Guerra na Síria ameaça patrimônio histórico e cultural milenar e afasta pesquisadores do país

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Desenvolvimento da arqueologia na Síria foi impactado por intensificação do conflito

Raras foram as guerras nas quais a tragédia humanitária foi acompanhada de um cenário de devastação cultural e histórica tão dramático como o atual conflito na Síria. Embora sejam cotidianas as notícias sobre danos, saques e até destruição intencional do patrimônio, ainda não se tem informações suficientemente consolidadas das dimensões destas perdas. “Há poucos canais de informação fidedignos sobre o que está acontecendo”, relata o arqueólogo espanhol Miquel Molist, pesquisador com mais de 30 anos de trabalho naquele país.

Alguns dias antes da entrevista a Opera Mundi, o pesquisador da Universidade Autônoma de Barcelona realizava trabalhos na cidade de Arbil, no norte do Iraque, a apenas 80 quilômetros das frentes de batalha. Apesar da proximidade, ele conta que as pessoas levam uma vida normal, embora às vezes sejam lembradas o quão perto estão da zona de conflito. “Durante alguns dias aconteceram combates pela recuperação de cidades ao sul e durante as noites ouvíamos o barulho da aviação militar”, relata.

O trabalho no norte do Iraque começou com a impossibilidade de continuar na Síria. Segundo ele, até 2011 havia cerca de 180 equipes internacionais trabalhando no país. Ao longo das últimas décadas, por conflitos como a guerra entre Irã e Iraque, a Guerra do Golfo e a invasão do Iraque, foram comuns os deslocamentos de equipes de pesquisadores. O próprio desenvolvimento da arqueologia na Síria foi impactado pela chegada de grupos que antes estavam em outras zonas. Atualmente, os pesquisadores têm se deslocado principalmente para Turquia, Jordânia e norte do Iraque.

No início de 2011, quando se sucederam os eventos que deflagrariam a guerra civil, Molist e sua equipe trabalhavam no vale do rio Eufrates, no sítio de Tell Halula, local onde dirigiu as escavações por 20 anos. “Vivemos a progressão do conflito. A embaixada espanhola não calculou inicialmente o alcance e nos disse que podíamos continuar trabalhando”, relembra. A equipe só decidiu deixar temporariamente o país ao contactar suas famílias na Espanha, que relatavam a gravidade do que estava sendo noticiado. “Deixamos computadores e roupas, como fazíamos todos os anos”, recorda.

os poucos, a perspectiva de voltar foi se distanciado com a gravidade do conflito. Atualmente, a zona em que Molist trabalhava está em mãos do autoproclamado Estado Islâmico (EI), e fica a 90 quilômetros de Raqqa, suposta capital do grupo na Síria. “Ainda estabelecemos contato para saber se tudo vai bem. Parece que não há danos no sítio arqueológico.” A casa utilizada pelos arqueólogos  permanece aparentemente intocada e ainda alugada à equipe. “Só este ano acabou o contrato”, relata Molist, afirmando que a muito custo conseguiram renová-lo. Para recolher o dinheiro, a família teria que se locomover até Alepo, a 65 quilômetros, provavelmente atravessando zonas de risco.

Tensão crescente

O pesquisador Pedro Azara, da Escola de Arquitetura de Barcelona e que trabalhou na Síria e no Iraque, relata que nos anos antes do início da guerra a situação já não era boa. Entre 2007 e 2010, ele participou de uma missão francesa nos sítios de Tell Masaikh e Terqa, no povoado de Asharah, próximo ao Iraque. “A partir de 2009 a polícia foi algumas vezes ao sítio perguntando o nome dos trabalhadores. Não sabíamos o que procuravam…”, afirma. Ele lembra que naquela região eram necessárias medidas de precaução como não sair à noite e ter cuidado com o comportamento. Sobre as duas escavações, a informação que teria é que Terqa, no povoado, teria sido vandalizada, e que Tell Masaikh, na área rural, estaria preservada.

