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Mensagem de Natal

Rigidez é uma perversão, diz o Papa Francisco

Redação
24 de dezembro de 2021
O Papa Francisco gesticula ao proferir a oração do Angelus de sua janela no dia do lançamento de sua nova encíclica, intitulada

Mirticeli Medeiros*

Em discurso de fim de ano, o Papa chama atenção dos seus colaboradores para a humildade e pede que eles ‘se abram ao novo’.

Os religiosos que trabalham na Cúria Romana, na era Francisco, certamente ‘tremem nas bases’ quando se aproxima o período de Natal. Tradicionalmente, entre os dias 20 e 23, o pontífice lhes reserva um discurso daqueles. Não foi diferente este ano.

Todos os anos, ao cumprimentar seus colaboradores mais estreitos, às vésperas da solenidade do nascimento de Jesus, o santo padre aproveita a ocasião para fazer um balanço do ano que passou. E mais: não perde a oportunidade de alfinetar os presentes, denunciando os males que ainda pairam sobre a antiga corte do Papa - que, para alguns, não deve renunciar a seus vícios renascentistas. E nem preciso dizer que são esses que Francisco mais incomoda.

Em 2014, um ano depois de ter assumido o pontificado, o santo padre fez um diagnóstico, logo de cara, do que ele considerava ‘as doenças’ do governo central da Igreja. Muitos olhavam torto para o “novato”, que jamais tinha trabalhado na Cúria, mas que, naquele dia, conseguiu descrever, exatamente, o ponto da situação. Não esperavam tamanha destreza e clareza de alguém que, da sua Buenos Aires, construiu uma visão que poucos ‘curiais vitalícios' tinham.

Se percorrermos os 9 discursos que ele proferiu até hoje, notaremos que ele montou, não por acaso, um itinerário de reflexão. É um verdadeiro exercício espiritual, no seu conjunto. Não poderíamos esperar menos de um jesuíta. Francisco sabe certinho onde e como aplicar seu “inacianismo”. Desta vez, inclusive, ele chegou a citar um trecho do retiro criado por Inácio de Loyola.

Este ano, em particular, após falar, nos anos anteriores, de voltar à essência, das ‘doenças’ que acometem a estrutura, do testemunho versus o funcionalismo, da necessidade de reforma, do “primado diaconal” - que foca no serviço, não no carreirismo -, dos abusos sexuais e de poder, a evangelização e a contemplação, foi a vez de focar no tema da humildade. Isso porque o pontífice sabe que, na pandemia, separou-se o joio do trigo, até dentro da Igreja.

Nesses últimos dois anos, a barca de Pedro balançou bastante. Escândalos, complôs e demissões inesperadas caíram no colo de Francisco. Em resposta a isso, um discurso sobre a humildade não é algo marginal.

Depois de focar na estrutura, e no comportamento de quem compõe esse ‘organograma eclesial’, foi a vez de focar na conversão pessoal dos curiais. De nada adianta consertar a casa se seus moradores continuam tratando essa mesma casa com as mesmas modalidades do passado. Ele também fala claramente que a rigidez,

a ideia firme de não mudar, é um contra testemunho cristão, pois se resume ao "vício de repetir coisas”.

Ele disse, várias vezes, que a Igreja não pode ter medo da verdade nem de encarar a realidade de frente. Sua reforma não é um repensar as estratégias de marketing para atrair fiéis, mas atingir, principalmente, quem transformou a Igreja num espaço de auto-afirmação, num esconderijo, num antro de alpinistas que focam no poder.

A frase que ele usou, nesse último discurso, não poderia ser mais certeira: “Os grandes dons constituem a armadura para encobrir grandes fragilidades”.

E Francisco sabe que muitos ali na Cúria vivem num mundo de fantasia, estão alheios às vicissitudes humanas, se encerraram em seus castelos de conforto e, de consequência, perdem a si mesmos nesse mar de indiferença.

Nesse tempo de crises, em todos os âmbitos e áreas, refletir sobre si mesmo não é tarefa fácil. E o papa faz esse convite. Quer que quem trabalha com ele seja humano para poder humanizar, que se reconheça necessitado, como qualquer fiel que diz seguir a Cristo. E sem a humildade, diz ele, a Igreja nunca se abrirá ao novo:

“O humilde aceita ser posto em questão, abre-se ao novo; e fá-lo porque se sente forte com aquilo que o precede, com as suas raízes, a sua filiação. O seu presente é habitado por um passado, que o abre para o futuro com esperança. Diversamente do orgulhoso, sabe que nem os seus méritos nem os seus «bons costumes» são o princípio e o fundamento da sua existência; por isso é capaz de ter confiança. O soberbo não a tem”.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

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