“Eu só pensava: eu, ele e a faca”, diz servidora vítima de sequestrador

A postura de Jurema da Silva, refém de Robson Martins, é avaliada pela Casa Militar do GDF

20141105063607908980uO comportamento da servidora pública Jurema Assunção da Silva, 28 anos, enquanto esteve em poder de Robson Martins da Silva, 33, chamou a atenção de quem acompanhou o episódio nos arredores do Palácio do Buriti na tarde de ontem. A aparente tranquilidade da moça foi fundamental para o desfecho da história. Sem alterar o tom de voz, ela pedia ao sequestrador para que ficasse calmo e evitou fazer movimentos rápidos para não assustá-lo. Durante quase toda a hora em que esteve com uma faca apontada para o pescoço, a bibliotecária só pensava em obedecer às ordens do homem para evitar ser ferida ou até morta.

O diretor de Segurança da Casa Militar do GDF, tenente-coronel Alexandre Silva, acompanhou Jurema desde a abordagem em frente ao TCDF até a saída do Hospital Santa Helena, na Asa Norte, onde foi atendida. Ele afirmou que a servidora pública estava tranquila. “Os tios chegaram ao hospital bastante preocupados e só se acalmaram quando a viram. Ela estava bem, mas me falou que não queria contato com ninguém que não fosse da família”, relatou. O oficial reconheceu que a postura de Jurema durante toda a situação contribuiu para que tudo acabasse bem. “(Ela) Pedia para ele se entregar e largar a faca, pois ninguém faria mal a ele. A conduta dela foi favorável para a integridade dos dois”, elogiou.

“Vou continuar minha vida”

Depois do dia mais tenso de sua vida, a servidora pública Jurema da Silva Assunção, 28 anos, abriu as portas da casa, em Samambaia, para o Correio Braziliense. Vestida de branco e com os cabelos soltos e molhados, ela falou sobre os momentos de medo que viveu sob o poder do sequestrador. Dois pequenos arranhões — no braço direito e na mão esquerda da jovem — indicavam as horas de tensão passadas pela bibliotecária. A serenidade de Jurema — exposta o tempo todo pela fé da mulher — ajudou não só a polícia, mas fez com que o criminoso se mantivesse calmo diante das circunstâncias. A filha mais nova da dona de casa Maria Nascimento, 52, mostrou tranquilidade e revelou um gênio que a mãe já conhecia. Religiosa, falou de Deus para o sequestrador.

Como você chegou até o local?
Cheguei de carro e estacionei naquele lugar, como faço todos os dias. Aguardava o transfer para o Tribunal de Justiça e estava na parada há uns dois ou três minutos. Havia outras duas pessoas, um homem e uma mulher. Quando percebi, o homem já estava muito próximo de mim. As outras pessoas conseguiram se levantar e foram para trás do ponto de ônibus. Quando notei que ele vinha em minha direção, também tentei levantar e fugir, mas ele me segurou pelo cabelo. A princípio, achei que fosse um assalto.

Como ele reagiu?
No início, eu não vi a faca. Só depois que ele me deu uma gravata no pescoço é que eu fui perceber. Tentei tirar a faca da mão dele, mas me machuquei no dedo. Eu falava para ele ficar tranquilo e que eu poderia ajudá-lo.

Como foram os momentos seguintes?
Ele pediu para que eu solicitasse aos policiais um revólver ou uma outra faca para ele se matar. Ele também pedia muito a presença da imprensa, porque dizia que os policiais queriam matá-lo. Eu comecei a conversar com ele dizendo que um advogado iria ajudá-lo. Chegou um homem e se apresentou com a carteira da OAB, mas ele não quis o apoio.

Quais eram as reivindicações dele?
Ele falava a todo momento que os policiais estavam atrás dele e que iam tirar a vida dele, assim como fizeram com a família. Ele também falava que ia se matar. Eu disse assim: ‘Quem deu a sua vida para você não foi Deus? Você não acha que só Ele pode tirá-la?’. Ele respondeu que já tinha tido essa visão e que isso iria acontecer.

Como você reagiu?
No início, eu fiquei preocupada, mas ele falou que não ia me machucar. Foi aí que eu comecei a ficar tranquila. Ele pedia para eu não o deixar nas mãos dos policiais e falava que queria a presença da Dilma (Rousseff) e da imprensa. (Isa Stacciarini)

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