Série Mudanças no Futebol: “A CBF fecha os olhos”

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cbfDas heranças da Copa do Mundo no Brasil, a que se espera manter sob os holofotes, mesmo após um mês do fim do Mundial, é a necessidade de mudança. Essa foi a conclusão de uma série de entrevistas que o GGN realizou, após o desastre no placar, que se tornou o alerta para buracos ainda maiores. Entretanto, para cada especialista, uma resposta.

A fim de questionar os principais pontos – onde está o problema do futebol brasileiro? Por que perdeu a sua competitividade? Qual é o cenário da base, dos clubes, da Confederação, dos empresários, e como isso tudo reflete na competição e na lucratividade? Como melhorar? – conversamos com Roque Citadini, ex-dirigente do Corinthians e conselheiro vitalício do clube. Hoje, é presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.

Acompanhe a entrevista:

GGN: A lei Pelé está atualizada?

Roque Citadini: Não, eu acho que a Lei Pelé foi um avanço, mas precisa ter mudança, até pelo tempo dela. Mas a principal crítica que se faz à Lei Pelé é totalmente improcedente. É de que ela acabou com as categorias de base dos clubes. Não é verdade. E que acabou com a Lei do Passe, o passe do jogador.

Na verdade, quem acabou com o passe foi a comunidade econômica europeia, que forçou a Fifa a aceitar, para os contratos de futebol que, terminado o contrato, o jogador é livre. Então, não foi a Lei Pelé que, segundo dizem os grupos mais conservadores, retrógrados, prejudicou o futebol brasileiro. Não é verdade.

A Lei Pelé apenas aceitou que não dá para existir mais o passe. Qual é o vínculo entre um jogador e o clube: o contrato. Que tem cláusulas, obrigações, salário, tudo e tem, a hora que o contrato acaba, acaba o contrato.

GGN: E os avanços que a Lei Pelé trouxe?

Roque Citadini: Ela teve alguns avanços, mas, hoje em dia, estamos precisando mudar o futebol.

O primeiro detalhe para mudar é o seguinte: é preciso ter uma lei de responsabilidade de gestão dos clubes. O que significa isso? Os clubes no Brasil não são empresas, eles são ligados a clubes sociais. E, historicamente, eles tiveram este vínculo com os clubes sociais que dá uma certa irresponsabilidade no gestor.

Quer dizer, você contrata jogador sem ter dinheiro, promete pagar salário sem ter dinheiro, e isso implica em duas coisas: primeiro, não pagar, aumentar a dívida; segundo, começar a não pagar imposto de renda e não pagar fundo de garantia. Então, é preciso estabelecer uma lei de responsabilidade na gestão, de forma que os clubes, como ocorre na Alemanha, tenham um orçamento equilibrado.

A segunda necessidade é criar uma agência do futebol que passe a fiscalizar os clubes, de forma que tenha que publicar balanço, auditar as contas, ter conta equilibrada. E quem não tiver isso, não participa das disputas.

Conquanto eu seja muito crítico a muitas agências, por exemplo, hoje as agências, boa parte, estão dominadas por quem elas deveriam fiscalizar. Então, eu não estou dizendo que as agências sejam a melhor coisa, mas é preciso ter um órgão público. Tem que ser público, porque se for dos clubes não funciona, que se faça como faz na Alemanha.

Na Alemanha isso funciona bem. O clube que não tiver equilíbrio orçamentário não disputa o campeonato. Por exemplo, na Espanha, tem a mesma legislação, mas na Espanha não funciona, os clubes chegam no final do ano, gastam mais do que podem, não têm dinheiro e a agência acaba não fazendo nada. Então precisa, isso é muito importante.

Outro detalhe, o governo já ajuda os clubes. Não é verdade que o governo não ajuda. Todos os clubes estão construindo centro de treinamento com dinheiro de gestão fiscal, parecido com a Lei Rouanet. Só que o governo comete um erro: ao abrir mão de um imposto, ele não cobra nada, e ele deveria cobrar. Quer dizer, cobrar uma contrapartida, não é o dinheiro, é cobrar uma responsabilidade e cobrar, por exemplo, o clube que recebe dinheiro para construir um centro de treinamento tem que ter categorias de base e de jogadores que joguem no Brasil. Porque as categorias de base no Brasil acabaram sendo tomadas por empresários que querem pegar o menino de 12, 13, 14 anos e levar para a Europa. Aí acontece o que está acontecendo, nós temos nenhuma identidade nacional.

Agora, como o governo já está dando dinheiro para construir centro de treinamento e para parcelar dívida – tudo isso é dinheiro do governo –, tem que se cobrar uma política de formação de jogadores.

Quarta coisa, há uma ideia falsa de que a Fifa não aceita que o Estado regulamente o futebol e não é verdade. Todos os países têm lei que regulamenta. Em uma mudança da lei Pelé, duas coisas são essenciais: acabar com a reeleição e mudar os eleitores, tanto da Federação quanto da CBF, quem deve eleger o presidente da CBF são os clubes da primeira e segunda divisão, como é no mundo inteiro. Então, quem vai votar é o Corinthians, o Flamengo, o São Paulo, etc. Os clubes que disputam as divisões superiores. As Federações, também a mesma coisa.

Agora, não há nenhum problema se o governo fizer uma lei acabando com a reeleição e se tiver uma lei estabelecendo que quem vota são os clubes e não as Federações.

A história de que a Fifa não aceita é tudo bobagem. O que a Fifa não aceita é quando você muda o resultado do jogo. Por exemplo, o time perdeu de 2×1, o juiz decide que o time ganhou porque ele anula um gol, ele não pode anular um gol. A Fifa não quer interferência naquele espaço, não é na gestão do futebol. E, aliás, pelo contrário, todos os países têm uma entidade eleita na forma como o governo estabelece.

