Bem-vindo(a) à Aparecida de Goiânia
Artigo

Malafaia não fala em nome dos evangélicos

Marcus Vinicius
14 de outubro de 2021

Cobertura da imprensa segue credenciando Silas Malafaia como porta-voz dos evangélicos, o que é ilegítimo e enganoso

por Magali Cunha

O cenário político está atiçado nestes dias por vários episódios. No início desta semana, voltou à cena o caso do preenchimento da vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), para a qual foi indicado o pastor presbiteriano ex-ministro da Advocacia Geral da União e da Justiça do atual governo, André Mendonça. Trata-se do cumprimento da promessa feita pelo presidente Jair Bolsonaro, em 2019, de indicar um ministro “terrivelmente evangélico”.

Ocorre que a promessa esbarrou na resistência a Mendonça da parte do presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Davi Alcolumbre (DEM/AP), responsável pela convocação da sabatina que precede a votação do nome no plenário. O senador quer que Bolsonaro retire o nome e faça outra indicação ao STF, ao que o presidente se recusa.

Além de parlamentares aliados de Bolsonaro, lideranças evangélicas, interessadas no cumprimento da promessa, vêm pressionando Alcolumbre e outros senadores. Mendonça também tem atuado na busca de apoio à sua indicação. O pastor tem participado de cultos em igrejas pentecostais, cujas lideranças declaram apoio ao governo. Ele chegou a dizer em evento na Assembleia de Deus Madureira, no Rio de Janeiro:

“Os senhores são bispos da Assembleia de Deus, mas, para além disso, Deus os constituiu bispos sobre a minha vida (…). Vocês têm autoridade espiritual sobre a minha vida (…). Vocês é quem são autoridades sobre mim. Eu sou um discípulo”.

O presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Silas Malafaia, que já havia se reunido com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM/MG), junto com outros pastores, em setembro, resolveu divulgar um vídeo na segunda-feira 11. A peça foi dirigida “ao povo abençoado do Brasil”. Nele, Malafaia acusa ministros do governo federal, Ciro Nogueira (Casa Civil), Flávia Arruda (Secretaria de Governo) e Fábio Faria (Comunicações) de conspirarem contra Bolsonaro e os evangélicos na busca de nome alternativo a Mendonça.

A ação dos ministros foi relatada em reportagem publicada no domingo, 10 de outubro, que registrava que há articulações entre ministros e senadores para substituir a indicação de Mendonça por outro presbiteriano, o presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) Alexandre Cordeiro de Macedo.

Na gravação, o pastor Malafaia criticou a busca por “pseudo-evangélicos” para a vaga e chamou Alcolumbre de “inescrupuloso”, cobrando explicações sobre suposta troca de favores do senador com um desembargador do Amapá.

No tom raivoso que lhe é peculiar, Malafaia afirma no vídeo:

“Ninguém vai enganar a comunidade evangélica. Não adianta jogo debaixo dos panos para botar alguém de interesse, porque não vai dar certo. Se barrarem André Mendonça, vai ter um outro que seja terrivelmente evangélico. E não serão vocês que dirão se A ou B é terrivelmente evangélico”.

Não é de hoje que o pastor Malafaia encarna o papel de porta-voz dos evangélicos. É uma estratégia política dele que lhe gera dividendos entre uma parcela deste grupo religioso e também de outros que têm afinidade com o seu discurso.

A questão que permanentemente se coloca não é a performance política de Malafaia, o alinhamento dele ao governo Bolsonaro ou a ressonância de seu discurso.

O que precisa ser intensa e amplamente criticada é a cobertura da imprensa que segue credenciando o pastor como porta-voz dos evangélicos, o que é ilegítimo e enganoso.

Pesquisei a cobertura noticiosa do vídeo do pastor. Ele repercutiu em quase todos os grandes jornais e portais de notícias e também em espaços noticiosos digitais de esquerda e de direita. Em absolutamente todos, Malafaia fala sozinho, pelos evangélicos, com acréscimos de aspas a evangélicos que reproduzem o que ele diz: deputados federais Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) e Marco Feliciano (Pode-SP).

