Fugindo de Kobani: alívio e culpa

Relato de um refugiado curdo em meio ao desastre humanitário que ocorre na fronteira entre Síria e Turquia com expansão do Estado Islâmico

curdoMeu nome é Wasiq Mami e eu tenho 45 anos de idade. Eu sou de Kobani, mas consegui atravessar a fronteira para a Turquia. Nem todos tiveram tanta sorte. Eu vim até a fronteira oferecer pão e comida para os meus parentes no lado sírio, mas o Exército turco não nos deixa chegar perto das grades. Tudo o que eu peço é que eles me deixem passar essas sacolas de pão por cima das grades. Não são armas — é só pão.

Há milhares de pessoas abandonadas do lado da Síria e ninguém mais está vindo até aqui para perguntar como estão essas pessoas. Como elas estão conseguindo sobreviver sem comida, água e teto por tantos dias? Não há imprensa aqui, nem local nem internacional. Para onde foram todos os que desapareceram?

O Exército turco disse que depois de 9 de outubro ninguém mais poderia atravessar a fronteira para a Turquia. Agora há soldados protegendo a fronteira, evitando que qualquer um de nós do lado turco entregue comida para as pessoas que estão ali morrendo de fome. Agora, essas pessoas estão esperando, ou pela reabertura da fronteira ou pela morte — se não de fome, pelas mãos dos combatentes do EI (Estado Islâmico).

As únicas notícias que recebemos são quantos combatentes das Unidades de Proteção Popular curdas (YPG), organização armada que luta contra o governo sírio de Bashar al Assad, foram mortos hoje, ou a casa de quem foi destruída ou quem perdeu uma filha ou um filho na batalha. Nossas crianças vão se lembrar desses dias negros — se elas continuarem vivas.

“Eu me arrependo”

Eu gostaria de não ter cruzado a fronteira. Agora, me arrependo. Eu me sinto culpado quando a minha família aqui pode comer pão, mas a outra metade da minha família na Síria não pode. Eu tenho acesso ao mundo exterior, mas metade da minha família está agora presa naquela pequena faixa de terra. Dá pra ver daqui como é horrível viver naquela terra vazia.

Eles não podem voltar. Eles não podem simplesmente voltar para Kobani por causa dos enfrentamentos que estão acontecendo. Dá para ouvir daqui. O bombardeio constante. Olhe para o céu. Há sempre um rastro de fumaça.

Foi essa tensão que eu não consegui mais suportar. Eu não queria que minhas crianças passassem por isso todos os dias, então eu cedi. Eu finalmente fugi para a Turquia com a minha mulher e minhas crianças depois de acampar na fronteira por 12 dias. Foi uma experiência terrível.

Do lado de lá, nós não tínhamos barracas e dormíamos nos carros e caminhões nos quais alguns de nós tínhamos vindo. Mas não é nem um pouco menos terrível aqui. Agora nós nos preocupamos com os nossos irmãos do lado de lá. Nós tivemos mais de 50 vítimas desde que chegamos aqui. As pessoas estão morrendo de fome e os mais velhos estão sucumbindo à pressão de viver em um ambiente hostil. Três crianças morreram desde 9 de outubro em minas terrestres. Elas estavam apenas brincando e, acidentalmente, tropeçaram nas minas.

De um lado, o EI está ganhando forças e, do outro, nós somos horrivelmente ameaçados na Turquia. A Turquia só se preocupa com o medo de que nós, os curdos, possamos aderir a um movimento contra eles ou que possam perder seu poder contra o seu inimigo, o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão). Eles não parecem se importar com as perdas humanas. O que nós, civis, temos a ver com a política ou a guerra? Só o que nós queremos é segurança — um mundo seguro onde nossas crianças possam crescer. Ninguém vai falar por nós?

Onde está a ONU (Organização das Nações Unidas)? O que a Otan (aliança militar ocidental) está fazendo? Onde estão os Estados Unidos e suas promessas populares de promover os direitos humanos? Eles não têm influência alguma sore o governo turco?

Milhares de pessoas estão morrendo de fome, sem ajuda. Elas estão sem comida e suprimentos básicos. Elas estavam acostumadas a viver sem luz ou água, então são fortes e estão tentando superar essas dificuldades de alguma maneira.

Como refugiados na Turquia, nós recebemos alguma ajuda dos nossos irmãos curdos na Turquia. Nossa comunidade é nosso único apoio. Não há ONGs trabalhando perto da fronteira, porque o governo turco não está dando permissão para organizações independentes.

Nós estamos sendo sacrificados, da mesma maneira que já fomos sacrificados antes na história. Nós sabemos que, enquanto nossa juventude derrama seu sangue e é decapitada por terroristas de sangue frio, o mundo de sangue frio está assistindo em silêncio.

Operamundi

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