Major réu da Monte Carlo diz que era proibido de atuar em casas de jogos

majorO major aposentado da PM Uziel Nunes dos Reis, réu da Operação Monte Carlo, prestou depoimento nesta terça-feira (28) no prédio da Justiça Federal, em Goiânia. Acusado de receber propina e repassar informações sigilosas e privilegiadas à quadrilha comandada pelo contraventor Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, o militar negou as acusações. Ele também disse que tinha uma ordem expressa do Comando da Polícia Militar para não atuar na repressão às lojas onde eram realizados ilegalmente jogos de azar.

Em 2012, quando a operação foi deflagrada, o major era subcomandante do 5º Comando Regional da Polícia Militar (CRPM), sediado em Luziânia e que atuava na região do Entorno do Distrito Federal e contava como apoio da Força Nacional. Na peça de defesa do réu, consta um documento o qual comunica que toda operação de combate a contravenção só poderia ser realizada mediante autorização expressa.

“Nunca foi prioridade da PM e da Força Nacional fechar casas onde funcionavam máquinas de caça-níqueis no entorno. A ordem era para ‘perder tempo com isso’, até porque, como a violência naquela região era muito grande, tínhamos que nos preocupar mais com crimes como homicídios, tráfico de drogas, roubo a comércio e sequestros relâmpagos”, afirmou.

Reis já havia feito tal afirmação em junho de 2012, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou a relação da Construtora Delta com Cachoeira. No entanto, havia afirmado que as ordens tinham vindo da Segurança Pública de Goiás.

Na época, o então secretário de Segurança Pública, João Furtado Neto, informou ao G1 que não tirou a PM do combate aos caça-níqueis e que determinou, em fevereiro de 2011, que a PM ficasse no trabalho ostensivo de repressão e a Polícia Civil cuidasse das investigações, que é a atribuição constitucional de cada uma das instituições. O objetivo seria resolver conflito de competências.

O militar se declarou inocente e disse que ter o nome listado como réu da operação lhe causou vários transtornos. “Primeiro tem o prejuízo moral. Parece que nessa operação colocaram todos no mesmo saco e disseram para cada um se salvar. Além disso, tem o prejuízo profissional. Sei que tinha chances de chegar a ser um coronel, mas por conta disso, tive que ir para a reserva”, lamentou.

Parentes de Cachoeira
O empresário Paulo Roberto de Almeida Ramos e o filho dele, também empresário, Thiago de Almeida Ramos – respectivamente, irmão e sobrinho de Carlinhos Cachoeira, também foram inquiridos. Eles negaram participação na quadrilha e alegaram que só foram citados na Operação Monte Carlo, que desarticulou o grupo que atuava na exploração ilegal de jogos e corrupção em Goiás e no Distrito Federal, por serem parentes do bicheiro.

Eles são acusados de administrar várias lojas onde funcionava o negócio ilegal das máquinas de caça-níqueis, em Goiânia, Aparecida de Goiânia e Uberlândia, Minas Gerais. Segundo a denúncia, do Ministério Público Federal (MPF), pai e filho ainda recebiam informações privilegiadas de autoridades policias sobre operações nestes estabelecimentos.

Paulo Roberto afirmou que sua ligação com Cachoeira sempre foi apenas familiar. “Nunca tive negócio com o Carlinhos. Minhas atividades eram lícitas. Até trabalhei alguns meses com jogos, mas quando a atividade era legalizada e nunca com meu irmão. Não participei de quadrilha. Sou acusado só porque sou irmão do Carlinhos Cachoeira”, reclamou.

Thiago também refutou a acusação e contou ainda que em 2012, época da deflagração da operação, ele e o pai estavam com as relações cortadas. “Em 2009, meu pai separou da minha mãe. Desde então, fui morar com ela e não tive mais contato com o meu pai. Só nos reaproximamos recentemente e hoje até administro uma carteira de clientes da empresa dele”, declarou.

Mais um réu confessa
Na audiência desta tarde, mais um réu confessou participação na exploração de jogos. Depois do corretor de imóveis, Francisco Marcelo de Sousa Queiroga, foi a vez do vendedor autônomo Danilo Dias Dutra revelar que também atuava de forma ilegal na máfia dos caça-níqueis.

Dutra alegou que explorava os jogos de azar, mas negou que pagava propina a policiais para atuar. Ele informou que também prestava conta ao irmão de Francisco, José Olímpio de Queiroga Neto, considerado um dos homens de confiança de Cachoeira, responsável por gerenciar as casas de jogos e já julgado pela Justiça.

“Eu era casado com a irmã dele [José Olímpio]. A loja era minha, mas as máquinas eram dele. Combinamos de que repassaria 75% do faturamento semanal para ele. Tive várias lojas fechadas e máquinas apreendidas pelas polícias Militar e Civil. Aí, o Olímpio me repassava outras máquinas e eu reabria a loja em outro ponto, mais escondido para a fiscalização não ficar sabendo”, explicou.

Outros depoimentos
A Justiça havia informado que nesta tarde ocorreriam cinco depoimentos. Porém, sete pessoas foram ouvidas, pois os interrogatórios de Dutra e do major da PM Antonil Ferreira dos Santos foram adiantados. Este último, acusado de receber propina para não atuar em operações policiais além de fazer a segurança de lojas onde funcionavam os jogos, negou participação na quadrilha.

