Juiz prevê sentenças de réus da Operação Monte Carlo para este ano

juizO juiz Francisco Vieira Neto avaliou como positivas as audiências onde foram interrogados 36 réus da Operação monte Carlo, que desarticulou a quadrilha liderada pelo contraventor Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Ao todo, 50 pessoas foram denunciadas e 14 delas serão ouvidas através de carta precatória nas cidades onde residem. O magistrado prevê que as sentenças sejam definidas até o final deste ano. Foram quatro dias de trabalho, que se encerraram nesta quinta-feira (29), no prédio da Justiça Federal, com o depoimento de nove policiais militares.

“As audiências ajudaram. Eu disse aos advogados e ao Ministério Público Federal (MPF) que não há compromisso da Justiça em condenar ou absolver. Meu papel é colher as provas produzidas. Na ocasião da sentença, vou fazer um balanço para decidir de forma justa esse caso. As audiências foram muito proveitosas”, afirmou.

Segundo Vieira Neto, após as audiências, o processo segue com a abertura dos procedimentos de diligências complementares – todos os pedidos já foram indeferidos pelo magistrado. Em seguida, ocorrerão as alegações finais. “A princípio o único ato faltante será o interrogatório desses 14 réus, que tem 30 dias para serem ouvidos. Imagino que até o final do ano já tenhamos uma sentença para esse caso”, estima.

A sentença será única para os acusados, mas cada um terá o seu papel analisado de forma individualizada e especifica. “Não trabalhamos com sentenças genéricas”, advertiu o juiz. Segundo ele, além do crime de formação de quadrilha, os réus também respondem por outros delitos, como corrupção ativa e passiva e violação de sigilo profissional, no caso dos policiais.

Esta é a segunda etapa do julgamento dos réus da Operação Monte Carlo. Em dezembro de 2012, oito réus apontados como centrais no esquema, incluindo Cachoeira, foram condenados. Todos os envolvidos recorreram da sentença e aguardam em liberdade. A terceira é última fase irá interrogar mais 21 pessoas, entre elas policiais federais acusados de favorecer a máfia de jogos ilegais.

“Estamos aguardando a conclusão dos autos para esta terceira fase, falta intimar alguns réus. Tão logo sejam conclusos, devemos designar novas audiências ainda no segundo semestre deste ano”, destaca o juiz.

Depoimento
Nove militares que atuavam em cidades do Entorno do Distrito Federal prestaram depoimento no último dia de audiências. Inicialmente, estavam previstos oito, mas um deles que iria ser ouvido por precatória resolver comparecer a Goiânia para ser ouvido. Todos eles são acusados de fazer a segurança de casas onde funcionavam máquinas de caça-níqueis e deixar de atuar em operações de repressão a estes estabelecimentos.

Os réus também reforçaram o que já havia dito na quarta-feira (28), o major Uziel Nunes dos Reis, de que eram proibidos de atuar no combate aos locais onde eram realizados ilegalmente jogos de azar. Todos questionaram ainda a legalidade das escutas telefônicas utilizadas como provas do processo.

“Não reconhecemos, para nós as receptações são ilegais. Esta questão já foi explicada, houve falha. Há trechos que clientes meus, que tem nomes comuns, são citados por terceiros. É um absurdo”, reclamou a advogada Agna Rômulo Souza, que representa de quatro dos policiais ouvidos.

Para o procurador da República Marcelo Ribeiro de Oliveira, representante do MPF, essa questão já está superada. Ele afirma não ter dúvida sobre a legalidade das escutas, uma vez que elas já foram analisadas pela Justiça mais de uma vez.

“Quando você não tem condições de contraditar os fatos, você tem que contraditar a forma como esses fatos foram provados. Essa é a questão. As escutas já passaram pelo crivo de quatro tribunais pelo menos e todos disseram que elas são lícitas. Não tenho dúvida alguma quanto a licitude delas. Entendo que a defesa tenha que questionar, é o papel dela, mas não tem a menor possibilidade”, pontua.

Audiências
Os depoimentos dos réus começaram na última segunda-feira (26), com a participação de 11 pessoas. Na ocasião, o corretor de imóveis Francisco Marcelo de Sousa Queiroga, confessou participação no esquema de jogos ilegais. Outros seis negaram envolvimento com a quadrilha e quatro utilizaram o direito constitucional de permanecer calado.

Já no segundo dia, na terça-feira (28), foram colhidos depoimentos de mais nove pessoas. Entre elas estava o ex-diretor da Construtora Delta Cláudio Dias de Abreu, que negou ser o braço direito de Cachoeira no comando da máfia dos caça-níqueis. Segundo a PF, ele era sócio do contraventor e ajudava a disfarçar os recursos obtidos pela quadrilha. Abreu confirmou que conhecia o bicheiro, mas ressaltou que ambos realizaram apenas um acordo comercial: “Só vendi uma casa para ele”.

