Mel Lisboa sobre viver Rita Lee: “Tive crise de choro, angústia, desespero”

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melEm cartaz desde o início de abril, em São Paulo, com o espetáculo “Rita Lee Mora ao Lado”, dirigido por Débora Dubois eMárcio MacenaMel Lisboa, estrela do musical, conversou com o iG na tarde do último sábado (2), nos sofás do hall do Teatro das Artes, onde, algumas horas mais tarde, estaria no palco revivendo a infância, a adolescência, os amores e boa parte da história de um dos nomes mais importantes da música brasileira, a rainha do rock nacional, Rita Lee.

Desde que estreou, as sessões estão quase sempre lotadas e a resposta do público é positiva, com raras exceções. “Quando a pessoa vem e agradece, fala: ‘Poxa vida, obrigada por me proporcionar isso…’ Me sinto muito recompensada. Vale a pena tudo.”

E tudo começou há cinco anos… “Márcio Macena (diretor do espetáculo) um dia me convidou para almoçar. Disse que tinha uma proposta para me fazer e eu não tinha a menor ideia do que era. Aí ele me deu o livro ‘Rita Lee Mora ao Lado – Uma Biografia Alucinada da Rainha do Rock’ e falou que estava afim de fazer uma peça sobre esse livro… ‘e queria que você fizesse a Rita Lee’. Eu falei: ‘Nossa, você está bem louco, né? De onde você tirou essa ideia?’ Na época era algo totalmente inusitado. Ao mesmo tempo, lembro de pensar: ‘Nossa, que legal, imagina que máximo!’ Mas era uma coisa muito embrionária. Daí para eu de fato começar a estudar e falar: ‘agora vou fazer’, foi só em janeiro deste ano.”

Coisas da Vida

No elenco de “Pecado Mortal”, da Record, ela teve que optar entre continuar na novela ou deixar a trama e mergulhar de cabeça no espetáculo. “Até dezembro eu ainda estava um pouco na dúvida se ia fazer ou não por conta da novela, porque não ia dar para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. E, na verdade, estava morrendo de medo. Lá no fundo, eu tinha muito medo. Então fugir era uma forma mais fácil. Mas acabou que resolvi encarar mesmo.”

Apesar de não ter entrado em conflito com a emissora ao pedir para ser dispensada da trama, deixou o autor Carlos Lombardi soltando fogo pelas ventas. “Foi chata a situação, mas entendo. O autor da novela se sentiu lesado, se sentiu desrespeitado”.

Ele propôs (como aconteceu com outra atriz do elenco) para ela gravar menos vezes por semana, mas não havia a possibilidade de conciliar os dois trabalhos já que a novela era gravada no Rio e os ensaios para a peça seriam em São Paulo. “Tive que ser firme e falar que não dava. E a Record topou, entendeu? Tanto que continuo contratada, está tudo certo. O presidente da Record já veio me prestigiar, hoje vem o assistente do diretor de elenco…”.

Resolvido o dilema com a novela, Mel se viu de frente com o maior desafio. “Nunca tinha feito nada assim, uma personagem que de fato existe, que está aí, inclusive, e que pode vir te assistir, como ela já veio duas vezes, é muito maluco isso. Não sabia como fazer. Como é que se faz?”

E foi estudando, lendo e assistindo a tudo o que pode e ensaiando muitas vezes por semana que ela encontrou a Rita Lee dentro de si. “Foi difícil. O processo todo foi muito difícil. Durante o tempo todo que eu estava ensaiando tive várias crises. Foi um processo duro. Teve um dia de ensaio com a banda que algo não dava certo e tive uma crise de choro que tivemos que parar tudo porque eu não conseguia respirar. Era uma angústia, um desespero…”.

Top Top

A atriz reconhece se tratar do maior desafio de sua carreira. “É um desafio diário. Não é que eu leve isso com peso, faço isso com muito prazer, com muita alegria, mas tenho consciência de que é difícil, eu nunca tinha cantado. E estou evoluindo aos poucos. Hoje estou cantando muito melhor do que quando estreei a peça. Mais segura, sabe? Conseguindo emitir mais sons, errando menos. Para mim foi uma das coisas mais fortes que fiz na minha vida e todo o movimento para estar aqui foi um movimento difícil, duro.”

