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Eleições 2022

Negra, jovem e militante LGBTQ+, a goiana Nádia Garcia é eleita secretária Nacional de Juventude do PT

Marcus Vinicius
11 de janeiro de 2022

Já disseram que ela era raivosa demais, gorda demais, jovem demais, não vinha da capital, ou de um estado “grande”. Tentaram usar a cor, a raça, a orientação sexual para deslegitimá-la. E, claro, combinaram tudo isso com o fato de ser mulher para agredir, humilhar, desacreditar e convencê-la de que ela não teria competência para ser uma dirigente nacional. Mas apesar de tudo isto, a goiana Nádia Garcia assumiu posto na direção nacional do PT, no ano da eleição presidencial, tendo o ex-presidente Lula liderando as pesquisas

Hoje, Nádia Beatriz Martins Garcia é a Secretária Nacional de Juventude do PT. Mulher negra, bissexual, jovem de 26 anos, jornalista formada pela PUC de Goiás, Nádia não caminha sozinha. Eleita pela juventude do maior partido de esquerda da América Latina, ela carrega consigo a força da ancestralidade e os sonhos da nova geração pela reconstrução do Brasil.

Com uma extensa trajetória política, Nádia contou em entrevista momentos marcantes de sua vida na militância, como foi entrar no PT, as dificuldades que enfrentou nessa última disputa e quais são os planos para o futuro.

Feminista, antirracista e antilgbtfóbica, a eleição de Nádia Garcia representa um avanço na compreensão de que as chamadas “pautas identitárias” (sic) não são excludentes das pautas da classe trabalhadora, pelo contrário são parte integrante da própria existência da maioria da população.

“Uma luta não pode ser definida como identitária quando trata de existência da maioria da população. Falar sobre o racismo, o machismo e a LGBTfobia é falar da razão da morte de milhares de pessoas todos os anos. Não se trata de programa, mas do pragmatismo de quem precisar lutar todos os dias para sobreviver sendo o que se é”, afirma a Secretária Nacional de Juventude do PT.

De fato, Nádia começou a militância no movimento estudantil da PUC de Goiás e foi fundadora do Movimento Feminista Olga Benário, primeiro movimento feminista universitário reconhecido pela universidade. Atuou como primeira Diretora de Combate ao Racismo e Vice-presidente durante a gestão 2015-2018 da União Estadual dos Estudantes de Goiás (UEE GO) e foi membro da mesa diretora do Conselho Municipal de Juventude de Goiânia. Em 2018, foi formadora do Projeto Elas por Elas, passando pelos estados da Bahia e Manaus formando as candidatas para as eleições.

Durante duas edições, Nádia foi membro da coordenação nacional do Projeto Elas por Elas da Secretaria Nacional de Mulheres do PT. Ocupou a coordenação nacional do Coletivo ParaTodas, coletivo feminista estudantil da Juventude da CNB; e a coordenação LGBT e de Combate ao Racismo da Juventude Nacional do PT, até se eleger Secretária Nacional de Juventude do PT.

Diante desse currículo invejável, conversamos com Nádia Garcia para entender os desafios e aprendizados que ela trilhou para chegar até aqui – que, bem sabemos, nessa corrida de obstáculos em que o machismo, o racismo e o etarismo se somam, não foi nada fácil.

Nadia Garcia

 Nádia festeja a eleição: "Ser eleita a primeira mulher negra e LGBT Secretária Nacional de Juventude do PT não foi fácil, enfrentei o racismo, o machismo e a LGBTfobia, além de muita, muita gordofobia, sexismo e preconceito geracional, religioso e regional, que faziam que a minha capacidade fosse a todo tempo questionada. Ser uma jovem mulher negra, bissexual, gorda, candomblecista, do interior de Goiás e de 26 anos me custou muito nesse processo, mais do que deveria, mais do que seria correto, e bem menos do que eu tenho de capacidade, podem ter certeza!", desabafou nas suas redes sociais

1) Quando e como você entrou no PT?

Entrei na universidade em 2013 e, naquele ano, teve eleição do Centro Acadêmico de jornalismo da PUC Goiás, Centro Acadêmico Joãomar de Carvalho Brito. Participei desta eleição e fiz amizade com o pessoal do C.A., elegemos a Narelly Batista para coordenadora geral, que hoje é da JPT.

Depois disso, em 2014 ,elegemos a gestão da Suellem Horácio, em 2014 e foi aí que conheci o Deryk Santana, que à época era diretor da UNE pela JCNB. Ele me apresentou o Coletivo ParaTodos e a JPT e comecei minha militância, mas só me filiei em 2016.

2) Que acontecimentos da sua trajetória te fizeram ver o PT como partido para se engajar? Você teve apoio ou resistência da sua família/amigos?

Venho de uma família em que grande parte é de professoras e professores e meus avôs se candidataram, um deles foi vereador pelo PPS por alguns mandatos. Cresci ouvindo meu pai contar como convenceu meu avô a votar em Lula e aquilo me fez me cativar pelo partido.

