Filhos do califado: EI intensifica uso de crianças

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Vídeo do grupo com menino britânico chamou atenção no Ocidente para ‘exército mirim’ composto por crianças do EI, que conta também com crianças dos territórios dominados

O ano mal havia começado quando, no dia 3 de janeiro, um domingo, o Estado Islâmico (EI) divulgou um vídeo apresentado por um soldado com sotaque britânico mostrando a execução de cinco homens acusados de espionagem. Até aí, nada de novo: em 2015 foram várias as aparições de Jihadi John”, como foi apelidado pela mídia do Reino Unido o britânico que protagonizou várias execuções em nome do EI. A novidade para 2016 estava guardada no fim da gravação: um menino trajado em uma mini versão do uniforme militar do grupo fazia ameaças em inglês aos “não-crentes” de todas as partes do mundo.

Em pouco tempo o pequeno ganhou o apelido de “Jihadi Junior” na mídia britânica e sua identidade foi descoberta quando seus avós decidiram reconhecer publicamente o neto. O “mínis soldados” se chama Isa Dare e tem apenas 4 anos de idade. Isa é uma das formas em árabe de se referir a Jesus. Nascido no Reino Unido em uma família cristã de origem nigeriana, o garoto foi levado à Síria pela mãe Grace ‘Khadija’ Dare, em 2014, onde um dos soldados do EI à esperava para o casamento.

Um exército mirim

Isa é apenas um no batalhão de meninos e meninas nas mãos do grupo. É difícil precisar quantos são, mas dados divulgados pela polícia britânica na última terça-feira (12/01) mostram que somente o Reino Unido forneceu 56 jovens mulheres e garotas ao longo do último ano para o EI. O recrutamento de famílias inteiras é apenas um dos métodos adotados pelo grupo para aumentar seu exército infantil.

“Estamos profundamente preocupados com o número de garotas e de famílias inteiras viajando para a Síria. Elas desconhecem os perigos que enfrentarão ao chegar lá e a realidade de se viver em um país destruído pela guerra”, disse Helen Ball, coordenadora das políticas de prevenção ao terrorismo no Reino Unido. Um dos casos mais emblemáticos no país durante o último ano foi o de três irmãs que viajaram juntas à Síria em junho, levando com elas um total de nove crianças.

Uma vez em território sírio, o destino da maioria desses meninos será o envolvimento direto nas ações terroristas. Ativistas do grupo “Raqqa is Being Slaughtered Silently” (“Raqqa está sendo massacrada silenciosamente”), que mantém um site para denunciar o banho de sangue que vem ocorrendo na cidade, um dos centros de operação do EI na Síria, sugerem que 90% dos meninos estrangeiros acima dos sete anos vai para campos de treinamento logo após a chegada nos territórios controlados pelo EI. Informações do relatório do conselho de segurança da ONU divulgado em junho de 2015 dão conta de que apenas em Raqqa existem três campos de treinamento para crianças.

Crianças vindas do Ocidente, como é o caso de Isa, ganham mais repercussão na mídia internacional, mas são apenas a ponta de um iceberg que vai muito além do aliciamento de famílias no exterior, como é o caso do menino britânico. Nas filas dos exércitos mirins há ainda voluntários e meninos oriundos dos orfanatos controlados pelo grupo.

Apenas no primeiro semestre de 2015, mais de 1.100 garotos menores de 16 anos foram aliciados para fazer parte dos centros de treinamento para crianças mantidos pelo grupo, estima o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, organização não governamental que tem documentado as atrocidades cometidas no país desde o início do conflito. A organização calcula que, durante o mesmo período, houve cerca de 50 baixas entre os soldados mirins.

“Onde o EI controla o território, não há nada que possa ser feito para evitar que eles explorem as crianças. Temos visto eles usando crianças estrangeiras, crianças da região, reféns”, analisa John Horgan, pesquisador da Universidade da Georgia, nos Estados Unidos, que passou os últimos três anos estudando o envolvimento de crianças em grupos terroristas de vários países do mundo. Para o pesquisador, o grupo sobressai mesmo quando comparado a outras organizações terroristas, especialmente por envolver as crianças desde muito cedo.

A nova geração do terror

Diferentes vídeos divulgados pelo Estado Islâmico dão uma vaga ideia sobre a vida dessas crianças e adolescentes nos territórios controlados. Em um vídeo, é possível ver garotos na faixa dos 10 aos 12 anos recebendo treinamento militar. Em outro, publicado em dezembro e intitulado “Para os filhos dos judeus”, outro grupo de adolescentes, armas em punho, assassina seis prisioneiros a sangue frio. As imagens são explícitas e a produção do vídeo é cinematográfica: tomadas de vários ângulos mostram detalhes dos últimos segundos de vida dos assassinados ao espectador.

Dentre as macabras peças publicitárias do grupo há ainda os cartões com fotos dos jovens soldados publicados como uma celebração quando um deles morre em combate ou atuando como homem-bomba.

Quando vistas, essas ações chocam o público. Porém, muito mais que propaganda para reforçar a imagem de impiedosos assassinos conquistada pelo grupo, elas são, de fato, uma maneira do EI manter-se vivo. Especialistas acreditam que o doutrinamento desde cedo, assim como o envolvimento de crianças nas atividades do grupo é uma forma de garantir a próxima geração de terroristas. É, ao mesmo tempo, um processo de dessensibilização desses meninos e meninas para a violência e de desenvolvimento de habilidades específicas para o combate.

“O uso de crianças é ilustrativo de uma estratégia de longo prazo”, fala Josh Boyter, porta-voz para a Iniciativa contra as Crianças-soldado Roméo Dallaire, no Canadá. John Horgan completa em tom de alerta: “Essas crianças que hoje são exploradas pelo EI serão os terroristas de amanhã e ninguém vai pensar duas vezes antes de matá-los quando forem adultos”.