nunca percebeu nada mesmo?”.

iG: Dá para perceber?
Karen: Muitas vezes não. Embora eles deem sinais, estes sinais geralmente são interpretados apenas depois da morte. Agora você imagina uma criança que ouviu o pai falar que não queria mais viver, ou que estava convivendo com diversas tentativas de suicídio. Às vezes a pessoa faz cinco tentativas até que morra, são os suicídios incompletos, como a gente chama. E as crianças estão ali no meio disso tudo, já lidando com o transtorno mental. Com um pai com depressão, uma mãe com depressão que já teve uma tentativa.

iG: Existem grupos de apoio?
Karen: No Vita Alere, o instituto em que eu trabalho, a gente abriu um grupo para sobreviventes. Não foi nenhuma criança, até porque a gente não abriu para criança. Para eles, precisa de algo específico como tem lá fora, uns acampamentos para enlutados por suicídio. Então as crianças vão para estes acampamentos e conversam abertamente e aprendem abertamente sobre o que é o suicídio, que não é culpa de ninguém, que é multifatorial. E elas convivem com crianças que passaram pela mesma situação, sentem pertencimento, sente que alguém que vai entender o que ela está falando.

iG: Você falou muito em trabalhar a prevenção. Como se previne o suicídio?
Karen: A primeira coisa é a conscientização. É preciso que as pessoas saibam que isto existe e que é preciso estar atento. Outra coisa é diminuir o acesso ao meio. Hoje, qualquer pessoa compra chumbinho, aquele raticida. Tem muita gente que tem arma. Diminuir consumo de álcool e drogas e tratar depressão são outros exemplos. A gente tem hoje no Brasil 10 mil suicídios por ano, é um suicídio por hora. É muito. No mundo, é um suícidio a cada 40 segundos e a projeção é que isso dobre até 2020. Aqui no Brasil, de 1998 a 2008, houve um aumento de 33% nas nossas taxas de suicídio. Em algumas regiões, subiu 300%. Foi um aumento muito maior do que o da população, dos acidentes de carro e dos homicídios. No Brasil, a taxa é de sete homicídios para cada suicídio. Apesar de ainda estarmos abaixo da média mundial, em números absolutos o País é um dos dez primeiros, porque é muito populoso.

IG