Reaproximação Cuba-EUA é bem aceita entre jovens cubano-americanos de Miami

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Em cidade palco de protestos contra Obama, apenas 36% da população jovem é crítica às mudanças; em gerações mais velhas, ceticismo é maior

euaResultado de 18 meses de negociações secretas, a retomada de relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba na quarta-feira (17/12) pegou a comunidade cubano-americana de surpresa em Miami: enquanto a maioria dos jovens celebra a decisão, os mais velhos tendem a rejeitá-la.

“Para mim, é uma mudança boa, mas não acredito que a vida em Cuba vá se modificar muito. Já meu pai acha que isso não significa nada e que as novas gerações não entendem o que é o comunismo”, diz a garçonete Raiana Suárez a Opera Mundi. Na casa dos 20 anos, ela conta que nasceu em Havana, mas cresceu em Miami e hoje trabalha no badalado restaurante cubano “Havana 1957”, situado em um shopping de luxo ao ar livre no bairro de Pembroke Pines.

“Acredito que seja uma coisa boa, mas ainda frágil. Me encanta a ideia do envolvimento entre os dois países e a possibilidade do fim do preconceito com os cubanos”, diz a jovem recepcionista cubano-americana Kristen Arrojo.

Na mesma linha, o estudante universitário Hector Fabelo acredita que a decisão foi positiva, mas acrescenta que a informação não foi bem-recebida por seus pais e avós, que saíram da ilha liderada governada pelos irmãos Castro justamente por não concordar com a orientação política tomada em Cuba.

Protestos em Miami

Local que concentra a maior parte dos exilados cubanos nos Estados Unidos, Miami parece continuar dividida sobre as mudanças anunciadas por Barack Obama e Raúl Castro na semana passada. No entanto, uma série de cubano-americanos consultados por Opera Mundi são unânimes ao concordar que existe uma aceitação maior entre os mais jovens, em detrimento das gerações passadas.

Essa tendência foi confirmada por uma pesquisa divulgada na última sexta-feira (19/12). Realizada com mais de 400 cubano-americanos, uma enquete encomendada por veículos locais como Nuevo Herald e Tampa Bay Times aponta que 67% dos entrevistados acima de 65 anos se opõem à política de aproximação Cuba-EUA, enquanto apenas 36% dos consultados cujas idades variavam de 18 a 29 anos criticam o movimento.

No sábado (21/12), um protesto contra Obama tomou as ruas de Little Havana, tradicional bairro no subúrbio de Miami que concentra a colônia de cubanos. Os manifestantes traziam faixas em espanhol e em inglês, com palavras de ordem, como “a resistência cubana vai continuar lutando, com ou sem Obama”.

“É uma traição para nós, cubanos. Você não pode fazer acordo com tiranos, com quem não fez nenhuma concessão com o povo cubano em mais de 50 anos”, critica ao jornal Miami Herald o aposentado Ebelio Ordoñez, presente na passeata. Ele nasceu na cidade cubana de Matanzas, mas mora nos EUA há mais de 46 anos.

Longe do fim do bloqueio

Embora o clima de agitação e indecisão continue em Miami e apesar de a retomada de negociações entre ambos os países tenha um peso simbólico importante, uma mudança diplomática substancial – como a queda do embargo econômico – apresenta uma série de desafios para ser concretizada.

Para derrubar a lei federal norte-americana que endurece o embargo, também conhecida como Helms-Burton, seria necessária uma aprovação do Congresso. Na semana passada, o senador Marco Rubio, representante republicano da Flórida, chamou a medida de “a última de uma longa linha de tentativas fracassadas por parte de Obama para apaziguar regimes párias a todo custo”.

Rubio nasceu em Miami, mas seus pais são cubanos que partiram para os EUA em 1956. O avô do político foi durante anos imigrante sem documentação em território norte-americano e chegou a receber uma ordem de deportação. Rubio também é um dos nomes apontados para representar os republicanos na próxima corrida presidencial em 2016. Definitivamente, a questão cubana vai demorar muito tempo para sair de pauta.