“Sou hoje o que o Gugu foi para mim”, diz Marcos Mion

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marcosSão quatro horas da tarde. Com a plateia lotando o estúdio e Juju Salimeni ao centro do palco, montada em um touro mecânico,BladeMionzinho em seus lugares, Marcos Mion vai começar a gravar mais uma edição do “Legendários” na Record. Há quatro anos no ar o programa é vice-líder isolado na TV aberta.

O diretor avisa que o programa vai começar. Mion se posiciona e começa sua maratona semanal, que costuma durar pelo menos quatro horas. O programa é especial: recebe pela primeira vez a dupla Chitãozinho e Xororó. A plateia empolgada vibra com a entrada dos sertanejos no palco. O apresentador não esconde a emoção em recebê-los. O dia promete ser especial.

Origens

Coincidência à parte, ou não, foi justamente com os filhos de Xororó que Mion apareceu pela primeira vez na televisão. Ele foi um dos personagens do seriado “Sandy & Junior”. Participou da primeira temporada, exibida em 1999.

“Eu nunca quis ir para a televisão, sou de palco, de teatro, essa é a minha criação. Achava que quem ia para a TV vendia a alma… (risos). Uma produtora foi assistir a uma peça minha e me chamou para fazer o seriado. Dei muita risada, falei: ‘Não vou fazer Sandy & Junior’. Estava fazendo uma tragédia grega do Sófocles!”.

Foi a mãe, que naquela época o “colocava nos eixos”, que o convenceu a tentar, alertando para o fato de que se ficasse conhecido na televisão, atrairia mais pessoas para assistirem a seus espetáculos. Acabou que ele não saiu mais da TV e se orgulha de dizer que tudo começou no seriado de Sandy Leah e Junior Lima.

“Quando conheci os dois, percebi que eles eram totalmente dedicados a tudo que eles faziam tanto como cantores, quanto ali no seriado. Estavam de corpo e alma, faziam com muita verdade. Comecei a me ligar nisso, comecei a aprender como eles se comportavam como artistas, com os fãs, com os figurantes, com a produção. E fui pescando uma coisa ou outra que aprendi e levo até hoje.”

MTV

Até que surgiu a chance de fazer o que sempre quis. Entrar para a MTV. Morando nos estados Unidos quando era moleque, conheceu a emissora musical muito antes dela chegar ao Brasil. A identificação foi imediata. “Eu pirava com aquilo ali. Antes de querer ser ator, apresentador, eu sempre consumi muito cultura pop, sempre foi o tipo de coisa que me atraiu. Eu sentia uma coisa pela MTV! Falava: ‘não sei o que é isso. Não sei o que eu tenho que fazer para estar lá, mas é lá que eu quero estar.”

Foi então que após ser recusado em um teste porque na época a emissora só contratava mulheres, Mion realizou o sonho. O que incluiu ter de dizer “não” para a TV Globo.

“Foi uma decisão muito difícil, até porque a Globo não está acostumada a levar um não, por mais que eu não fosse uma pessoa que fizesse muita diferença no casting na época. Chegar alguém e falar assim, quando eles botam uma proposta de renovação: ‘Não quero, valeu’. ‘Não quer? Como assim, não quer? Tá maluco cara?’.”

Band

Da MTV, Mion partiu para sua primeira grande prova de fogo. Apresentar um programa na Band onde ficou entre 2002 e 2004. “Naquela época da Band lembro que li matérias falando: ‘a carreira do Marcos Mion acabou’. E eu tinha 24 anos. Imagina você falar isso para uma pessoa de 24 anos? Fiquei muito triste, acabado, mas usei isso como uma tremenda motivação.”

Ele considera que sua passagem pela Band foi um sucesso, que foi onde começou o novo jeito de se fazer humor e televisão em programa de auditório. “Se estivesse no ar até hoje seria ouro!”, acredita. Mas já que a Band resolveu não renovar o contrato, ele aproveitou a deixa para uma pausa.

“Para mim foi um momento muito importante. Desde que eu tinha começado na MTV, nunca tinha parado. Esses cinco anos da minha vida entre a MTV e a Band foram como se eu tivesse sido abduzido. Não tinha parado para pensar o que tinha acontecido comigo. Não tinha conseguido gastar um real de tudo o que eu tinha ganhado.”

