Pensar em tática, sem perder essência, pode reerguer o futebol brasileiro

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reneQual o problema do futebol brasileiro? Essa pergunta bateu, como martelo no prego, na cabeça de todos após o vexame da seleção na Copa do Mundo de 2014. As respostas não são tão simples e o problema pode ser bem mais profundo do que as pessoas imaginam, pelo menos na opinião de René Simões, experiente treinador que já comandou a base da seleção brasileira e de clubes nacionais.

“O problema são os clubes. Eles precisam saber o que eles querem. Eles criam uma filosofia de jogo e contratam um técnico para o time principal que não tem nada a ver com o clube”, ressaltou Simões, ao iG Esporte. “Por isso minha briga pelo diretor técnico. Ele é o cara que vai integrar tudo”, completou.

René está viajando o Brasil para participar de cursos sobre o assunto. Para ele, as pessoas que trabalham na base são os melhores profissionais do Brasil. “Os mais bem informados, que vão atrás de cursos buscando sempre se modernizar, estão na base dos clubes”, garantiu o treinador.

E modernidade do futebol de base brasileiro passa pela questão tática, muitas vezes negligenciada nos treinamentos de jogadores com menos de 18 anos. “Essa questão de tática e jogo coletivo é fundamental hoje em dia, mas não podemos perder a essência do nosso futebol. Eu assisto jogo de time europeu e vejo que eles têm tudo, mas não tem o drible, não tem a invenção, algo que só o brasileiro possui. O problema é que nós não temos um pensamento coletivo. Pensamos só em jogadas individuais”, afirmou Simões.

“Aqui se diz o seguinte: é só não deixar o treinador atrapalhar. Isso é errado. O jogador não pode fazer o que quer”, ressaltou.

E se o Brasil quiser exemplos a seguir para fazer uma revolução no futebol nacional, pode voltar os olhares para os dois algozes da seleção no Mundial de 2014: Alemanha e Holanda.

Técnica e tática

A nova tetracampeã do Mundo passou por mudanças drásticas para conseguir chegar ao topo. Depois da penúltima colocação na Eurocopa de 2000, a Alemanha viu que precisa mudar se quisesse voltar a vencer. O ídolo Beckenbauer apresentou um projeto de modernização no futebol local e as coisas mudaram por lá. Essa revolução na base fez com que o futebol local se fortalecesse e ajudou a seleção nacional a chegar nas fases finais das principais competições futebolísticas.

Uma das mudanças de mentalidade por lá é relacionada à técnica. Se antes o atleta era escolhido pelo porte físico, hoje já não é mais assim. “No passado, havia um monte de grandes (fisicamente) jogadores. Mas olhe para os nossos jogadores agora”, comentou Robin Dutt, ex-diretor esportivo da DFB (Federação Alemã de Futebol) e atualmente treinador do Werder Bremen, ao inglês The Guardian. “O mais importante hoje para um jogador de futebol é técnica, e, em seguida, percebe-se que o bom jogador pode ser pequeno, como [Diego] Maradona, [Andrés] Iniesta, Xavi, Messi”, ressalta.

Muito do que René Simões destacou como pontos a serem adotados no Brasil são uma realidade da Alemanha. “A maioria dos times joga com a mesma formação desde a base. Ou seja, tanto o time principal quanto o sub-15 jogam no 4-3-3, por exemplo. Então, quando jogador sobe ao profissional, já sabe o que precisa fazer. A integração é muito grande”, destaca o zagueiro brasileiro Anderson Bamba, atualmente no Eintracht Frankfurt, ao iG Esporte.

Bamba chegou na Alemanha com 20 anos. Passou pela base do Flamengo, time no qual disputou apenas três partida no profissional. Ao desembarcar na Europa, sentiu uma grande diferença em relação ao futebol da sua terra natal, principalmente na questão tática.

“No Brasil, os técnicos frisam mais a parte técnica, mas não cobram tanto a tática. Aqui eles cobram muito o conhecimento tático. Essa é a principal diferença. Qualquer treino, por mais simples que seja, é levado muito a sério no ponto tático”, frisa Anderson.

Mesmo de longe, o zagueiro brasileiro também reconhece que o futebol verde e amarelo não é mais o melhor do mundo e precisa se modernizar para não morrer na praia. “Acho que é um erro não fazer um intercâmbio. É muito importante fazer essa troca com outros países. Os melhores métodos estão aqui. Tem de pensar no coletivo e ser mais humilde.”

4-3-3

Não é só a Alemanha que tem muito a ensinar ao Brasil, mas outro país, com apenas 17 milhões de pessoas, também pode servir de exemplo. Terceira colocada da Copa do Mundo de 2014, a Holanda tem grande prestígio no futebol mundial graças ao trabalho que faz em sua base. “As categorias de base no futebol holandês são muito boas. Todos os times holandeses têm uma sólida infra-estrutura, em termos de clubes, competições, acomodações. Na Holanda, o futebol sempre foi visto como um fator importante na vida social”, ressalta Auke Kok, jornalista e escritor holandês, ao iG Esporte.

Desde crianças, os jogadores holandeses aprendem que não basta apenas chutar a bola. “Tem de haver um significado por trás de tudo. Aqui, incentiva-se os jovens jogadores a acompanhar a cultura dos jogadores profissionais que vêem na TV e nos estádios. Os defensores, por exemplo, não chutam bola para se livrar de problemas, eles realmente devem construir um novo ataque. Assim, eles têm de ter uma boa percepção dos jogadores em campo, onde todo mundo está, e então agir de forma inteligente”, explique Kok.

O sistema “cultuado” na Holanda é o 4-3-3, o qual, na opinião de quem faz parte do futebol holandês, é o melhor. “Todos os clubes estão jogando, mesmo os amadores, com essa formação, uma vez que é considerado o melhor taticamente, e que dá à equipe a melhor posse do campo”, ressalta o jornalista.

Mas não só isso que importa para os treinadores do país. A cultura do “Futebol Total”, que surgiu com Rinus Michels e o Ajax dos anos 70, ainda está presente no país, em especial no principal clube da Holanda.

“É ideal que os jogadores experimentem a utilização deste sistema (4-3-3) jogando em posições diferentes, mas definitivamente entendam seus papéis e responsabilidades para cada posição, e mais importante, na posição em que eles finalmente vão se especializar”, explica Alfons Groenendijk, treinador da base do Ajax, em entrevista à revista Soccer Coaching International. “Além disso, há o foco em aspectos individuais, as interações e reciprocidade na aprendizagem e no desenvolvimento, o que oferece maior compreensão e mecânica da equipe”, completa o treinador.

Todos os principais fatores para conseguir se tornar jogador, no mínimo, competitivo, é passado na base dos times holandeses. “As atividades de alta velocidade, as habilidades técnicas, a transição e o jogo em equipe, além de todas as habilidades funcionais e técnicas são treinadas diariamente”, afirma Groenendijk.

E esse trabalho feito na Holanda chamou a atenção, inclusive, dos atuais campeões mundiais. Joachim Low, técnico da Alemanha, afirmou em umas das coletivas da Copa do Mundo que, nesse processo de mudança do futebol alemão, eles observaram o que acontecia no pequeno país europeu. “Além da questão tática, chama a atenção como um país tão pequeno consegue revelar tantos bons jogadores”, ressaltou o comandante.

Por isso, para o futebol brasileiro voltar a ser o melhor do mundo, vale se inspirar não só em Alemanha e Holanda, mas também em uma frase dita pelo lendário Johan Cruyff: “o futebol é um jogo que você joga com seu cérebro”.

IG