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Artigo

Marília Mendonça e o ideal de beleza feminina

Redação
24 de novembro de 2021

Ainda não chegamos à compreensão de que valorizar um certo ideal de beleza física para as mulheres é um desprezo à sua pessoa. Pois a mulher desejada é só a mulher da cama? E depois

Por Urariano Mota

Em conversa hoje me lembrei das diferentes exigências de beleza para homens e mulheres. A partir de exemplos de atores e atrizes do cinema, pude ver que para os homens se exige certo glamour romântico, que vem do papel representado, nunca do seu tipo físico. Então me lembrei do feio Humphrey Bogart, galã em Casablanca.

Para as atrizes o ideal de beleza era mesmo físico, um ideal que atingia níveis de mutilação no rosto, no corpo. Parece um paradoxo, mas é verdade. Se não, olhem os exemplos de Rita Hayworth, que sofreu eletrólises para aumentar a testa, lifting no nariz, clareamento da pele e cabelos pintados de ruivo. Assim como a bela Marilyn Monroe, que também sofreu eletrólise para aumentar a testa, cirurgias no queixo e no nariz, além de, é claro, se tornar loura por soluções de amoníaco nos cabelos.

Na própria vida real, para os homens se exigem inteligência, cultura e trabalho. Vá lá, também alguns atos teatrais de paixão, bem vistos, embora nunca terminem em harmonia. Dos homens, o exigido, o ideal não é ser esbelto, alto, atlético. A sua maior beleza está em outras características. Mas para elas, o quanto ainda estamos no mais sombrio atraso. Ainda não é nosso o valor universal da mulher soviética, que voava em silêncio com o motor do avião desligado, sobre batalhões nazistas. Ainda não chegamos à compreensão de que valorizar um certo ideal de beleza física para as mulheres é um desprezo à sua pessoa. Pois a mulher desejada é só a mulher da cama? E depois? Ah, esse “depois” não é bem uma inquietação de filósofos. (E filósofo com o significado da caricatura de indivíduo que divaga pelas nuvens)

Esse preâmbulo, que o jornalismo obtuso chamava de nariz de cera, vem a propósito da segunda morte da cantora Marília Mendonça. Depois do desastre da sua morte, sem qualquer civilização ou sensibilidade, falaram coisas do gênero:

"Marília Mendonça era gordinha e brigava com a balança...”, na Folha de São Paulo. Na tevê, no Domingão’ da TV Globo, Luciano Huck excretou sobre o peso de Marília e de Maiara e Maraísa, outras divas do sertanejo:

“Estava lembrando agora. Faz três semanas que eu estava com as três no palco. Três semanas. Na verdade vieram só metade das três no palco, porque estavam as três magrinhas...”.

Para essas falas falsas estéticas, não vale opor um ideal gordo a um ideal magro como figuras abstratas das artes. Não vale nem mesmo opor o ideal das pinturas renascentistas, que não era a esbelta. Seguir esse caminho seria o mesmo que combater a superfície com a superfície. Opor o raso ao rasteiro. A névoa à fumaça. O que importa é ver os casos de pessoas vivas, a nosso redor e memória. No romance “O filho renegado de Deus”, uma senhora gorda é cantada e decantada desta maneira:

“É certo que buscamos fora de nós o que temos dentro do coração.

Aquela mulher, que se debatia para viver um plano ideal de felicidade, afastava de si qualquer movimento de piedade. Pelo contrário, o seu espírito se movia nas condições extremas com a alegria do instante, como criança que captura borboletas coloridas no campo, ou que tenta beijar e tocar as asas ininterruptas de um beija-flor. Esse pulo para o veloz, para a beleza que foge, já, agora, aqui luz do sol te pego com minhas mãos, aqui raio na chuva eu te aprisiono um instante, essa apreensão do fugaz, tinha a consciência antecipada da sua vida breve. Que à falta do gozo durável teria que ser pelo menos intensa. Raio de vida, eu viajo no teu brilho curto. Assim, nessa quase instantaneidade da luz, ela corria veloz e tão ágil, que nem parecia ter as formas da Maria gorda, do beco, da bruxa do lar. Nessa pessoa que se movia ela não estava no seu lugar. Rejeitada, queria o homem total, valente e puro, mas que fosse ainda assim um rejeitado também, não por defeitos merecedores de desprezo, mas por qualidades que o comum da gente não via”.

Eu poderia ainda falar sobre a gorda e negra Ella Fitzgerald, uma das musas do romance “A mais longa duração da juventude”. Ella canta para os corações da juventude na ditadura no Recife. Mas fico na altura destas linhas. Até a semana que vem.

Uraniano Mota é Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude”

*Publicado originalmente em Vermelho

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