Quando comecei a fazer movimento estudantil e participar do PT, meus pais ficaram temerosos, porque fazia faculdade de jornalismo e encontrar emprego nessa área tendo uma ligação partidária poderia encontrar dificuldades. Mas eles viram o quanto estar no PT e construir política de juventude me fazia feliz e hoje fazem campanha e minha mãe e irmã se filiaram também.

3) Cite três momentos marcantes na sua vida na militância contra o racismo e o machismo

Em 2016, eu era diretora de Combate ao Racismo da União Estadual dos Estudantes de Goiás, entidade em que fui vice presidenta também, e realizamos o maior Encontro de Mulheres Estudantes da UNE (EME da UNE) do país.

Uma semana de eventos diários tratando sobre todas as vertentes do feminismo e pautando a vida das mulheres estudantes, foi incrível.

Em 2019, dois momentos me marcaram muito: o Encontro de Estudantes Negras, Negros e Cotistas da UNE (ENUNE), em Niterói. Foi uma reunião muito bonita da juventude negra estudante de todo o país, com a presença de várias representações do Movimento Negro brasileiro, uma grande festa da negritude que o PT colocou na universidade.

Também em 2019 tivemos o Festival Elas Por Elas, em Natal – RN, feito pela Secretaria Nacional de Mulheres, com a presença da Secretaria Nacional de Cultura. Um festival pela vida e resistência das mulheres petistas de todo o país. O Elas Por Elas é um dos projetos mais bonitos que já vi, construindo política feminista a nível nacional com afeto e responsabilidade, como nenhum outro.

Construir momentos como estes me fortalecem.

As pautas conhecidas erroneamente como identitárias: a luta antirracista, feminista e antiLGBTfóbica guiam minha militância e definem minha vida antes mesmo de entrar na política.

Uma luta não pode ser definida como identitária quando trata de existência da maioria da população. Falar sobre o racismo, o machismo e a LGBTfobia é falar da razão da morte de milhares de pessoas todos os anos, não se trata de programa, mas do pragmatismo de quem precisar lutar todos os dias para sobreviver sendo o que se é.

 

4) Se você pudesse voltar no tempo, o que você diria para a Nádia que acabou de entrar na política?

O caminho não vai ser fácil, vão te agredir, humilhar, desacreditar, ofender, mas a luta não é sobre você, a política não é sobre você. Mudar a história das juventudes vai além do que pode doer em ti somente, trata do que dói em todas, todos e todes nós, mesmo que alguns não sintam diretamente.

Continue, trilhe seu caminho com todas as pedras que lhe aparecem, muitas flores também brotarão por ele, pois Lula um dia dirá, lá na frente, em um momento muito triste: não podem impedir a chegada da primavera!

5) Quais as principais dificuldades que você enfrentou pelo fato de ser considerada “jovem demais”, ou “feminista demais”, etc?

Durante todo esse processo, fui muito desrespeitada e descredibilizada. Minha sexualidade foi pautada como promiscuía, por ser uma mulher diziam que não teria capacidade para ser secretária, construíram a imagem de uma negra raivosa, disseram que não seria legitimada ou levada a sério por ser gorda e, segundo algumas pessoas, não passar uma imagem de confiabilidade.

Duvidaram da minha competência por ser do interior do país e não construir política em um estado “grande” e pautaram que, aqueles que ocuparam o cargo antes de mim ou os que disputavam comigo, em algum momento seriam melhores por serem mais velhos e por isso terem mais capacidade.

Mas, principalmente, pintaram a persona de uma mulher negra que odiava homens brancos, para que a maioria dos quadros petistas não me aprovassem.

Acontece que construo política petista de juventude há oito anos e nossas e nossos militantes jovens conhecem minha trajetória e, por isso, a imagem destorcida da mulher negra forte que sou não passou de uma tentativa falha de fake news machista e racista dentro do processo.

 6) Na sua avaliação, quais os desafios da agenda da juventude feminista para o próximo período, além de eleger Lula presidente?

As jovens mulheres precisam ocupar a política, não apenas como militantes, mas também como dirigentes. Ocupar os cargos eletivos, serem vereadoras, deputadas, senadoras e presidentas. Ocuparem os conselhos, as entidades de representação social, deliberaram e liderarem os espaços, levando o feminismo petista à todas as áreas da sociedade civil.

O Projeto Elas Por Elas tem feito isso com grandiosidade e sei que, em 2022, seu foco serão as jovens mulheres, queremos construir esse projeto em parceria com as mulheres do PT com o Movimento Representa! e colocar cada vez mais jovens mulheres à frente dos processos.

Sempre construímos a política brasileira nos bastidores, está na hora de avançar mais.

Construiremos a campanha de Lula, em conjunto com as campanhas de nossas jovens mulheres, aquelas que disputaram, ganhando ou não, mas deixaram seu marco na história política do PT e do país.

Ana Clara Ferrari, Agência Todas

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