Azara relata que, para além de uma deterioração da situação econômica, sentia um crescimento do fundamentalismo religioso desde a primeira vez que esteve na Síria, em 1995. “A partir daí cresceu exponencialmente número de novas mesquitas e de mulheres cobertas inteiramente”, relata. Sobre as mudanças comportamentais, Miquel Molist acredita que acontecia de forma distinta no país. “Em zonas urbanas se sentia uma maior pressão islamizante. Mas, no mundo rural, não se observava tanto”, lembra, ressaltando que nos sítios haviam mulheres dos povoados trabalhando.

A pesquisadora da Universidade de Barcelona Adelina Millet, que trabalhou por cerca de 15 anos na Síria, recorda dois episódios que a marcaram. O primeiro foi uma conversa em 2007 com o representante do governo na escavação, um sírio cristão ortodoxo. “Lembro ele dizendo: no momento que a autoridade do [presidente sírio] Bashar Al-Assad mingue, vamos desaparecer, sejamos cristãos, curdos, ou, inclusive, minorias muçulmanas”, conta.

Um ano mais tarde, em 2008, a pesquisadora conheceu um estudante que acompanhava os trabalhos da missão estrangeira. “Ele falava abertamente que se algum dia acontecesse um conflito, não teria dúvidas em colocar explosivos e fazer explodir o que lhe mandassem”, lembra. “Sempre que vejo o EI, lembro desse rapaz. Estará com eles? Já estará morto?”, questiona, avaliando que os sentimentos expressos pelos dois personagens faziam parte do país. Epigrafista, Adelina Millet pesquisava inscrições antigas encontradas nas escavações. Ela tinha planos de voltar à Síria em 2011, que foram inviabilizados pelo conflito.

Patrimônio único

Embora relativamente pequena, a Síria detém um dos patrimônios históricos mais interessantes e diversos do mundo, com seis localidades reconhecidas como patrimônio da humanidade pela Unesco. “O país tem três elementos que o diferencia. Por um lado, é um enclave no Oriente Médio que é uma zona geográfica entre Europa, Ásia e África, o que ajudou a uma evolução histórica muito particular. Em segundo lugar, é onde aconteceram fenômenos como o surgimento da agricultura e a domesticação de animais, o nascimento das cidades, o surgimento do Estado e a criação do alfabeto. E a terceira é a boa conservação do registro arqueológico, talvez por não ter tido uma revolução industrial ou porque o desenvolvimento urbano chegou tarde”, afirma Miquel Molist.

O panorama poderia ser muito mais catastrófico não fosse a ação da Direção-Geral de Antiguidade e de Museus do Ministério da Cultura, que realizou um trabalho preventivo como a transferência dos acervos dos museus para depósitos seguros. Com a exceção do museu de Raqqa e eventualmente algum acervo menor, não há outros casos de perdas de coleções inteiras. Além disto, no início do conflito, o órgão clamou aos combatentes que preservassem o patrimônio. Adelina Millet elogia o trabalho dos profissionais da área. “Para além das suas responsabilidades, muitos protegem as peças como se fosse algo seu, às vezes até com a vida. Se este acervo sobreviver, será graças a eles.”

A ação bem-sucedida com os museus não pôde se repetir em muitas ruínas arqueológicas, visto que são numerosas e estão espalhadas por todo o país. Enquanto o patrimônio das cidades sofre particularmente com os combates e bombardeios, sítios arqueológicos mais afastados sofrem com o abandono e saques. Azara explica que as “escavações ilegais muitas vezes são feitas pela própria população, por conta da situação econômica duríssima e porque há gente disposta a pagar pelos objetos”. Um atenuante seria o fato de serem raros os sítios arqueológicos com mais de 10% de seu território escavado. As principais portas de saída de antiguidades são os vizinhos Líbano, Jordânia e Turquia, porém o destino final seriam colecionadores da Europa e Estados Unidos, além de países como Arábia Saudita e China.

A destruição do patrimônio como arma

Nestes cinco anos de guerra, um dos episódios de maior repercussão foi a destruição do patrimônio histórico da cidade de Palmira. As ruínas ficam em um oásis nas estepes sírias ocupado há tanto tempo quanto a própria existência dos seres humanos modernos. A cidade, embora muito mais antiga, se destacou particularmente durante o Império Romano, quando foi um fundamental ponto de passagem do comércio entre o mar Mediterrâneo e o Extremo Oriente.

