Pressionado, Eduardo Cunha rompe oficialmente com o governo

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O folclórico ex-deputado Severino Cavalcanti elegeu-se presidente da Câmara em fevereiro de 2005 e sete meses depois deixou o cargo sob denúncias de receber um “mensalinho”. Após uma década, o roteiro se repetirá com o nada folclórico Eduardo Cunha (PMDB-RJ)? A acusação feita em depoimento judicial na Operação Lava Jato de que cobrou uma propina milionária já lhe custa a cobrança de que abandone o cargo.

A cobrança partiu do deputado Silvio Costa (PSC), pernambucano como Severino e um dos vice-líderes do governo na Câmara. “Do ponto de vista legal, o Eduardo Cunha tem a presunção da inocência. Agora, do ponto de vista moral, ele perdeu as condições de continuar à frente da Câmara”, afirmou Costa nesta sexta-feira 17. “Por muito menos, a Casa destituiu o Severino.”

Segundo Costa, sempre que há acusação semelhante contra um ministro do governo, os parlamentares pressionam pela saída dele do cargo. Seria normal o mesmo acontecer com o presidente da Casa.

Ele contou que consultará advogados para saber se há possibilidade jurídica de pedir o impeachment de Cunha. Para Costa, o peemedebista tem usado o posto para agredir dois outros poderes: a Procuradoria Geral da República, responsável por investigações que logo devem se tornar uma denúncia criminal contra Cunha; e o governo, a quem o presidente da Câmara culpa por seu infortúnio pessoal.

A comparação de Cunha com Severino não é exclusividade de Costa e já corre os bastidores da Câmara. Na quarta-feira 15, o deputado pernambucano Raul Jungmann (PPS), ministro na gestão Fernando Henrique Cardoso (PSDB), referia-se a Cunha como “Severino” em uma rodinha de parlamentares no cafezinho do plenário da Câmara.

Às vésperas da eleição para o comando da Casa em fevereiro, petistas em campanha pelo colega Arlindo Chinaglia (SP) contra Cunha também argumentavam que a vitória do peemedebista poderia ter um desfecho igual ao de Severino.

A cada vez mais constrangedora situação Cunha deve aumentar uma insatisfação contra ele que já era crescente na Câmara. Entre peemedebistas que ajudaram a elegê-lo para o cargo, já há quem demonstre certo arrependimento. Na terça-feira 14, Jarbas Vasconcelos, outro pernambucano, subiu à tribuna, reconheceu ter apoiado Cunha para derrotar o PT, mas disparou contra o presidente da Casa. “Estamos vivendo um momento de ditadura absoluta, ele faz o que quer.”

Vasconcelos estava particularmente incomodado com a intenção de Cunha de convocar uma cadeia nacional de rádio e televisão para propagandear os feitos da Câmara no primeiro semestre. “O açodamento, a pressa e a desorganização passaram a marcar o dia a dia da Câmara. Não é correto trabalhar de forma medíocre e confusa, como foi feito neste semestre.”

O programa deve ser transmitido nesta sexta-feira 17 à noite. Quando surgir na telinha, Cunha já o fará na condição de oposição ao governo Dilma Rousseff. Antes da entrevista de Silvio Costa, quem havia falado com a imprensa no Salão Verde da Câmara havia sido o próprio Cunha, para anunciar sua nova postura. “Vou pregar no Congresso do PMDB em setembro que o rompa e saia do governo. E eu pessoalmente, a partir de hoje, me considero em rompimento com o governo.”

Na entrevista, Cunha mais uma vez deixou claro: está convencido de que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o investiga por ordem do Planalto, do qual espera uma nova indicação ao cargo. O mandato de Janot termina em setembro.

Em nota oficial, o PMDB, que é presidido pelo vice de Dilma, Michel Temer, tentou descolar-se do movimento do filiado. “Toda e qualquer decisão partidária só pode ser tomada após consulta às instâncias decisórias do partido: comissão executiva nacional, conselho político e diretório nacional”.

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