Aparecida de Goiânia, domingo, 17 de outubro de 2021
Artigo

Malafaia não fala em nome dos evangélicos

Marcus Vinicius
14 de outubro de 2021

Cobertura da imprensa segue credenciando Silas Malafaia como porta-voz dos evangélicos, o que é ilegítimo e enganoso

por Magali Cunha

O cenário político está atiçado nestes dias por vários episódios. No início desta semana, voltou à cena o caso do preenchimento da vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), para a qual foi indicado o pastor presbiteriano ex-ministro da Advocacia Geral da União e da Justiça do atual governo, André Mendonça. Trata-se do cumprimento da promessa feita pelo presidente Jair Bolsonaro, em 2019, de indicar um ministro “terrivelmente evangélico”.

Ocorre que a promessa esbarrou na resistência a Mendonça da parte do presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Davi Alcolumbre (DEM/AP), responsável pela convocação da sabatina que precede a votação do nome no plenário. O senador quer que Bolsonaro retire o nome e faça outra indicação ao STF, ao que o presidente se recusa.

Além de parlamentares aliados de Bolsonaro, lideranças evangélicas, interessadas no cumprimento da promessa, vêm pressionando Alcolumbre e outros senadores. Mendonça também tem atuado na busca de apoio à sua indicação. O pastor tem participado de cultos em igrejas pentecostais, cujas lideranças declaram apoio ao governo. Ele chegou a dizer em evento na Assembleia de Deus Madureira, no Rio de Janeiro:

“Os senhores são bispos da Assembleia de Deus, mas, para além disso, Deus os constituiu bispos sobre a minha vida (…). Vocês têm autoridade espiritual sobre a minha vida (…). Vocês é quem são autoridades sobre mim. Eu sou um discípulo”.

O presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Silas Malafaia, que já havia se reunido com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM/MG), junto com outros pastores, em setembro, resolveu divulgar um vídeo na segunda-feira 11. A peça foi dirigida “ao povo abençoado do Brasil”. Nele, Malafaia acusa ministros do governo federal, Ciro Nogueira (Casa Civil), Flávia Arruda (Secretaria de Governo) e Fábio Faria (Comunicações) de conspirarem contra Bolsonaro e os evangélicos na busca de nome alternativo a Mendonça.

A ação dos ministros foi relatada em reportagem publicada no domingo, 10 de outubro, que registrava que há articulações entre ministros e senadores para substituir a indicação de Mendonça por outro presbiteriano, o presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) Alexandre Cordeiro de Macedo.

Na gravação, o pastor Malafaia criticou a busca por “pseudo-evangélicos” para a vaga e chamou Alcolumbre de “inescrupuloso”, cobrando explicações sobre suposta troca de favores do senador com um desembargador do Amapá.

No tom raivoso que lhe é peculiar, Malafaia afirma no vídeo:

“Ninguém vai enganar a comunidade evangélica. Não adianta jogo debaixo dos panos para botar alguém de interesse, porque não vai dar certo. Se barrarem André Mendonça, vai ter um outro que seja terrivelmente evangélico. E não serão vocês que dirão se A ou B é terrivelmente evangélico”.

Não é de hoje que o pastor Malafaia encarna o papel de porta-voz dos evangélicos. É uma estratégia política dele que lhe gera dividendos entre uma parcela deste grupo religioso e também de outros que têm afinidade com o seu discurso.

A questão que permanentemente se coloca não é a performance política de Malafaia, o alinhamento dele ao governo Bolsonaro ou a ressonância de seu discurso.

O que precisa ser intensa e amplamente criticada é a cobertura da imprensa que segue credenciando o pastor como porta-voz dos evangélicos, o que é ilegítimo e enganoso.

