Sem assistência do GDF, criadouros do Aedes estão espalhados pela capital

Share on facebook
Share on twitter
Share on google
Share on whatsapp
Share on linkedin
Share on telegram
Share on email

Piscinas desativadas, espelho d’água sem manutenção, pneus abandonados. Tudo em área pública

Enquanto as autoridades cobram uma posição mais combativa da população ao Aedes aegypti, o próprio Executivo local não faz o dever de casa. Em vários pontos da capital federal, piscinas abandonadas, pneus em vias públicas, coberturas de pontos de ônibus acumulando água são potenciais focos do mosquito transmissor da dengue, da febre chikungunya e do zika vírus. Apesar dos flagrantes, somente daqui a dois dias, o GDF vai definir o que fazer com os focos do inseto que estão em área pública. Ontem, o Correio mostrou que cerca de 30% das casas não recebem a visita dos agentes de vigilância ambiental.

A relação do brasileiro com o Aedes aegypti é pautada pelo vai e vem. Em abril de 1955, a Fundação Oswaldo Cruz erradicou todos os focos do mosquito. Dezoito anos depois, em 1973, novamente, o inseto havia sido dizimado após reaparecer no Pará, em 1967 (veja quadro). Este ano, além das contaminações de dengue, a peleja é para evitar chikungunya e, sobretudo, zika, que tem provocado o nascimento de bebês com microcefalia em todo o país. No DF, são 12 suspeitas e dois casos sob investigação de ter relação com o zika, segundo boletim divulgado ontem pelo Ministério da Saúde.

O local é o Parque da Cidade, a apenas 3km do centro do poder. A Piscina de Ondas, famosa na década de 1980, está desativada há 18 anos. O local não recebe nenhum tipo de manutenção. “É um absurdo o que fazem aqui. Muita gente passa e pergunta como é o monitoramento, mas não existe. Dizem que tiram a água, mas isso não é feito. Só no período da seca que a piscina ficou vazia, por causa do calor”, reclamou uma funcionária do parque, que pediu para ter o nome preservado. No coração do poder local, o espelho d’água do Palácio do Buriti exibe as marcas do descaso. A água parada se mistura aos entulhos. Em julho, o Correio mostrou o mesmo problema durante a campanha #cidadelimpa.

No Clube Primavera, em Taguatinga Sul, desativado em meados dos anos 1990, o que eram piscinas, saunas e espaços de lazer viraram depósitos de lixo, com muita água parada. “O governo pede que a gente cuide da nossa casa, mas deixa um horror desse acontecer. Fazer campanha para transferir responsabilidade até eu quero”, reclama a administradora de empresas Vanusa Pereira, 38 anos. O perigo pode estar também no ponto de ônibus. O lixo jogado na cobertura represa a água da chuva e torna a estrutura em mais um criadouro do Aedes. “Eu queria que o mosquito picasse todos aqueles que não ajudam na prevenção”, disse uma mulher ao passar pela reportagem.

Em 1996, o Aedes golpeou o DF pela primeira vez com um surto de dengue. Sete anos depois, em 2013, outra explosão da doença afetou mais de 12 mil pessoas. O aumento da infestação do mosquito é atribuído a diversos fatores. Os dois principais são o aumento da ocupação da área urbana e o relaxamento na vigilância. O especialista em epidemiologia e controle de doenças Pedro Luiz Tauil analisou o cenário a pedido do Correio. “São potenciais criadouros do mosquito. Isso mostra a falta de vigilância das autoridades sanitárias. O governo pede ajuda, realiza campanhas, mas isso são ações temporárias e não resolvem questões que somente ele pode trabalhar. Dois pontos são essenciais: a coleta regular de lixo e a fiscalização dos terrenos abandonados.”

No ano passado, cerca de 772 mil toneladas de lixo foram recolhidas nas ruas do Distrito Federal. Isso equivale a 85% do volume produzido e coletado nas casas, que produzem 844 mil toneladas, segundo o Serviço de Limpeza Urbana (SLU). Atualmente, a Agência de Fiscalização (Agefis) monitora cerca de 900 pontos em que há o descarte irregular. “A luta é dura e difícil, mas a única coisa que se pode fazer para diminuir a transmissão dessas doenças é o combate do vetor. O mosquito é o único elo entre as pessoas e as infecções”, destaca Tauil. Enquanto isso, a detecção de dengue está suspensa. A falta de reagentes impossibilita a realização de hemogramas na rede pública. A Secretaria de Saúde reconhece o problema, mas afirma que somente daqui a 30 dias o estoque será normalizado.

Versão oficial
Por enquanto não há data para os criadouros do Aedes em áreas públicas terem fim. O Executivo local promete que vai se reunir na sexta-feira com órgãos envolvidos no Plano de Ação Para o Enfrentamento às Doenças Transmitidas pelo Aedes aegypti para estabelecer medidas. “As ações ocorrem de acordo com a realidade de cada região administrativa”, justifica o governo, em nota.

Em relação à Piscina de Ondas, a Secretaria de Economia, Desenvolvimento Sustentável e Turismo, responsável pela administração do Parque da Cidade, garante que o equipamento é esvaziado, com o auxílio de um carro-pipa, de acordo com a necessidade. “No período de chuvas, essa operação ocorre com maior periodicidade”, afirma o texto da autarquia. A Administração Regional de Taguatinga diz que vai acionar o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) para promover nova limpeza no Clube Primavera. Ainda não há data para a ação.

Denuncie pelo WhatsApp

9256-3846

Quem quiser fazer sugestões ao Correio pode usar o canal de interação com a redação do jornal por meio do WhatsApp. Com o programa instalado em um smartphone, adicione o telefone a sua lista de contatos.

Cronologia do problema

No início do século 20, o combate ao Aedes aegypti era essencial, uma vez que o mosquito transmitia a febre amarela urbana. As ações impulsionaram a execução de rígidas medidas de controle do inseto.

1846
O Aedes aegypti é identificado pela primeira vez no Brasil.

1903
Oswaldo Cruz, nomeado neste ano diretor-geral da Saúde Pública, inicia campanha “mata mosquito”.

1955
A Fundação Oswaldo Cruz erradica os focos do mosquito em todo o país.
1958
O Brasil é considerado livre do vetor pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

1967
O Aedes volta a circular pelo país, sendo identificado no Pará. A verba destinada ao Ministério da Saúde para o combate ao mosquito é desviada para obras.

1969
O mosquito se espalha pelo Nordeste e afeta, principalmente, o Maranhão.
1973
Novamente, o Aedes é considerado erradicado do território brasileiro.

1976
O inseto volta a se espalhar pelo país. Na época, autoridades de saúde justificaram a expansão devido à urbanização acelerada.

1986
O surto de dengue iniciado no Rio de Janeiro se espalha pelo Nordeste, e a situação passa a ser considerada endêmica (frequente).
1990
Acontece a primeira epidemia de dengue hemorrágica no Brasil.

1996
Ocorre o primeiro surto de dengue no Distrito Federal.

2005
O Programa Nacional de Controle da Dengue, do Ministério da Saúde, considera o DF prioritário.
2008
Alerta de risco de epidemia de dengue no DF e em 16 estados.

2013
Surto de dengue atinge mais de 12 mil pessoas. Casos aumentaram 733% naquele ano.

2015
Secretaria de Saúde lança Plano de Ação Para o Enfrentamento às Doenças Transmitidas pelo Aedes Aegypti para conter o avanço do mosquito.

Correiobraziliense

Notícia postada em  

Utilizamos cookies e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e nosso Termos de Uso, ao continuar navegando, você concorda com estas condições.