De olho no turismo, Cuba privatiza aeroportos

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O objetivo é dobrar número de passageiros para marca de 10 milhões ao ano. A ilha caribenha atrai cada vez mais viajantes de todo mundo

Por Andreas Knobloch, de Havana

De olho no rápido crescimento do número de turistas e um pouco antes do início dos voos regulares entre Estados Unidos e Cuba, o governo cubano anunciou a privatização de um aeroporto em agosto passado. O terminal internacional José Martí, em Havana, será operado em breve pela empresa francesa Aéroports de Paris (ADP). Já a expansão e modernização ficarão a cargo da construtora francesa Bouygues Bâtiment International.

O anúncio foi feito pelo vice-ministro dos Transportes de Cuba, Eduardo Rodríguez, em Havana. A francesa ADP administra – além do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris – outros 31 terminais espalhados pelo mundo. Por sua vez, a Bouygues participou de vários outros grandes projetos, como a construção do Stade de France, do Eurotúnel e do aeroporto de Hong Kong.

O projeto em Cuba, que deve ser estendido ao aeroporto regional de San Antonio de los Baños, a oeste de Havana, “prevê o financiamento e execução de medidas imediatas para melhorar a qualidade dos serviços, bem como investimentos de médio e longo prazo de acordo com o crescimento estimado de passageiros”, afirmou a televisão estatal cubana.

Novas parcerias não são descartadas
Após a expansão, o aeroporto de Havana deverá receber mais de 10 milhões de passageiros por ano, afirmou a Aéroports de Paris. Em 2015, 3,5 milhões usaram o terminal, e neste ano os números tendem a ser ainda maiores. Mais da metade dos turistas estrangeiros que visita o país entra pelo aeroporto da capital.

Até agora, o governo cubano havia concedido licenças de exploração para empresas estrangeiras apenas no setor hoteleiro. Há anos que empresas europeias e canadenses estão ativas na ilha. Em junho, depois de mais de 50 anos, uma rede americana – a Starwoods Hotels – abriu uma unidade do Four Points by Sheraton em Cuba.

O anúncio da privatização do aeroporto da capital é apenas o início de novas concessões para empresas estrangeiras na área de infraestrutura. “Transporte e infraestrutura são elementos estratégicos e prioritários na economia e sociedade cubana”, declarou o Ministério do Transporte do país. E acrescentou: “Parcerias como as descritas acima serão estimuladas também para outros terminais no país”.

Turismo tem boom, mas infraestrutura não acompanha
Com a concessão, o governo em Havana reage aos diversos desafios de infraestrutura da ilha por causa do crescente número de visitantes. São esperados quase 4 milhões de turistas até o final deste ano. No primeiro semestre de 2016, a quantidade de viajantes em comparação ao mesmo período do ano anterior cresceu 12%.

O verdadeiro boom, porém, ainda está por vir: os americanos já estão liberados para viajar a Cuba, apesar de ainda serem obrigados a preencher um dos pré-requisitos das 12 categorias para a autorização das viagens – como desportivas, culturais, universitárias ou religiosas. As restrições para viagens individuais deverão ser em breve retiradas pelo Congresso.

Além disso, após mais de 50 anos de interrupção, voos regulares voltarão a fazer a rota entre EUA e Cuba no final de agosto. O governo americano calcula até 155 voos por semana. As licenças para as ligações ainda não foram emitidas, até porque o aeroporto de Havana já atingiu sua capacidade máxima. São frequentes as reclamações de usuários sobre serviços ruins, problemas na entrega de bagagens e as longas esperas.

Planos para a modernização e expansão do terminal já existem, porém, há muito tempo. No início do ano passado, a empreiteira brasileira Odebrecht, que já participou da ampliação do porto de Mariel, foi contratada por 207 milhões de dólares para a expansão de um terminal do aeroporto de Havana. Ainda não está claro em que medida esse projeto será afetado após a concessão aos franceses.

França: parceira frequente de negócios
Não é coincidência que empresas francesas tenham obtido a concessão do aeroporto de Havana. “Cuba é um país-chave na região, com o qual desejamos uma cooperação estreita”, anunciou já no início de 2015 o chanceler francês, Laurent Fabius. Por sua vez, em maio do ano passado, o presidente François Hollande foi o primeiro líder da Europa Ocidental a visitar Havana em 29 anos. Em fevereiro, o presidente cubano, Raúl Castro, retribuiu a visita em Paris.

Enquanto outros países europeus, como a Alemanha, agem de forma contida na ilha, uma série de empresas francesas já está ativa há anos em Cuba: ao lado da Bouygues, as empresas de energia Total e Alstom, a Alcatel-Lucent (telecomunicações), a Pernod-Ricard (coproprietária da marca de rum Havana Club), a Accor (rede hoteleira) e a companhia aérea Air France.

Tradicionalmente, a França tem boas relações com Cuba, sendo que elas tiveram suas origens na oposição do ex-presidente Charles de Gaulle às sanções econômicas americanas. Desde então, em contraposição a Washington, os gaulistas nas fileiras dos conservadores franceses apoiam uma política cubana independente.

Além disso, há ligações culturais. A sucursal cubana do instituto cultural francês Alliance Française é uma das maiores do mundo. A França também desempenhou um papel importante na conclusão bem-sucedida das negociações da dívida de Cuba com o Clube de Paris. Agora, a ofensiva diplomática de Hollande começa a render frutos.