Entre Sem Bater

E como foi ter Rita Lee na plateia duas vezes? “Ela já tinha me mandado um e-mail dizendo que um dia viria escondida… Falei que queria muito que ela viesse. Eles sabiam que se eu soubesse ia ficar muito nervosa, mas já sabia que o Ney Matogrosso estava lá, porque meu marido toca com ele. Então já estava nervosa, porque o Ney também é foda demais, é incrível e é uma pessoa com quem tenho bastante contato. Mas tenho uma dificuldade de enxergar as pessoas. Não sei porque, talvez porque eu tenha muita coisa para fazer e fica escuro, muita luz… Talvez simplesmente seja uma defesa minha. Consigo ver quem está na primeira e na segunda fila. Agora já sei que os convidados ocupam um lugar mais central da plateia, mas tento enxergar e não acho nem meu marido, juro! E olha que o meu marido é cheio de dreads, eu tenho dificuldade mesmo! Então não vi a Rita.”

Mas quando elas se encontraram… “Foi um misto de emoções e de sentimentos maluquíssimos. Eu não conseguia parar de chorar. E depois eu não lembrava quase nada do que ela tinha dito porque eu estava numa adrenalina… Na segunda vez que ela veio foi melhor nesse sentido. Foi menos tenso, foi mais alegre e eu estava tranquila. E ela ter vindo a primeira vez foi uma coisa do tipo, na minha cabeça: ‘ah, vou lá ver’. Mas ela ter vindo uma segunda vez foi o crivo. Ela carimbou: ‘gostei! Vim de novo, trouxe meu marido’. Foi demais, foi um dia muito especial.

Ovelha negra

Mel Lisboa olha para trás e se lembra de como começou. Analisando, considera como atípica a construção de sua carreira. “Minha carreira está sendo construída de uma forma atípica. Foi atípica desde o início e é atípica até hoje. Poderia ter sido mais conforme o esperado: então fui lançada lá em ‘Anita’, aí de repente me torno uma atriz muito conhecida, que faz uma novela atrás da outra e se torna uma pessoa assim, dessas grandes estrelas…”

Mas não foi este o caminho que ela seguiu. “Por conta de algumas escolhas que fiz e o que a vida foi me oferecendo, fui por um outro caminho, diferente do esperado, mas mais de acordo com o que fico à vontade. Porque a ‘Anita’ foi uma coisa que aconteceu na minha vida, não foi uma coisa que busquei, sacou? Aconteceu. É muito maluco porque pode ter gente que vai fazer uma carreira inteira como ator, vai ter vários trabalhos e nunca vai fazer um protagonista de uma série como essa e tive isso logo no primeiro trabalho.”

Satisfeita, explica que se sente melhor não sendo uma figura tão exposta. “Tenho um pouco de dificuldade de lidar com esse mainstream, prefiro lidar de uma forma um pouco mais discreta, fico melhor assim. Ali naquela posição eu não sei lidar muito bem, os caminhos, os meandros, as coisas… não entendo muito bem e acaba que nunca consigo me virar.”

E encontra no teatro seu habitat ideal.”O teatro acaba sendo um lugar em que fico muito à vontade, me sinto bem, tenho oportunidade de fazer coisas que a televisão não me dá. Aí vou experimentando e me sinto crescendo, sabe? Me sinto amadurecendo. Me sinto andando para frente, não estagnada ou até retrocedendo. Estou indo para a frente, devagarzinho, passo a passo, mas estou aprendendo. Podem ter erros, equívocos, alguma coisa não dar muito certo? Ok, mas a gente está continuando. Acho que talvez isso seja até um problema, não sou muito ambiciosa, assim, sabe? Acho que sou muito realista.”

The End

A temporada de “Rita Lee Mora ao lado” fica em cartaz até o dia 31 de agosto em São Paulo. Existe a possibilidade de que até o fim do ano o musical faça algumas viagens e estreie uma temporada no Rio de Janeiro no começo de 2015. Enquanto isso, Mel Lisboa já ensaia uma peça, com previsão de estreia para outubro, chamada “Luz Negra”. Última parte da trilogia “Boca do Lixo” com a companhia Pessoal do Faroeste.