Não há matéria jornalística sequer que ouça outras vozes evangélicas para reproduzir a pluralidade do segmento e revelem o que outros grupos e lideranças pensam sobre a indicação Mendonça e a disputa política em torno dela.

Temos neste fenômeno de comunicação o que transparece ser um misto de ignorância de jornalistas com expressão imaginária da religião dominante e afinidade ideológica eletiva. Explico.

A defasagem de jornalistas na cobertura de religião é significativa.

Não há formação nas escolas de jornalismo sobre o tema, muitos profissionais não se interessam em pesquisar e aprender e acabam cometendo equívocos frequentes. A resistência ao aprendizado pode advir, boa parte das vezes, do próprio imaginário.

Jornalistas são pessoas que têm visões de mundo, formação cultural, histórias de vida, nas quais está ou não a religião. Sua forma de cobrir um tema referente a religião terá a interferência deste imaginário sobre grupos religiosos podendo ser embasado em uma visão positiva, negativa, profunda, rasa, apoiadora, resistente.

Muita gente é formada no imaginário da religião dominante do Brasil, a Católica. A colonização religiosa é forte nestas terras e muita gente imagina qualquer outra religião a partir do que conhece do Catolicismo no qual foi formado direta ou indiretamente. Afinal, o Brasil parou ontem para celebrar uma santa, católica, e mesmo quem tem outra religião é obrigado a ter feriado. Portanto, muitos jornalistas imaginam evangélicos a partir da formação católica direta ou indireta que recebem. Não admitem uma religião que não tenha um Papa, um líder que hierarquicamente a conduz. Por isso, credenciam o pastor Malafaia.

Por fim, há o elemento da afinidade ideológica. Se Bolsonaro, Feliciano, Damares, Malafaia representam uma parcela conservadora da sociedade brasileira, é possível reconhecer uma afinidade entre estes líderes e quem produz e emite conteúdo nas mídias. Isso explicaria a indiferença do noticiário às controvérsias em torno de Malafaia entre os próprios evangélicos.

Malafaia fala sozinho nas notícias.
Se o conservadorismo evangélico tem suas marcas na política com as reações aos avanços no campo dos direitos sexuais e reprodutivos e das comunidades tradicionais, o conservadorismo midiático se revela na forma como o noticiário despreza avanços nas relações políticas com os movimentos sociais e reage à concessão de direitos às classes desprivilegiadas, atuando pela manutenção do status quo.

Identificam-se, portanto, afinidades eletivas entre o jornalismo veiculado pelas grandes mídias e as lideranças evangélicas em destaque na política. O destaque midiático a Malafaia e o silenciamento da dissonância entre evangélicos podem ser compreendidos por este viés.

Evangélicos não têm representantes, diferentemente dos católicos que têm uma igreja centralizada.

Evangélicos são fragmentados e plurais. Dado o contexto de força política do grupo hoje, muitos líderes falam em nome do segmento e os beneficiados politicamente com essa fala, como é o caso do mandatário brasileiro, reverberam isso. Fica-se, então, com o discurso hegemônico, neste caso o conservador.

Duas urgências emergem destes elementos apontados aqui:
1) os evangélicos que têm uma visão crítica do uso político da fé cristã precisam assumir suas raízes protestantes e erguer sua voz;
2) que os produtores de notícias superem o engano da apresentação dos evangélicos como um grupo homogêneo e rechacem tendências unificantes de um segmento formado por uma expressiva variedade de grupos, tornando nítidas e notórias as diferentes posturas e projetos deste segmento no espaço público.

Publicado originalmente na CartaCapital

AUTORA:

Magali Cunha

Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas e colunista da CartaCapital

DENÚNCIA DE IRREGULARIDADES?

envie um email para

[email protected]

2005 - 2021
magnifiercross linkedin facebook pinterest youtube rss twitter instagram facebook-blank rss-blank linkedin-blank pinterest youtube twitter instagram