GGN: O Romário tem feito algumas tentativas de circulação de mandatos nas Federações e CBF, por meio de uma regulamentação, sob pena de impedir a drenagem desses recursos para a Federação, o senhor concorda com uma medida como essa?

Roque Citadini: Eu concordo. Só alterando a Lei Pelé, estabelecendo que quem vota nas eleições para entidade superior do futebol são os clubes. Pronto, não tem problema nenhum. Estou de acordo. E também concordo com o que ele propõe que, para aqueles clubes que não tiverem uma execução orçamentária adequada, eles fiquem sem dinheiro público.

GGN: Hoje, quais seriam as medidas para evitar o êxodo dos talentos, de craques brasileiros para o exterior?

Roque Citadini: Aí é o seguinte, a Fifa determina uma norma que os jogadores têm que ser dos clubes, o que quer dizer o seguinte, o menino que joga na categoria de base do Corinthians é do Corinthians. Não é de uma empresa ou do empresário. Infelizmente, a CBF aqui não aplica essa norma, que a Fifa aplica. A Fifa não respeita jogador quando ele não é do clube e aqui a CBF fecha os olhos.

GGN: Não conflitaria com a questão antiga do passe?

Roque Citadini: Não, porque acontece o seguinte: você é do clube, você só pode é ter contrato com o clube. A hora que vencer o contrato, você está livre. Mas ele pode ir para outro clube. Ele não pode ficar livre para um empresário, para uma empresa, como essas, Sonda, Pão de Açúcar.

GGN: Como equilibrar liberdade de contratação com responsabilidade do estado de zelar pelo futebol?

Roque Citadini: A liberdade do jogador eu acho que tem que ser mantida, ele pode procurar o clube que ele quer. Agora, ele deve respeitar os contratos que ele assina. Esse é um problema no Brasil, porque aqui você entra na Justiça do trabalho e quebra o contrato com a maior facilidade. Na Europa, você não quebra. Na Europa, você não vai na Justiça e quebra um contrato que você fez com um clube, por uma pendenga qualquerzinha. Então, a primeira coisa é tornar que os contratos não se quebrem. Aqui, a Justiça dá uma medida cautelar e libera o jogador na hora. E aí o jogador vai para o outro time que vai pagar mais, e isso precisa acabar. O contrato precisa ter liberdade para fazer e responsabilidade para cumprir.

GGN: Até que ponto o controle do futebol deve ficar nas mãos de clubes e empresários ou na mão do Estado? Qual é o limite de um e outro?

Roque Citadini: O limite é o seguinte: eu acho que há espaço muito claro. Se você deixar o Estado fora, totalmente fora, o negócio não vai. Se o Estado quiser administrar o futebol também não vale. Há um espaço de normatividade que o Estado tem que ter na organização e há um espaço onde os clubes têm na sua gestão e no seu trabalho.

Veja só, das grandes mudanças que o futebol brasileiro teve, apenas duas, só duas saíram da CBF. É o campeonato por ponto corrido e é o de 1958, a CBF entregou, praticamente terceirizou, para um grupo aqui em São Paulo organizar a Copa de 58. Não tem mais nenhum momento em que a CBF tenha feito alguma medida no sentido do avanço das normas do futebol. Deixar para a CBF é não mudar nada.

GGN: O problema das categorias de base, dos calendários de jogos, como avalia?

Roque Citadini: Eu acho que o Estado está dando dinheiro e deve cobrar que os clubes tenham categoria de base, que sejam dos clubes, e que revele os jogadores.

Os calendários dos jogos é o seguinte, a história de que devemos adotar o calendário europeu é falsa. Porque acontece o seguinte, o calendário de um país é determinado pelas estações do tempo, no verão você tem férias, no outono, inverno e primavera, você trabalha. A ideia de que nós vamos trabalhar no verão e ter férias no inverno é uma coisa maluca. Nós somos Hemisfério Sul, não somos Hemisfério Norte. O país perde até identidade. Falar que vamos jogar na véspera do Natal e no dia 2 de janeiro? Não tem nem pé nem cabeça adotar calendário europeu.

GGN: E de coincidir campeonatos, de alguns clubes jogarem mais que os outros?

Roque Citadini: Aí é o seguinte, você tem duas séries do campeonato, que é a série A e a série B, que não têm problema. Os problemas são os clubes menores. Como é que esses países resolvem esses clubes menores? Aí entra o Estado.

Na maior parte dos países, as categorias menores, a terceira série, quarta série, são televisionadas por TV estatal, porque começa a possibilitar os clubes de ter receita. Por exemplo, a série C no Brasil poderia ser televisionada pelas redes de televisão estatal. A televisão é fundamental hoje. Se você colocar a televisão para transmitir, a terceira série passa a ser interessante para o mercado, para todo mundo.

Por exemplo, tem uma série aqui do Campeonato Paulista que era transmitida pela Rede Vida, que é uma televisão católica. A hora que a Rede Vida começou a televisionar, começou a aparecer todo o tipo de interesse. Econômico, de anunciante, de anunciar na camisa. Então, as categorias menores têm que receber auxílio. Elas têm que receber dois tipos: o primeiro, auxílio das entidades maiores, da CBF, dos clubes maiores; e o segundo, do governo que ajuda a viabilizar a televisão nessas áreas.

GGN: As iniciativas de mudança devem partir de quem?

Roque Citadini: Do governo. Se não partir do governo, não anda. Agora eu vou falar uma coisa para você, que pode colocar que eu não vou esconder: as esperanças de mudanças são poucas. Porque os dois grupos hegemônicos na política brasileira, o PT e o PSDB, têm entre seus quadros pessoas que não querem mudar nada na área do futebol. Esta é uma realidade.

GGN