Miquel Molist trabalhou no oásis de Palmira entre 1978 e 1986 e, durante esses anos, acompanhou de perto o desenvolvimento das escavações na região. “Até 1930, as populações beduínas se instalavam dentro das próprias construções romanas. O trabalho arqueológico começa no fim dos anos 1930 e se acelera a partir dos anos 1970, quando o sítio se torna um dos mais importantes da região”, explica, relatando que nos anos 1990 o sítio viveu um “boom” turístico.

Embora já impactada pela guerra, Palmira sofreria particularmente com a tomada da região pelo Estado Islâmico em maio de 2015. A partir deste momento houve uma destruição focalizada do patrimônio. Construções milenares, como o arco triunfal, os templos de Bel e Baal-Shamin, e as tumbas em formato de torre de Elahbel e Iamblichus foram explodidos. Além disto, prisioneiros foram executados em pleno teatro antigo.

O assassinato de Khaled al-Assad, chefe de antiguidades de Palmira por 50 anos, foi um dos crimes mais impactantes do EI. Miquel Molist teve a oportunidade de tornar-se amigo do arqueólogo. “Quando chegávamos a Palmira ele sempre recebia as equipes e mostrava os progressos no sítio”, lembra. Aos 82 anos, al-Assad se recusou a deixar a cidade sabendo dos riscos que corria. “Ele foi assassinado após um interrogatório no qual se negou a facilitar dados sobre onde estaria o patrimônio que tinha sido protegido. Acabou sendo uma vítima de sua ética e integridade profissional”, diz o arqueólogo.

Com a ascensão do EI no leste da Síria a partir de 2014, os danos ao patrimônio cultural do país – assim como aconteceu no Iraque, local originário do grupo – ganharam uma mudança qualitativa com ações de destruição como arma de propaganda e coesão ideológica. Ideologicamente, os ataques se dirigiriam à iconografia de deuses considerados por eles pagãos. “Essa é explicação que dão, mas se acreditam, não sei”, diz Pedro Azara, que afirma que o grupo usa o patrimônio como uma espécie de escudo: “se nos atacam, destruímos”.

Adelina Millet destaca o intuito de causar impacto internacional, já que muitos sítios arqueológicos são importantes centros turísticos. Ela aponta a incoerência do grupo já que, por exemplo, em Palmira foram destruídos também vestígios da época islâmica. “Não é coerente nem com o que parece ser sua ideologia”, pensa.

Perdas irreparáveis

Azara acredita ser possível restaurar o que foi destruído. “Um sítio arqueológico como Palmira está documentado pedra a pedra”, diz, lembrando que após a Segunda Guerra Mundial cidades como Varsóvia e Dresden passaram por processos de reconstrução. Ele considera que as perdas irreparáveis estariam em sítios menores ou menos documentados. Miquel Molist defende não uma reconstrução, mas a proteção do que restou, inclusive como lição para gerações futuras. “Os historiadores não devem tentar reconstruir, e sim proteger o que sobrou, e, com novas tecnologias, realizar reconstituições virtuais”, afirma.

Perguntado sobre o que se perde com a destruição de um patrimônio como o da Síria, Molist contextualiza que em primeiro lugar é preciso se preocupar com as pessoas. “É um conflito com milhares de mortos e um nível de deslocamento humano que não víamos há décadas. Isso é o mais grave. Mas é verdade que, por trajetória profissional, insisto em que o patrimônio também é importante. É um elemento de riqueza cultural de qualquer população”, afirma.

Pedro Azara considera que com a destruição do patrimônio se perderia uma documentação importante sobre o modo de vida de culturas antigas. Já para Adelina Millet, “se apaga uma parte da história da humanidade. É outra maneira de aniquilar”. Segundo a pesquisadora, se o passado não nos interessasse, destruiríamos tudo. “Nos interessa saber quem somos, de onde viemos”, reflete.

Operamundi

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