E foi neste período que pode viajar, conhecer a Europa e, o principal, encontrar Suzana Gullo, com quem é casado até hoje e tem três filhos.

Mas o ano sabático que tinha resolvido tirar para si durou apenas cinco meses, já que acabou voltando para a MTV. Onde, segundo ele msmo, poderia ter ficado para sempre. “Poderia ficar lá me reinventando o tempo que fosse. Ia ser bom, ia ser tranquilo, já tinha todos os recordes de audiência, já tinha feito todos os VMBs que eu queria, já tinha feito todos os programas.” Mas ele queria muito mais do que falar apenas para uma plateia segmentada, formada por seus amigos. Ele queria o Brasil.

“Legendários”

“Me caiu a ficha de falar assim: ‘poxa, não quero chegar num ponto onde eu esteja velho demais para estar aqui falando para essa molecada e se eu sou hoje um comunicador, quero mais, quero falar com o povo brasileiro. Quero fazer o jogo do jeito que tem que ser, entendeu?”

Foi aí que surgiu o Legendários. “Quando decidi vir para a Record eu disse: ‘Não posso errar. Isso aqui é a minha vida, é a minha carreira. Tenho uma família, tenho filhos, então a responsabilidade é grande’. Quando eu vim, foi para dar um passo firme e certo.”

E ele deu. Sucesso até hoje, Mion acredita que o resultado positivo é a união de seu talento e muito trabalho. “Não existe uma fórmula, se existisse, todos os programas teriam audiência e o Ibope seria a coisa mais equilibrada do mundo, né? Então não tem uma regra. Acho que o que tem é acima de tudo, tudo, tudo, a vontade. E aí só tem uma coisa que faz funcionar. Duas vai: uma é talento, que aí te coloca no caminho, mas não te faz andar. O que faz você andar é o trabalho. Trabalho, dedicação, privação da sua vida, não ter medo de tentar de novo, humildade e trabalho, trabalho sem horário, sem nada, até o negócio virar. E nisso, modéstia à parte, eu sou bom.”

Enquanto interage com os convidados, Marcos Mion consegue ao mesmo tempo estar de olho na plateia e suas reações, que muitas vezes acabam deixando o programa ainda mais saboroso, como o que ocorreu na gravação que o iG acompanhou. Uma senhora se reconheceu em um vídeo exibido no quadro “Vale a Pena Ver Direito”, que mostrava uma apresentação da dupla Chitãozinho e Xororó em um programa da Record na década de 1980.

“Fico muito ligado com a plateia. Eles são um termômetro. Se não estão gostando, tenho que mexer as coisas ali rapidamente.”

Ele tem consciência do papel que ocupa na televisão brasileira hoje em dia. “Acho que sou para essa geração o que o Gugu foi para mim. Porque cresci assistindo ao ‘Viva a Noite’. O Gugu ajudou a me moldar e hoje é uma inspiração clara para mim. Sou o cara do sábado à noite hoje para muita gente. Que traz a bagunça, a loucura, a diversão, os artistas, as meninas e tenho muito orgulho disso. Essa mistura que é o Legendários é o melhor projeto que eu poderia estar fazendo hoje.”

Paizão

Apenas a família dá mais prazer a Mion do que o trabalho. Sua voz ganha mais ternura no momento em que começa a falar sobre os filhos.

“Sou paizão. Eu sou, eu sou, eu sou… ah… eu sou! Do jeito mais puro e intenso que essa palavra possa representar. Sempre quis ser pai, sempre quis. A questão de você ter a responsabilidade de cuidar de alguém, de passar adiante, de moldar e cultivar e dar subsídios para uma pessoa crescer e ser um ser humano legal, do bem, bacana, digno, ético são coisas que eu sempre quis. Falo que se pudesse ganhar um salário, queria ser motorista dos meus filhos e babá o dia inteiro. Faria para o resto da minha vida feliz. Se a Record quiser me pagar para eu fazer isso… Minha família é realmente minha maior motivação. Acho que por tudo, pelo meu filho mais velho ser especial… Isso gerou uma coisa desde muito cedo, tive ele com 25 anos, gerou um cordão umbilical entre eu e ele assim para sempre, então isso me trouxe muito para o chão também, na questão de ser pai, de prover, de proteger, de criar e isso acaba sendo o mais importante.”

IG