Inquérito sobre linchamento de rapaz em hospital de GO não está concluído

O inquérito sobre o linchamento de um rapaz de 24 anos em Nova Crixás, na região norte de Goiás, ainda não foi concluído. O crime aconteceu no último dia 5 de abril e, segundo a Polícia Civil, 78 pessoas envolvidas são investigadas e já prestaram depoimento. “Apenas um foi preso, pois comprovamos por meio de vídeos que ele participou do assassinato. No entanto, ele foi liberado há duas semanas e aguarda pelo andamento do processo em liberdade, assim como os demais”, explicou ao G1 o delegado responsável pelo caso, Murilo Gonçalves de Almeida.

O rapaz que foi agredido até a morte dentro do Hospital Municipal de Nova Crixás, enquanto fazia um exame de corpo de delito, foi preso por suspeita de furtar uma casa. Na mesma madrugada, uma criança de seis anos havia sido estuprada na cidade e a população atribuiu a ele a autoria do abuso. “Até o momento não temos elementos que incriminem o jovem nesse caso. Ele foi preso pelo furto, não por estupro. Para tirar a dúvida, colhemos material genético dele e da criança para análise e aguardamos os resultados”, relatou o delegado.

Murilo Gonçalves afirma que o inquérito deve ser concluído em até duas semanas, mesmo se os laudos pericial e clínico não estiverem prontos. “Já temos elementos suficientes para determinar o que aconteceu naquele dia. Esses laudos poderão ser anexados futuramente”.

linxhamento
O delegado explicou, ainda, que agora são feitas as análises individuais da conduta de cada uma das pessoas que participaram do linchamento, pois algumas deverão ser indiciadas por homicídio, por agressão e até por danos ao patrimônio público e privado. “Cada um teve uma postura diferente e ainda fazemos essa individualização dos crimes. Mesmo aqueles que filmaram as agressões poderão ser responsabilizados. Esperamos que em breve o caso seja encaminhado ao Poder Judiciário”, afirmou.

Destruição
O ataque ao rapaz aconteceu dentro das dependências do único hospital público da cidade. Na época do crime, o delegado Arthur Curado Fleury, responsável pelo registro da ocorrência que resultou na prisão do jovem, disse que a polícia temia pela integridade física do suspeito e que, por isso, ele era escoltado por cerca de dez policiais, entre militares e civis.

“Enquanto eles estavam lá dentro, centenas de pessoas começaram a se aglomerar do lado de fora. Infelizmente, os policiais não conseguiram impedir a entrada dos moradores no hospital e eles acabaram matando o suspeito”, contou o delegado.

Por conta da invasão, a unidade hospitalar teve danos estruturais, como portas, janelas, vidros e móveis quebrados. Além disso, um equipamento para realização de endoscopia chegou a ser arremessado por populares. “Foi uma selvageria e o hospital teve muitos danos. Felizmente, o endoscópio não chegou a quebrar, pois os prejuízos seriam maiores ainda”, explicou ao G1 a diretora administrativa do hospital, Nara Hellen Alves Pinto.

Segundo ela, a unidade precisou suspender os atendimentos na noite do crime até o final do dia seguinte, pois foi necessária uma limpeza e retirada de objetos quebrados. “Depois, o atendimento ainda ficou prejudicado por mais uma semana, sendo que apenas as consultas agendadas e casos de emergência foram atendidos. A situação só foi totalmente normalizada na semana seguinte”, conta.

A diretora administrativa do hospital explicou, ainda, que a mãe do rapaz assassinado trabalha na lavanderia da unidade e está afastada desde o crime. “Ela é uma senhora já de mais idade e ficou muito abalada com tudo que aconteceu. Aí, decidiram dar uma licença para ela e anteciparam as férias. Ela ainda não retornou ao trabalho e se recupera na casa de uma filha, em outra cidade”, relatou Nara.

Revolta
A criança de seis anos foi estuprada na madrugada do dia 5 de abril. Segundo a Polícia Civil, um criminoso entrou na casa em que ela mora com a família, a levou para um terreno baldio, cometeu o abuso, e devolveu a menina em casa. Horas depois, o rapaz de 24 anos foi preso na cidade suspeito de furtar uma casa. Ele foi levado para a delegacia e encaminhado para o hospital para fazer exames. Lá, foi agredido e morto.

O suspeito tinha sido solto da prisão 15 dias antes de ser novamente preso e já tinha respondido por um estupro. “A população ligou uma coisa a outra. Mas a vítima chegou a ir até a delegacia, mas não reconheceu o homem. Apesar da suspeita, não tínhamos provas que o incriminassem e, por isso, ele tinha sido autuado apenas pelo furto”, relatou Maurício Gonçalves.

Até segunda-feira (26), nenhum suspeito pelo estupro havia sido preso. “Continuamos as diligências para elucidar esse crime. Mesmo que o rapaz tivesse participação no estupro, a população não poderia fazer justiça com as próprias mãos. Agora os envolvidos terão que arcar com as consequências”, concluiu o delegado.

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