A grande goleada do Brasil na Copa

Brasilia, DF, Brasil, . (Foto: Andre Borges/ ComCopa)
Brasil sedia maior e melhor Copa do Mundo e encanta torcedores do todo o mundo

A Copa do Mundo de 2014 termina domingo, mas já se diz que ela se consagrará como a maior e mais bonita Copa realizada na era moderna.

Eu li e ouvi tudo o que se pode imaginar antes de rumar para o Brasil, onde passei duas semanas para ver a Copa do Mundo.

Como se sabe, já se ouvia uma massa de perguntas, de preocupação e de indignação expressa em sentimentos. « Ah,  Mundial do Brasil ? Aquele país desencantado, desiludido, e mal-humorado, sempre na eterna buscar um futuro melhor ? » « Um país de má gestão do Estado ? » , tudo isso eu lia e ouvia com bastante frequência.

Eu vivi no Brasil em meados dos anos 90, no Nordeste. Saí daquele país de coração partido em 1997, mas nunca de fato o deixei de verdade, mantendo uma ligação não só permanente e nostálgica, mas também de forma crítica. É por isso que eu jamais entendi essa campanha de difamação sobre o país. Em meu coração, eu sabia que o debate sobre a má organização da Copa do Mundo servia apenas para desnaturar e fazer perder o seu significado. Eu sabia que todas as condições haviam sido cumpridas para que o país e seu povo vivessem um mês de celebração e entusiasmo, em torno dos telões que floresciam nação afora, ou simplesmente em reuniões de família. O Mundial anunciava a realização de uma série de manifestações e greves, com atrasos na infra-estrutura ou surtos de violência. Houve certamente alguns atrasos inerentes à preparação de eventos como tal, além de alguns incidentes, acidentes ou movimentos de protesto, mas nada que corresponda a essa catástrofe que fora anunciada.

Quero testemunhar que, durante a Copa, pôde ser constatada uma organização sem grandes problemas, em uma atmosfera de alegria e convivência excepcionais. O desenrolar da 19a edição da Copa do Mundo esteve, além disso, em linha com as expectativas da FIFA. O Comitê Organizador ainda se beneficiou de uma taxa de ocupação nos estádios muito superior às Copas da África do Sul e da Alemanha.

Esse Mundial cumpriu as suas promessas. Não escuto mais aqueles que atiraram todas as pedras no Brasil, senão apenas uma parte da imprensa do país cujo alvo é o governo brasileiro e que e, na minha opinião, tem expresso suas idéias num tom excessivo e desrespeitoso. Isso não surpreende, tendo em vista a eleição a ser realizada no próximo outono.

Do Rio a Recife, vivi momentos de pura felicidade, com segurança, em uma atmosfera festiva única, especialmente na FIFA Fan Fest montado em todas as cidades que receberam os jogos. Sobre a hospitalidade e a organização em aeroportos e estádios, não há nada a destacar, a não ser a qualidade notável dos serviços prestados. O que podemos dizer de Recife, capital do estado de Pernambuco, no Nordeste? Vi que a cidade tem se beneficiado muito com o trabalho realizado para a Copa do Mundo. O aeroporto é lindo, as principais artérias da cidade foram ampliadas, o número de hotéis multiplicou, e o Skytrain tornou-se uma sensação impressionante de modernização.

As únicas críticas que faço são contra a FIFA. Tendo obtido bilhetes por meio de seu canal oficial, fui confrontado a uma burocracia sem sentido de modo que pudesse retirá-los em um dos centros de distribuição no Brasil. Depois que me dei conta de que as ações que tomei (dispendiosas em tempo e dinheiro) se mostraram desnecessárias – para não falar dos controles de identidade aleatórias no acesso aos estádios (isso portando os bilhetes emitidos em meu nome), a FIFA ainda havia encomendado uma empresa fornecedora exclusiva de gerir os bilhetes de ponto de acesso. Hoje, fiquei sabendo da prisão do diretor da empresa de gestão de ingressos, suspeito de ser o líder de uma rede de revenda ilegal de ingressos para jogos da Copa no Brasil.

Esta mesma FIFA, por meio de seu secretário-geral, continuou até a véspera do Mundo a publicamente criticar o governo brasileiro por atrasos nas obras, e que na semana passada manifestou preocupação com a taxa de álcool e a intoxicação verificadas nos estádios. Não podemos esquecer de mencionar de que foi a FIFA a pressionar o governo brasileiro para reverter uma lei nacional que proíbe a venda de álcool nos estádios, cedendo às pressões de um dos seus principais patrocinadores – uma das marcas mais importantes de cerveja no mundo.

Infelizmente, o sonho brasileiro de ganhar a Copa do Mundo em caso desapareceu em um cenário de pesadelo que ninguém poderia ter previsto. Mas, muito além desse resultado incrível contra a Alemanha, que inevitavelmente trará consequências no esporte no país, o Brasil obteve a mais bela das vitórias: a ter sediado a melhor Copa do Mundo das quais tive a chance de participei. Apesar de ter enfrentado todas as hostilidades possíveis, o país conseguiu silenciar todas as críticas. A Copa do Mundo de 2014 termina domingo, mas já se diz que ela se consagrará como a maior Copa realizada na era moderna. A mais bonita, a mais espetacular, a mais colorida, a mais surpreendente. Eu não posso deixar de sorrir ao agora notar esse coro de elogios vindos de todos aqueles que antes emanaram críticas tão violentas. É por isso que eu não posso deixar de me celebrar e cantar a grande música entoada pela torcida nos estádios : «
 com muito orgulho, com muito amor » .

(*) Chefe de Relacionamento com a Mídia no Departamento de Comunicação da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). As idéias expressas no artigo refletem a opinião pessoal do autor.

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