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Meio Ambiente

O lixão de roupas no deserto do Atacama e o colapso da civilização

Redação
16 de novembro de 2021

O deserto chileno do Atacama, um importante patrimônio da humanidade, está sendo usado como lixão de roupas descartadas por diversos países. Roupas jogadas em um depósito mundial do excesso. Retrato do consumo desenfreado.

O lixão é formado por sobras do “fast fashion”, a moda rápida produzida para ser usada e jogada fora em poucos dias. Altamente poluidora.

Produzir roupas dessa forma rende dinheiro aos magazines. Motiva as pessoas a comprar. O custo ambiental é altíssimo. Segundo dados da ONU, a produção de roupas – que dobrou entre 2000 e 2014 – é responsável por 20% do desperdício de água no mundo. A produção de um par de jeans consome 7.500 litros de água. Fabricar roupas e assessórios gera 8% dos gases tóxicos que alteram o clima no planeta.

Nesse mercado insano de moda rápida e descartável, o setor do vestuário está envolvido em trabalho escravo, trabalho infantil e violência contra a mulher. Somente no Brasil, um milhão de mulheres costureiras trabalha na informalidade e têm seus direitos sistematicamente violados pelas grandes marcas de roupa.

:: A indústria da moda violenta 1 milhão de mulheres costureiras ::

Que moda é essa?

Na esteira do consumo excessivo e fugaz, empresas de moda lançam até 50 coleções ao longo do ano. É roupa para comprar, usar e jogar fora.

É o ápice do consumismo. Roupa-lixo que vai parar no deserto do Atacama, em uma região de zona franca que “importa” as roupas como se fossem de segunda mão. Mas não é importação de roupa. É exportação de lixo por parte de consumidores da Europa, Ásia e Estados Unidos.

São 59 mil toneladas jogadas no deserto a cada ano. As roupas chegam em containers. Pouca coisa é aproveitada. Montanhas de lixo tóxico crescem em pleno Atacama, em uma região chamada Alto Hospicio.

Diante do lixão de Alto Hospicio, poderíamos declarar o restante do planeta o “hospício humanidade”. Estamos a consumir nossa própria existência. O meio ambiente está em vias de colapsar, decorrente de um paradoxo: o modo de vida que destrói a própria vida que busca edificar.

Faz lembrar Leonia, a cidade ficcional criada por Ítalo Calvino em “As Cidades Invisíveis”. Uma cidade opulenta, consumista e imoral.

Em Leonia, a opulência não é representada pela riqueza, mas pelas coisas que são jogadas fora. Todas as coisas são sistematicamente jogadas fora para dar lugar a novas coisas.

Novas mercadorias, as quais se tornam velhas assim que são compradas. Nascem ultrapassadas e precisam ser descartadas para abrir espaço para novos produtos, novas tranqueiras.

O hiperconsumo é violento. Tem a marca da desigualdade, da poluição, do trabalho escravo, do desmatamento, da violência contra a mulher, do trabalho infantil.

Sociedade do espetáculo

No mundo consumista, a realização da felicidade se dá pelo ato do descarte: jogar as coisas fora na expectativa de que a coisa nova sobreponha a coisa velha e tape o vazio de uma sociedade que faz do consumo razão de existir.

O problema é que a coisa nova fica velha no exato instante de sua realização como objeto de desejo. Falsa realização, na qual a mercadoria é o simulacro do gozo interrompido. O estado da arte da impotência diante do próprio ego.

Para entender o consumo, basta abrir as redes sociais. Está tudo lá. Superexposição em sorrisos sinceros e verdadeiros. O colapso do signo em um mundo de relações sociais mediadas por imagens. “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”, escreveu Debord.

Nesta sociedade do consumo e do espetáculo, jogam-se as mercadorias no lixo e no dia seguinte lá estamos nós, a comprar, comprar e comprar. Qualquer coisa que aplaque a frenética busca pelo santo graal do consumo, a mercadoria perfeita, o falo sagrado que finalmente nos inundará de felicidade.

Consumo de mercadorias, de corpos, de saúde, de religião, de dietas, de imagens. Consumo de vidas superexpostas. O consumo como busca desenfreada por uma felicidade que nunca está onde a procuramos. O consumo em uma sociedade que se tornou a face do seu próprio desamparo.

Bem-vindos ao deserto do real.

Edição: Vivian Virissimo - BdF

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