Considerado office boy de Cachoeira, o hoje gerente de loja Rogério Diniz também afirmou ser inocente. Na denúncia, ele aparece como a pessoa responsável por cobrar parte dos rendimentos das máquinas e repassá-los a Cachoeira.

Ele afirmou que em 2001 se tornou motorista particular do bicheiro e três anos depois, quando ele se separou, continuou trabalhando com a primeira mulher do contraventor. O réu contou que já pegou dinheiro com Cachoeira algumas vezes, mas sempre para fazer pagar despesas de sua patroa.

As audiências dos 50 réus termina na quinta-feira (29), quando mais oito pessoas, a maioria policiais, serão ouvidas, totalizando 35 interrogatórios. Os outros 15 acusados decidiram depor nas cidades em residem, o que será feito através de carta precatória.

Audiências
Os depoimentos dos réus começaram na segunda-feira (26), com a participação de 11 pessoas. Francisco Queiroga confessou participação no esquema de jogos ilegais, outros seis negaram envolvimento com a quadrilha e quatro utilizaram o direito constitucional de permanecer calado.

Já no segundo dia, na terça-feira (28), foram colhidos depoimentos de mais nove pessoas. Entre elas está o ex-diretor da Construtora Delta Cláudio Dias de Abreu, que negou ser o braço direito de Cachoeira no comando da máfia dos caça-níqueis. Segundo a PF, ele era sócio do contraventor e ajudava a disfarçar os recursos obtidos pela quadrilha. Abreu confirmou que conhecia o bicheiro, mas ressaltou que ambos realizaram apenas um acordo comercial: “Só vendi uma casa para ele”.

Outro interrogado foi o ex-comandante da Polícia Militar de Goiânia coronel Massatoshi Sérgio Katayama, que chorou durante audiência. No fim de seu interrogatório, que durou cerca de 45 minutos, com a voz embargada, ele negou envolvimento com a grupo criminosos e disse que ter sido citado na operação encerrou sua carreira na polícia de forma “trágica”. “Depois de 29 anos na corporação, eu tinha aspiração de comandante geral da polícia. Estudei e trabalhei muito para isso. Agora nunca mais. Esse é o fato mais vergonhoso da minha vida”, afirmou.

O coronel, que perdeu o cargo de comandante em 2012, após ser citado na Operação Monte Carlo, é acusado de repassar informações privilegiadas ao grupo criminoso sobre as operações de combate aos jogos ilegais no estado. Ele teria, inclusive, recebido um rádio Nextel das mãos de Cláudio Abreu, pelo qual se comunicava diretamente com Cachoeira.

O militar também foi questionado sobre seu relacionamento com Cláudio Abreu. “Ia muito à Delta por conta de trabalhos e projetos da PM, assim como ia a outros fornecedores nossos”, diz. O coronel contou que a empresa, na época em que era comandante, locava os carros usados pela polícia. No entanto, afirmou que seu relacionamento com o diretor era estritamente profissional.

Um dos irmãos de Cachoeira, Marco Antônio de Almeida Ramos, também foi ouvido e negou envolvimento com o grupo criminoso do bicheiro. Ele disse que nunca teve “relações comerciais” com o irmão e ainda se emocionou ao tentar provar sua inocência. “Comecei a trabalhar nem banco aos 15 anos. Quando fui preso pela operação, me fizeram apenas duas perguntas e já me levaram para a cadeia. Fui preso injustamente. Meu filho tinha 15 anos na época e até hoje ele tem trauma”, afirmou.

Operação Monte Carlo
Carlinhos Cachoeira é acusado de chefiar um esquema de exploração de jogos ilegais e corrupção em Goiás e no Distrito Federal. Ele foi preso em 29 de fevereiro de 2012, quando a Operação Monte Carlo foi deflagrada pela PF e Ministério Público Federal (MPF). O empresário foi condenado a 39 anos e 8 meses de prisão pelos crimes de peculato, corrupção, violação de sigilo e formação de quadrilha. Ele recorreu da sentença e aguarda pela decisão em liberdade.

Além dele, outras sete pessoas também foram condenadas por crimes de quadrilha, corrupção ativa, violação de sigilo funcional, advocacia administrativa, peculato e furto. São elas: Lenine Araújo, a 24 anos e 4 meses de prisão; José Olímpio Queiroga Neto, a 23 anos e 4 meses; Idalberto Matias, o Dadá, a 19 anos e três meses; Geovani Pereira da Silva, a 13 anos e 4 meses; Raimundo Queiroga, a 12 anos e 8 meses; Gleyb Ferreira da Cruz, a 7 anos e 8 meses; e Wladimir Garcêz, a 7 anos. Todos ganharam o direito de recorrer da sentença em liberdade.

O nome de Cachoeira também aparece envolvido em outra operação da Polícia Federal, a Saint Michel, um desdobramento da Operação Monte Carlo, que apurou o envolvimento de agentes públicos e empresários em uma quadrilha que explorava o jogo ilegal e tráfico de influência em Goiás.

O bicheiro obteve liberdade em 11 de dezembro de 2012, dias depois de ser preso em razão de sua condenação. Antes, ele havia ficado preso no presídio da Papuda, em Brasília, por nove meses.

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