Crise na Cantareira atrasa investimentos da indústria em SP

cantareiraNo fim do verão, quando ficou claro que as águas de março dificilmente levariam o Sistema Cantareira a níveis normais para a época do ano, o empresário Maurício Colin já imaginou que o pior estaria por vir.

À frente da Daicast, uma indústria de fundição em Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, Colin decidiu já fechar um contrato com uma fornecedora de caminhões-pipa. Seu processo produtivo depende do fornecimento de água para resfriamento das máquinas, caso contrário, não há atividade na fábrica.

O empresário parecia estar antevendo o cenário de Guarulhos hoje. “Já há racionamento em bairros alternados. Estamos muito próximos de um racionamento em todo a cidade”, lamenta. A Daicast usa, em média, 3,2 mil metros cúbicos (litros) de água por mês. Com a redução de vazão em 400 litros por segundo, sua iniciativa garante a produção – mas custa caro.

São cerca de R$ 40 mil mensais investidos no caminhão-pipa que a empresa recebe diariamente – isso por que o contrato foi fechado no começo do ano, quando ainda não havia uma crise de fato instalada. “Já tem colegas do setor com dificuldades para conseguir caminhões-pipa por aqui”, conta.

A falta de fornecimento é a gota d’água para a indústria, que vive um 2014 difícil – a desaceleração da economia, a queda na produção industrial, a perda de dias úteis com a Copa do Mundo e as expectativas eleitorais que já vinham tirando o sono dos industriais. A escassez de água era o que faltava para Colin suspender os investimentos em ampliação na fábrica. “Tive de segurar isso e absorver o custo do fornecimento de água, não está dando para aumentar os preços”, diz.

Segundo levantamento recente do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (SP), a possibilidade de falta de água preocupa 67% das empresas – metade das de grande porte teria de parar a produção diante de um corte no fornecimento.

Rafael Cervone, presidente Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), lembra que a suspensão da análise dos pedidos de aumento de captação de água também tem segurado os investimentos. “Todos os setores são atingidos, entretanto, alguns são mais impactados, como os de alimentos, bebidas, químico, têxtil e papel/celulose, entre outros”, comenta.

Falta de água já era prevista

Não foi só Colin que já esperava um problema com o fornecimento. Cerca de 30% de toda a água tratada se perde em problemas infraestruturais com a manutenção. “O que mais me preocupa não é a falta de água hoje, mas a falta de obras de melhoria. Só ouvimos essa história de que não haverá racionamento, mas ninguém fala de investimento”, critica. “E se não chover no final do ano, de novo?”

Cervone, do Ciesp, explica que essa falta de cuidado dos órgãos responsáveis – entre eles, Sabesp, Departamento de Águas e Energia Elétrica e Agência Nacional de Águas – não é novidade.

“A tendência está sendo anunciada há pelo menso 10 anos”, explica. “A falta de gestão dos recursos hídricos e a falta de investimentos do setor público agravaram muito a situação.”

Comércio e serviços sofrem impacto menor

No setor de serviços, a preocupação está latente, mas não se converte em ações muito proativas das empresas. Entre os salões de beleza, por exemplo, uma circular ressaltou a importância da economia de água – e a possibilidade de ação para por aí. “Sinceramente, não há providências que possamos tomar. Não tem como mudar essa realidade”, diz Marcos Tadeu Meciano, presidente do Sindicato dos Institutos de Beleza e Cabeleireiros de Senhoras do Estado de São Paulo (Sindibeleza). São 50 mil salões de beleza formais em São Paulo.

A Associação Brasileira dos Bares e Restaurantes (Abrasel) fez uma parceria com a Sabesp para distribuição de material informativo. “Estamos em uma campanha educacional para colocar filtro nas torneiras, reduzir o fluxo das descargas, otimizar os procedimentos de lavagem de louça e cozinha”, conta Percival Maricato, presidente da divisão paulista da Abrasel.

“O assunto é sério, as autoridades têm de tomar alguma providência, não pode faltar água em São Paulo.” Por ora, Maricato não tem conhecimento de estabelecimentos que tenham adotado os caminhões-pipa nem outras alternativas de fornecimento.

José Goldemberg, presidente do Conselho de Sustentabilidade da Fecomercio-SP explica que de fato há pouco a ser feito, a não ser economizar. “Nós temos promovido uma discussão intensa, fizemos vários eventos para discutir as conseqüências para o comércio”, diz. “Como a água tem sido abundante e barata, nunca se preocuparam com o uso racional. Agora é preciso mudar essa cultura.”

IG

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