Gasolina cara para o povo e R$ 136 bilhões para acionistas

Após distribuir R$ 48,5 bilhões pelo primeiro trimestre, estatal anuncia mais R$ 87,8 bilhões. “PPI é para agradar aos acionistas em detrimento de 215 milhões de brasileiros”, critica Lula

Da Redação
31/07/2022 - 16:07
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Gasolina cara para o povo e R$ 136 bilhões para acionistas

Enquanto um desesperado Jair Bolsonaro jura no Twitter que “o Brasil terá uma das ‘gasolina’ (sic) mais barata do mundo”, a gestão bolsonarista da Petrobrás eleva sua farra dos dividendos ao máximo. Nesta quinta-feira (28), ao apresentar lucro de R$ 54,3 bilhões entre abril e junho, a diretoria da estatal também anunciou a antecipação de R$ 87,81 bilhões em dividendos referentes aos resultados do segundo trimestre.

O anúncio recebeu críticas da presidenta nacional do PT, deputada federal Gleisi Hoffmann. “Mais uma leva de altos dividendos da Petrobras e desta vez os acionistas privados vão receber R$ 87,8 bilhões! É absurdo isso. O povo paga gasolina cara e também o aumento em cadeia dos produtos. Bolsonaro não resolve e ainda tira dinheiro dos estados pra tentar baixar o preço”, afirmou a deputada paranaense.

O valor exorbitante do segundo trimestre se somará aos R$ 48,5 bilhões distribuídos em julho e junho em remuneração aos acionistas pelos resultados do primeiro trimestre, totalizando R$ 136,31 bilhões em dividendos em seis meses. Muito acima dos R$ 101,39 bilhões entregue no ano passado, que já haviam sido um recorde na história da empresa.

A “mágica da multiplicação” veio do Conselho de Administração da Petrobrás, que aprovou remunerar os acionistas a R$ 6,73 por ação. Ou quase o dobro dos R$ 3,71 pagos pela empresa por ação na distribuição dos dividendos do primeiro trimestre.

“É um escândalo a diretoria da estatal pagar aos acionistas quase 7 reais por ação e reduzir apenas 15 centavos no litro da gasolina, cujos preços abusivos têm impacto na inflação e na vida de todos os brasileiros”, critica o coordenador da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, no site da entidade.

Pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Eduardo Costa Pinto afirma que boa parte desse “superlucro” resulta da alta dos preços dos combustíveis no mercado interno, que respondem por 74% dos lucros totais da empresa.

Em três anos e meio de desgoverno Bolsonaro, a política de Preços de Paridade de Importação (PPI) adotada em 2016, sob o usurpador Michel Temer, e mantida pelo sucessor, já resultou em aumentos de mais de 155% na gasolina e de 203% no diesel comercializados pelas refinarias da Petrobrás.

Na comparação com o segundo trimestre de 2021, o preço médio dos derivados vendidos pela estatal teve alta de 55%. O economista ressalta ainda que o anúncio da Petrobrás ocorre logo após a equipe econômica de Bolsonaro pedir a contribuição das estatais para fechar as contas deficitárias do Executivo.

Um quinto do valor da empresa gastos em agrados ao mercado

Também vice-diretor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ), Costa Pinto chamou de “butim” esses quase R$ 88 bilhões a serem distribuídos em agosto e setembro, às vésperas das eleições.

“Em apenas um trimestre, a empresa vai distribuir aos acionistas cerca de 20,5% do seu valor (R$ 428,7 bilhões)”, aponta o economista. “Desse total, R$ 35,5 bi vão para acionistas estrangeiros, R$ 32,5 bi para o governo e R$ 20,7 bi para os acionistas privados nacionais.”

A “farra dos dividendos”, acrescenta Deyvid Bacelar, ocorre às custas da política de preços abusivos, das privatizações e dos cortes de investimentos. “É um verdadeiro saque ao patrimônio público. Estão raspando os cofres da Petrobrás, ao apagar das luzes desta gestão entreguista, algo sem precedentes na história da empresa”, alerta.