Outro interrogado foi o ex-comandante da Polícia Militar de Goiânia coronel Massatoshi Sérgio Katayama, que chorou durante audiência. No fim de seu interrogatório, que durou cerca de 45 minutos, com a voz embargada, ele negou envolvimento com a grupo criminosos e disse que ter sido citado na operação encerrou sua carreira na polícia de forma “trágica”. “Depois de 29 anos na corporação, eu tinha aspiração de comandante geral da polícia. Estudei e trabalhei muito para isso. Agora nunca mais. Esse é o fato mais vergonhoso da minha vida”, afirmou.

Um dos irmãos de Cachoeira, Marco Antônio de Almeida Ramos, também foi ouvido e negou envolvimento com o grupo criminoso. Ele disse que nunca teve “relações comerciais” com o irmão. “Comecei a trabalhar em banco aos 15 anos. Quando fui preso pela operação, me fizeram apenas duas perguntas e já me levaram para a cadeia. Fui preso injustamente. Meu filho tinha 15 anos na época e até hoje ele tem trauma”, afirmou.

Na quarta-feira (28), sete pessoas foram interrogadas pelo juiz. Entre elas estava o major aposentado da PM Uziel Nunes dos Reis, acusado de receber propina e repassar informações sigilosas e privilegiadas à quadrilha. No entanto, em depoimento, ele disse que tinha uma ordem expressa do Comando da Polícia Militar para não atuar na repressão às lojas onde eram realizados ilegalmente jogos de azar.

Além de Uziel, o empresário Paulo Roberto de Almeida Ramos e o filho dele, também empresário, Thiago de Almeida Ramos – respectivamente, irmão e sobrinho de Carlinhos Cachoeira, também foram inquiridos. Eles negaram participação na quadrilha e alegaram que só foram citados na Operação Monte Carlo por serem parentes do bicheiro.

Os dois são acusados de administrar várias lojas onde funcionava o negócio ilegal das máquinas de caça-níqueis, em Goiânia, Aparecida de Goiânia e Uberlândia (MG). Segundo a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), pai e filho ainda recebiam informações privilegiadas de autoridades policias sobre operações nestes estabelecimentos.

Na audiência de quarta-feira, outro réu, o vendedor autônomo Danilo Dias Dutra confirmou que atuava de forma ilegal na máfia dos caça-níqueis, mas negou que pagava propina a policiais para atuar. Ele informou que também prestava conta ao irmão de Francisco, José Olímpio de Queiroga Neto, considerado um dos homens de confiança de Cachoeira, responsável por gerenciar as casas de jogos e já julgado pela Justiça.

Considerado office boy de Cachoeira, o atual gerente de loja Rogério Diniz também afirmou ser inocente. Na denúncia, ele aparece como a pessoa responsável por cobrar parte dos rendimentos das máquinas e repassá-los ao bicheiro. Ele contou que em 2001 se tornou motorista particular do contraventor e, três anos depois, quando ele se separou, continuou trabalhando com sua primeira mulher. O réu confirmou que já pegou dinheiro com Cachoeira algumas vezes, mas sempre para fazer pagar despesas de sua patroa.

Operação Monte Carlo
Carlinhos Cachoeira é acusado de chefiar um esquema de exploração de jogos ilegais e corrupção em Goiás e no Distrito Federal. Ele foi preso em 29 de fevereiro de 2012, quando a Operação Monte Carlo foi deflagrada pela PF e Ministério Público Federal (MPF). O empresário foi condenado a 39 anos e 8 meses de prisão pelos crimes de peculato, corrupção, violação de sigilo e formação de quadrilha. Ele recorreu da sentença e aguarda pela decisão em liberdade.

Além dele, outras sete pessoas também foram condenadas por crimes de quadrilha, corrupção ativa, violação de sigilo funcional, advocacia administrativa, peculato e furto. São elas: Lenine Araújo, a 24 anos e 4 meses de prisão; José Olímpio Queiroga Neto, a 23 anos e 4 meses; Idalberto Matias, o Dadá, a 19 anos e três meses; Geovani Pereira da Silva, a 13 anos e 4 meses; Raimundo Queiroga, a 12 anos e 8 meses; Gleyb Ferreira da Cruz, a 7 anos e 8 meses; e Wladimir Garcêz, a 7 anos. Todos ganharam o direito de recorrer da sentença em liberdade.

O nome de Cachoeira também aparece envolvido em outra operação da Polícia Federal, a Saint Michel, um desdobramento da Operação Monte Carlo, que apurou o envolvimento de agentes públicos e empresários em uma quadrilha que explorava o jogo ilegal e tráfico de influência em Goiás.

O bicheiro obteve liberdade em 11 de dezembro de 2012, dias depois de ser preso em razão de sua condenação. Antes, ele havia ficado preso no presídio da Papuda, em Brasília, por nove meses.

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