Pesquisei a cobertura noticiosa do vídeo do pastor. Ele repercutiu em quase todos os grandes jornais e portais de notícias e também em espaços noticiosos digitais de esquerda e de direita. Em absolutamente todos, Malafaia fala sozinho, pelos evangélicos, com acréscimos de aspas a evangélicos que reproduzem o que ele diz: deputados federais Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) e Marco Feliciano (Pode-SP).

Não há matéria jornalística sequer que ouça outras vozes evangélicas para reproduzir a pluralidade do segmento e revelem o que outros grupos e lideranças pensam sobre a indicação Mendonça e a disputa política em torno dela.

Temos neste fenômeno de comunicação o que transparece ser um misto de ignorância de jornalistas com expressão imaginária da religião dominante e afinidade ideológica eletiva. Explico.

A defasagem de jornalistas na cobertura de religião é significativa.

Não há formação nas escolas de jornalismo sobre o tema, muitos profissionais não se interessam em pesquisar e aprender e acabam cometendo equívocos frequentes. A resistência ao aprendizado pode advir, boa parte das vezes, do próprio imaginário.

Jornalistas são pessoas que têm visões de mundo, formação cultural, histórias de vida, nas quais está ou não a religião. Sua forma de cobrir um tema referente a religião terá a interferência deste imaginário sobre grupos religiosos podendo ser embasado em uma visão positiva, negativa, profunda, rasa, apoiadora, resistente.

Muita gente é formada no imaginário da religião dominante do Brasil, a Católica. A colonização religiosa é forte nestas terras e muita gente imagina qualquer outra religião a partir do que conhece do Catolicismo no qual foi formado direta ou indiretamente. Afinal, o Brasil parou ontem para celebrar uma santa, católica, e mesmo quem tem outra religião é obrigado a ter feriado. Portanto, muitos jornalistas imaginam evangélicos a partir da formação católica direta ou indireta que recebem. Não admitem uma religião que não tenha um Papa, um líder que hierarquicamente a conduz. Por isso, credenciam o pastor Malafaia.

Por fim, há o elemento da afinidade ideológica. Se Bolsonaro, Feliciano, Damares, Malafaia representam uma parcela conservadora da sociedade brasileira, é possível reconhecer uma afinidade entre estes líderes e quem produz e emite conteúdo nas mídias. Isso explicaria a indiferença do noticiário às controvérsias em torno de Malafaia entre os próprios evangélicos.

Malafaia fala sozinho nas notícias.
Se o conservadorismo evangélico tem suas marcas na política com as reações aos avanços no campo dos direitos sexuais e reprodutivos e das comunidades tradicionais, o conservadorismo midiático se revela na forma como o noticiário despreza avanços nas relações políticas com os movimentos sociais e reage à concessão de direitos às classes desprivilegiadas, atuando pela manutenção do status quo.

Identificam-se, portanto, afinidades eletivas entre o jornalismo veiculado pelas grandes mídias e as lideranças evangélicas em destaque na política. O destaque midiático a Malafaia e o silenciamento da dissonância entre evangélicos podem ser compreendidos por este viés.

Evangélicos não têm representantes, diferentemente dos católicos que têm uma igreja centralizada.

Evangélicos são fragmentados e plurais. Dado o contexto de força política do grupo hoje, muitos líderes falam em nome do segmento e os beneficiados politicamente com essa fala, como é o caso do mandatário brasileiro, reverberam isso. Fica-se, então, com o discurso hegemônico, neste caso o conservador.

Duas urgências emergem destes elementos apontados aqui:
1) os evangélicos que têm uma visão crítica do uso político da fé cristã precisam assumir suas raízes protestantes e erguer sua voz;
2) que os produtores de notícias superem o engano da apresentação dos evangélicos como um grupo homogêneo e rechacem tendências unificantes de um segmento formado por uma expressiva variedade de grupos, tornando nítidas e notórias as diferentes posturas e projetos deste segmento no espaço público.

Publicado originalmente na CartaCapital

AUTORA:

Magali Cunha

Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas e colunista da CartaCapital

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