Seis mulheres são agredidas a cada dia no Distrito Federal

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O Ligue 180, da Presidência da República, recebeu em 2015 mais de 2 mil denúncias de brasilienses atacadas física e psicologicamente.

Quando ele levanta a voz, a mão ou aponta a arma, um dos únicos caminhos de ajuda é a denúncia. Até algum tempo, o jeito era ir a uma delegacia, encarar o agente de polícia e narrar todo o drama. Mas a criação de políticas públicas em defesa das mulheres permitiu que, hoje, com apenas um telefonema, a vítima de violência doméstica relate o caso e alerte as autoridades sobre o risco. No ano passado, o Ligue 180 da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República recebeu 749.024 ligações no Brasil. O Distrito Federal tem a maior quantidade de atendimentos. Foram pedidos de socorro, relatos de agressão física, psicológica, sexual ou apenas informações de mulheres coagidas no lar.

Dos 13.066 atendimentos registrados no Ligue 180 referentes à capital federal, 2.095 eram de histórias de violência — a média é de 5,7 casos por dia no DF. Quase metade, só de agressão física. A realidade é triste e não difere do restante das 27 unidades da Federação e de 4.396 municípios brasileiros (cerca de 79%) contemplados pelo serviço. Em mais de 70% dos casos, as agressões são cometidas por homens com quem as vítimas têm ou tiveram algum vínculo afetivo.

Quebrar o ciclo de violência é o principal objetivo de qualquer política voltada para o assunto. Libertar a mulher e dar a ela um novo rumo. Um futuro. Palavra ausente do dicionário de pessoas como uma autônoma de 29 anos. A primeira coisa que passa pela cabeça a cada sessão de pancada é a morte. Todas as vezes que o ex-marido a batia, ele escrevia uma mensagem a ela. Repetia, em palavras, tudo que tinha feito; e pedia perdão. A vítima guarda em forma de carta cada uma das 500 vezes que teve essa sensação.

Filha de uma psicopedagoga e de um integrante do Ministério Público, ela cresceu em boas condições. Financeiras, principalmente, mas o pai mantinha casos fora do casamento, e isso tirava a família dos eixos. “A vida do casal era um inferno. O meu pai sempre teve vida dupla, e eu cresci nesse desalinho. Ele não batia na minha mãe, mas descontava tudo no meu irmão mais velho”, lembra. As vivências familiares renderam transtorno bipolar, depressão e algumas tentativas de suicídio por parte dela. “Fiquei muito instável emocionalmente”, pondera. A fragilidade a mergulhou em um ciclo de violência.
A primeira união oficial, com um homem até então bom para ela e o filho do antigo relacionamento dela, não deu certo. Acabou arruinada pela bebida e agressões. “Eu cheguei a ficar grávida, de gêmeos, mas, em uma das brigas, discussões, ele me agrediu e eu tive os bebês aos 5 meses. Não resistiram”, lamenta.

A relação chegou ao fim. Mas a violência, não. No segundo casamento, ela vestiu-se de noiva, entrou na igreja e prometeu amar e respeitar em troca das juras do amado, um bem-sucedido policial federal. Um ano após o matrimônio, tudo mudou. “Ele começou a usar cocaína. Eu tentava refúgio na bebida. Tudo virou um inferno. Várias foram as vezes que não morri porque Deus não quis. Mas as paredes da minha casa viviam cheias de sangue”, recorda.

Hoje, recuperada, livre de qualquer vício obtido com a tragédia familiar, a autônoma se ergue com a cura de outras mulheres. Trabalha em um grupo de atendimento a outras vítimas, que, assim como ela, se viram presas em um ciclo de violência, sem apoio. Lá, pensam formas de ajuda, políticas em prol das mulheres e meios de encerrar as agressões. “Não tenho mais sequelas, traumas. Não consigo olhar mais pelo ângulo de tristeza. Olho pela superação. Só posso usar a minha história para tentar ajudar essas mulheres. Já tive vontade de matar, tenho marcas que trago na alma e no corpo, mas aprendi que quem carrega ódio só leva e transmite ódio. Se não superasse, nunca teria saído da situação”, conclui.

Suporte

Para sair dessa realidade e lidar com os traumas, é preciso de ajuda. No DF, além de toda a rede de apoio construída com delegacia especializada, núcleos e centros de apoio às vítimas e ao agressor, casas de abrigo, há o programa de Proteção às Vítimas de Violência, o Pró-Vítima. Atende pessoas envolvidas em 11 tipos de crimes violentos, assim como os familiares. A iniciativa oferece assistências psicológica, social e jurídica gratuitamente.

No ano passado, 3.057 casos tiveram o suporte do Pró-Vítima. “Quando há um problema como esse, acolhemos, damos todo suporte, ajudamos, tudo em cima da questão do empoderamento, de acabar com isso, e tentamos inseri-la novamente na rotina de vida normal para que não ocorra mais”, explica o diretor de Proteção às Vítimas de Violência, Walter Flores. Atualmente, um dos casos é o de uma senhora de 49 anos. Ela foi estuprada aos 7 anos e, até hoje, guarda sequelas psicológicas da violência.

Em 2016, de acordo com Walter, foram recebidos 248 casos, só no mês de março. Desse total, 222 saíram de ocorrências policiais, oito de gente que procurou o Pró-Vítima espontaneamente e 18 de encaminhamentos institucionais, por meio do Ministério Público ou do Conselho Tutelar. O GDF conta com cinco postos do Pró-Vítima (veja endereços). Os atendimentos não são feitos de forma compulsória. “Se faltar por três dias, nós entendemos que desistiu. Até chegar a esse ponto, a gente liga, vai atrás, mas não pode obrigar. É algo que a pessoa tem de querer. Claro que o melhor é que nem tivéssemos a necessidade de um programa como esse, mas não temos essa condição, com qualidade de vida e uma cultura de segurança que todos querem”, observa.

CorreioBraziliense