As demandas do setor de petróleo e gás reviveram a indústria naval

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petroleoA relação íntima entre o desenvolvimento da indústria naval e a demanda crescente do setor de petróleo e gás foi um dos temas do 48º Fórum Brasilianas.org, realizado na última quinta-feira, 14 de agosto, em São Paulo. Na ocasião, diversos profissionais do setor se reuniram para debater as ações bem sucedidas e apontar as mudanças de rumo necessárias para que a indústria continue a crescer no País.

Nos últimos anos, a revitalização da indústria naval brasileira foi um dos projetos mais bem sucedidos do Governo Federal. Com a descoberta de petróleo no pré-sal e de novos poços na Bacia de Campos, o setor passou a desempenhar um papel de destaque na economia nacional.

Para atender as demandas da Petrobras, a indústria deu um salto. No ano 2000, empregava pouco mais de mil profissionais. Em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entendeu a importância que seus atores teriam no desenvolvimento do país e começou a estruturar uma política de revitalização. Ainda naquele ano, o setor começou a dar mostras de recuperação e chegou a quase 7,5 mil empregos diretos. Hoje já são 82 mil, com estimativa de chegar a 101 mil até 2017.

Estamos falando de um segmento que atingiu seu auge na década de 80, quando empregava cerca de 40 mil trabalhadores, e que nos anos do governo Collor definhou até quase desaparecer. Isso causou uma série de problemas que perduram até hoje, como o êxodo da mão de obra – altamente especializada – para outras indústrias. Além disso, até 2003, a área de construção naval e offshore tinha apenas dois estaleiros ativos – e um terceiro desativado.

Portanto, a recuperação da indústria passava, necessariamente, pela formação da mão de obra e pela construção de novos estaleiros – e revitalização dos que já existiam. Para viabilizar essa retomada, o Governo Federal adotou políticas de proteção ao conteúdo local e desenvolveu, junto com a Petrobras, o Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural (Prominp).

De acordo com Paulo Alonso, coordenador do programa, desde que foi criado, em 2006, o Promimp já qualificou 97 mil técnicos – com expectativa de formar outros 17 mil até o final de 2015. Além disso, hoje, o Brasil tem dez estaleiros e mais quatro em construção.

Tudo isso para atender uma demanda que vai crescer muito até 2020. Paulo Alonso estima que, até lá, apenas a Petrobras tenha necessidade de mais 88 navios petroleiros, 198 barcos de apoio, 38 unidades de produção e 28 sondas de perfuração. O vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ), Cesar Prata, vai além, e garante que, nos próximos dez anos, o Brasil vai precisar de mil embarcações.

Atualmente, o País está apostando na parceria com fabricantes estrangeiros, que estão se associando com empresas nacionais ou investindo em suas próprias fábricas no Brasil. Para o executivo da Petrobras a abordagem tem sido uma boa solução para dar um salto tecnológico no curto prazo, mas “para inovar no longo prazo, só com a associação entre a academia e a indústria”.

Hoje, o conteúdo local nas embarcações nacionais é de 65% (na média). “Então, há 35% de oportunidade para fornecedores estrangeiros e, eles vindo ao Brasil, nós fortalecemos ainda mais o conteúdo local”, afirma Paulo Alonso. “Ao contrário do que dizem os jornais, a Petrobras não luta contra a política de conteúdo local, ela cumpre a política de conteúdo local e está fortalecendo a cadeia de fornecedores”, complementa.

Para Franco Papini, vice-presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Construção e Preparação Naval e Offshore (Sinaval), a política de conteúdo local é fundamental. Ele destaca que, além dos 82 mil empregos diretos da indústria, a cadeia produtiva gera cinco vezes esse número em empregos indiretos e para a cadeia de fornecedores a quantidade é 20 vezes maior. “Então, a indústria deve ter de 2 a 2,5 milhões de trabalhadores”.

De acordo com Papini, o modelo de financiamento para embarcações é adequado e tem “taxas maravilhosas internacionalmente”, mas é preciso que haja perenidade nas encomendas. “A gente tem uma demanda, mas não é garantido que ela atraia o investidor estrangeiro. O Custo Brasil desencoraja”, afirma.

O Custo Brasil, e seus impactos na política de conteúdo local, foram um dos assuntos mais debatidos no Fórum. Segundo Paulo Alonso, da Petrobras, o Promimp entrevistou 184 estrangeiras para servirem como fornecedoras da indústria naval e offshore. Apesar do balanço positivo – 112 estão em processo de desenvolvimento –, é necessário observar que 72 empresas voltaram pra casa sem fazer negócio. “Esses analisaram a localidade, custo de mão de obra, custo de matéria prima, logística, integração da cadeia de suprimento e escoamento da produção e me disseram ‘Paulo, seu país é caro!’”.

Os profissionais do setor reunidos no Fórum veem com bons olhos os investimentos na indústria, mas pedem ajustes de regras para que essa retomada não seja mais um “voo de galinha”.  Eles pedem mudanças na legislação, que se crie um cenário de tributos mais favorável para os fornecedores. “O problema do Brasil não é a capacidade, não é a competência, é o preço”, finaliza Cesar Prata, da ABIMAQ.

GGN