Nos primeiros seis meses deste ano, a Petrobrás registrou um ganho de R$ 98,891 bilhões, alta de 124,6% em relação ao mesmo período de 2021. Ao mesmo tempo, encolheu os investimentos ao piso histórico. No trimestre passado, os investimentos totais da empresa somaram R$ 9,2 bilhões.

Assim, a participação da estatal na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) – índice que mede os investimentos totais no país – caiu para 2,2%, menor nível da série histórica. Nos dois anos anteriores, esse índice ficou em 3,8%. Em 2009, a Petrobras chegou a responder por 11,1% dos investimentos no Brasil.

Prates: “Bolsonaro conduz a Petrobrás para o abismo”

Essa corrida ao superlucro de curto prazo está conduzindo a Petrobrás para o abismo, avaliou o senador Jean Paul Prates (PT-RN) em entrevista ao Jornal PT Brasil, nesta quarta-feira (27). Para ele, o desgoverno Bolsonaro trata a Petrobrás de forma “criminosa”. “O que vai ser a Petrobrás em 30 anos, quando esse petróleo do pré-sal talvez entre em declínio? Onde ela colocou investimento?”, questiona.

“Os acionistas deveriam olhar a Petrobras e dizer: ‘Nossa, essa empresa está indo para o abismo’. Porque ela está puxando óleo do pré-sal, cada vez mais; não tem projeto de transição energética nenhum; vendeu o pé dela no mercado brasileiro, que era a BR Distribuidora; vendeu os gasodutos que davam a ela vantagem competitiva; vendeu refinarias e estão tentando vender, aceleradamente, mais três ou quatro, a preço de banana”, descreveu o senador, um dos responsáveis por elaborar a política energética a ser implementada por Luiz Inácio Lula da Silva, caso ele vença as eleições.

Na mesma quarta-feira da entrevista de Prates, no UOL, Lula atacou a sanha entreguista do desgoverno Bolsonaro. “É importante lembrar que no nosso governo descobrimos o pré-sal e não foi sorte, foi investimento em pesquisa. Foi um desafio que nos colocamos para fazer com que o Brasil fosse definitivamente autossuficiente”, ressaltou.

“E quando nós encontramos a mais importante jazida de petróleo do século 21, resolvemos destruir a Petrobrás, vender gasodutos, a BR, as refinarias e hoje um país que é autossuficiente em petróleo e poderia exportar derivados, não tem capacidade de refinar o que nós precisamos”, prosseguiu o ex-presidente. “O Brasil hoje só tem capacidade de refinar menos de 80% daquilo que consome, é uma vergonha.”

Lula também defendeu a importância da Petrobrás para a política industrial do país. “Quando nós aprovamos a indústria naval e as plataformas, que a Petrobrás tinha que contratar 65% de componente nacional, é porque a gente queria ter política industrial e desenvolver uma grande indústria nesse país, infelizmente tudo isso foi destruído.”

“Se eu ganhar a eleição, vamos fazer refinaria nesse país, esse país vai ser autossuficiente, vamos restabelecer os royalties, voltar 75% para educação, saúde e ciência e tecnologia e vamos fazer a Petrobrás ser, senão a primeira, a segunda maior empresa petroleira do mundo. Nós temos condições para isso”, declarou.

“Eu pretendo mudar a política de preços da Petrobrás”, anunciou ainda Lula. “Eu pretendo fazer com que os preços da Petrobrás sejam em função dos custos nacionais, dos gastos nacionais, porque nós produzimos em real, pagamos salário em real. Ou seja, essa história de PPI, de preço internacional, é para agradar aos acionistas em detrimento de 215 milhões de brasileiros. E a gente pode reduzir o preço sim.”

Comunicação FUP