Luta contra um escândalo nacional

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egitoO polêmico filme egípcio “678” – número de um ônibus no qual três mulheres são persistentemente assediadas sexualmente  durante sua jornada diária para o trabalho – trouxe esse fenômeno para a atenção do público quando foi lançado em 2010. Hoje, ele continua tão relevante como foi na época.

Relatório divulgado recentemente pela Fundação Thomson Reuters coloca o Egito como o pior país para as mulheres no mundo árabe em termos de assédio sexual. Outros relatórios confirmaram a predomínio do fenômeno, algo que tomou a dimensão de um escândalo nacional. Um relatório das Nações Unidas sobre mulheres, de abril de 2013, concluiu, por exemplo, que  99,3 % por cento das mulheres e meninas eram alvo de assédio no Egito – mais do que em qualquer outro país árabe. Não está claro se isso ocorre porque as mulheres egípcias denunciam mais esses fatos.

A ONU Mulheres, instituição das Nações Unidas para a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres, também publicou um relatório mostrando as mais recentes estatísticas sobre assédio sexual no Egito. O estudo também revela que a vasta maioria das mulheres egípcias sofreu alguma forma de assédio sexual. Ativistas se queixam de que alguns egípcios, especialmente homens, podem ter se tornado “insensíveis” para o problema.

Os últimos dois anos foram marcados por grande turbulência social, situação econômica ruim, instabilidade política e até desordem em certas áreas do país. E é num cenário sombrio como esse que dois grupos voluntários de ajuda, a Operação contra o Assédio Sexual e os Guarda-Costas da Tahrir, foram estabelecidos na Praça Tahrir depois da Revolução de 30 de junho para ajudar a lidar com o problema.

Assédio verbal
As duas organizações empregam táticas ligeiramente diferentes, mas ambas lutam contra os assediadores. Elas põem em ação homens e mulheres treinados em artes marciais e que usam com frequência cassetetes e outras armas para desencorajar os atacantes. As vítimas feridas pelos assediadores são rapidamente enviadas para hospitais.  Os voluntários ajudam até mesmo a recolocar as roupas em mulheres despidas e a levá-las para casas seguras nas vizinhanças da Tahrir.

De acordo com o estudo da ONU, 96,5 % das mulheres assediadas disseram que o assédio sexual ocorreu na forma de toques indecentes, a manifestação mais comum de assédio sexual. O assédio sexual verbal era o segundo item na lista, com 95,5 % de mulheres relatando casos. O relatório notou que 83 % por cento das mulheres egípcias admitiram ter sofrido algum tipo de assédio sexual. E indicou que 46 % delas são alvo de assédio sexual diariamente.

“Isto não é um fenômeno novo: as mulheres sofrem há muito tempo com o assédio sexual, mas agora mais mulheres estão informando os casos tanto para a polícia como para organizações não governamentais preocupadas com esse problema específico. O primeiro grande protesto contra o assédio sexual ocorreu em junho de 2005, e eu participei dele”, disse ao “Weekly Al-Ahram” Magd Adli, diretora do Centro Al-Nadim para Supervisão e Reabilitação de Vítimas da Violência.

Situações semelhantes
O Centro Al-Nadim provê acompanhamento psicológico e reabilitação para vítimas de tortura e assédio. Junto com outras ONGs e pessoas, também proporciona formas de apoio social e encaminha vítimas para ajuda no âmbito da Justiça.

“Temos cada vez mais mulheres vindo ao centro para denunciar e se queixar de assédio sexual. Nós realizamos pesquisas e eu pessoalmente avaliei muitos casos. Trabalhei na Arábia Saudita e observei que muitas mulheres sauditas sofrem com situações semelhantes às que temos aqui no Egito. Na Arábia Saudita, a vítima algumas vezes é até assassinada por homens da família, algo que também ocorre no Alto Egito, uma região rural. A diferença é que na Arábia Saudita a mãe da vítima também é assassinada sob o pretexto de que ela não foi uma boa mãe. O fato é que o condicionamento social e os costumes culturais determinam que as mulheres são culpadas por serem assediadas”, disse Adli.

Segundo ela, o assédio sexual não está restrito a uma classe particular ou região, mesmo considerando que os piores casos examinados eram de áreas remotas, como o Alto Egito. Contudo, o assédio sexual também está se tornando mais comum nos centros urbanos, tanto nas áreas mais ricas das cidades como em áreas irregulares. “O assédio sexual atravessa as classes e a origem social. É prevalente no âmbito domestico. A maioria dos casos de assédio sexual ocorre dentro da família. A sociedade é condicionada a considerar um direito do homem exigir gratificação sexual da mulher, não importa se ela está ou não disposta, e a religião, em especial, sanciona essa obrigação conjugal “, argumenta Adli.

Walid Hammad, um jovem ator egípcio, decidiu vivenciar diretamente o que as mulheres passam nas ruas do Cairo. Ele se vestiu como mulher e saiu pelas ruas da cidade por duas vezes. Na primeira, vestido como uma mulher que não usa o véu islâmico e, na segunda, coberto com um véu, o “hijab”. Nas duas ocasiões a linguagem usada pelos homens com os quais se deparou foi atroz. A ironia é que a ofensa verbal e o assédio sexual que enfrentou quando estava de véu foram bem piores do que quando andou pelas ruas sem o “hijab”.

Luta regional
A organização HarassMap fez um grande trabalho para chamar a atenção para a crise e publicou um estudo semelhante ao do relatório da Thomson Reuters. Esse trabalho indica que 69% dos incidentes de assédio ocorrem na rua, cerca de 49% por cento no transporte público, 42% nas praias e 6,2 % no local de trabalho.

“O assédio sexual não é cometido por um certo tipo ou grupo de pessoas. Os molestadores estão em todas as partes da sociedade egípcia e em todas as idades. Nossos relatórios documentaram assédio de gerentes e supervisores, professores de escolas e universitários, policiais,  soldados, homens da área de segurança em bancos e hotéis, construtores, motoristas de táxi ou ônibus, homens dirigindo carros de luxo, médicos, vendedores, funcionários de restaurantes, ambulantes e mesmo crianças pequenas”, conclui o relatório da HarassMap.

O Conselho Nacional do Egito para as Mulheres está agora trabalhando com o Ministério do Interior para criar um sistema no qual  a mulher possa relatar casos de assédio para uma equipe especializada de agentes, homens e  mulheres, atuando  em conjunto  com centros como o Al-Nadim. Felizmente, os esforços desenvolvidos para ampliar a consciência para o problema estão se intensificando. O Centro Al-Nadim, em especial, fundado em 1993 “dedicou-se  à luta contra o crime, e nós entendemos que ao longo dos últimos cinco anos a situação se deteriorou”.

A luta contra o assédio sexual e para levar os responsáveis  à Justiça não se restringe ao Egito. O Al-Nadim ajudou a estabelecer o Grupo Sudanês contra a Tortura, que agora abrange também o assédio sexual, fazendo disso uma luta regional. “Estamos trabalhando estreitamente com organizações de objetivos semelhantes, tanto na África como no mundo árabe”, disse Adli.

Operamundi