Milly Lacombe: Futebol da Argentina manteve filosofia, Brasil trocou a alma pelo lucro

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Amigos me perguntam por que gosto tanto da Argentina, e digo que gosto porque eles me oferecem doses de verdades. Os Argentinos jogam em nome de uma cultura que valoriza o drama, a intensidade, a paixão, a raça. Nunca foram conhecidos por jogarem com arte, mas por jogarem com intensidade e entrega. E apesar de terem “apenas” dois mundiais e de não ganharem um há quase 30 anos, não abriram mão de jogar por uma fBrasilia, DF, Brasil, . (Foto: Andre Borges/ ComCopa)ilosofia na qual acreditam, e que os representa. Não torço por uma nação, mas por valores e crenças e princípios. Em campo, os argentinos ainda dançam o tango e nós já não sambamos mais. Então, como acho que patriotismo é sempre a resposta mais imbecil que pode ser dada a qualquer pergunta, sei que não é porque nasci no Brasil e amo minha terra que preciso torcer pelo time que deixou de representar alguns dos valores que considero mais sólidos.

Enquanto a Argentina me oferece autenticidade, o Brasil me dá produtos. Neymar é um produto e nada nele soa autêntico. Do cabelo à cueca, passando pelas simulações e pelas caras e bocas, absolutamente nada ali me seduz. O novo rei da raça, David Luiz, também não. São, obviamente, e fabricada. Porque o ambiente da CBF, uma corporação que preza o dinheiro e o luxo e a arrogância, contamina absolutamente tudo que nela encosta, de jogadores a assessores de imprensa, passando por treinadores e entrevistas coletivas.

Movidos por essa empáfia, o título era dado como certo. Pintaram o ônibus da seleção com a estúpida frase, “Preparem-se, o hexa vem aí”. Parreira, que antes do jogo parecia o tio-véio babão de calça de moletom e máquina fotográfica tirando foto dos jogadores em campo, dizia que a taça já era nossa. Era tão nossa que treinos podiam ser interrompidos para que a Globo gravasse o que bem entendesse. Vamos criar ídolos, porque ídolos vendem produtos, e esses produtos apoiam financeiramente tanto a CBF quanto emissoras de TV. Treino não rende grana, mas entradas ao vivo sim. Então, para aí o treino, ô Felipão, que a gente quer filmar.

Felipão, aliás, foi justamente escolhido para comandar o maior fiasco da história dos fiascos. Quem melhor do que ele para representar toda a decadência do nosso futebol?

Em 30 anos a CBF, com amplo apoio da mídia de massa, conseguiu montar uma seleção com a alma e a cara da nossa elite: violenta, covarde, dissimulada, abrutalhada, cafona. E enquanto o projeto “futebol pobre, seleção campeã, CBF milionária” se fortalecia, o futebol brasileiro agonizava. Estádios velhos, gramados que mais lembravam pastos, estrutura zero.

Tudo parecia que ia mudar em 2002, quando Lula ganhou a eleição e assinou imediatamente o Estatuto do Torcedor, coisa que seu antecessor nunca fez. Mas, depois da empolgação inicial, quando as coisas se encaminhavam para melhorar, Teixeira se aproximou de Lula e nada de fato mudou.

Essa é a história do fiasco como eu a vejo.