Projeto de universidade mineira mostra que é possível dar fim às barragens

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Tecnologia permite transformar rejeitos da mineração, como os que provocaram o desastre ambiental de Mariana, em cimento e areia útil à construção de casas e estradas

Com tecnologia desenvolvida em Minas Gerais, os rejeitos da exploração de minério de ferro da Samarco, que vazaram da Barragem do Fundão, em Mariana, teriam sido suficientes para a produção de base e sub-base de 3.500km de estradas. O material também poderia ser usado na construção de 120 vilas com 200 casas de 46m², à semelhança do subdistrito de Bento Rodrigues, solapado pela ruptura do dique em 5 de novembro passado. Mais do que mostrar um outro lado da dimensão da tragédia, o cálculo expressa o esforço dos pesquisadores do Centro de Produção Sustentável da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Pedro Leopoldo, na Grande Belo Horizonte, responsáveis pelo projeto que tornou realidade, em 2015, a destinação de misturas argilosas e arenosas à construção civil.

Para o uso em estradas, os rejeitos são transformados em base arenosa impregnada de ligante hidráulico, uma técnica já consolidada na Europa. Os números sobre o aproveitamento do material que vazou da barragem da Samarco foram estimados pelo professor Evandro Moraes da Gama, do Departamento de Engenharia de Minas da UFMG, que divide com o professor Abdias Magalhães Gomes, do Departamento de Engenharia de Materiais de Construção, as tarefas da coordenação do Laboratório de Geotecnologias e Geomateriais, instalado no centro de produção da universidade.
As instalações abrigam uma indústria-piloto de fabricação do chamado ecocimento e derivados, como blocos, tijolos, pisos e argamassas, obtidos de rejeitos e estéreis, aquelas rochas minerais que, por não terem valor econômico na extração de ferro, são acumuladas em depósitos.
Em novembro, o projeto foi concluído com a construção, na área da UFMG, de uma casa de 46m², com dois quartos, cozinha e banheiro, feita com o cimento ecológico produzido a partir de rejeitos e estéreis de minério de ferro. Inédito no Brasil, o programa recebeu recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), que financiou, em 2010, o laboratório de Pedro Leopoldo. A casa atende às normas técnicas que regem a construção civil no Brasil, destaca Evandro Gama, e apresenta a vantagem de uma redução de custos calculada em 30%, comparada às construções convencionais.

Outros países mineradores, como Canadá, China e França, produzem material de construção em larga escala usando rejeitos da mineração. “Se fôssemos hoje uma indústria em escala, poderíamos construir 80 casas por mês. No Brasil, é preciso aproximar a indústria de transformação da mineração. Parte significativa do passivo ambiental que temos pode ser transformado em matéria-prima para a infraestrutura no país”, afirma o professor da UFMG Evandro Gama, engenheiro de minas e engenheiro geólogo pós-graduado no Instituto Nacional Politécnico de Lorraine, na França.

As pesquisas da universidade para aproveitamento dos rejeitos e estéreis começaram há 10 anos, e o projeto do Laboratório de Geotecnologias e Geomateriais contou com a parceria do Instituto Nacional de Ciências Aplicadas de Toulouse, na França (Insa). Por meio desse acordo, a UFMG instalou, em 2012, forno industrial de fabricação francesa usado para a produção do ecocimento, de tipo pozolânico. O termo associado à antiga fórmula criada pelos romanos para produzir cimento deriva das pozolanas, material natural fino como poeira encontrado nas rochas estéreis e nos rejeitos das minas, que tem a propriedade de reagir em contato com outras substâncias, gerando um ligante.

Poeira queimada

Evandro da Gama explica que o cimento é fruto do processo de calcinação (queima) das pequenas partículas dos rejeitos e estéreis a temperaturas de 720ºC. A diferença do processo desenvolvido em Pedro Leopoldo está na escolha da chamada calcinação flash, que, em lugar do procedimento convencional, tem a poeira como matéria-prima. “É o diferencial do nosso trabalho. A pior forma de industrialização com a qual convivemos é a poeira, que afeta a saúde humana”, afirma.