Cargo público não impede preconceito, diz Zuliana Araya, primeira vereadora trans do Chile

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“Somente depois de 17 meses no cargo consegui o direito de usar o banheiro feminino. Antes tinha que aguentar piadinhas quase todos os dias”, afirma

transFoi no dia 29 de julho. Confusão em frente à prefeitura de Valparaíso, principal cidade portuária chilena. Um grupo de nove homens cerca as vereadoras Paula Quintana e Zuliana Araya. Gritos, insultos, ameaças de agressão. Zuliana é a vítima preferida, por sua condição: ela é a primeira transexual a exercer um cargo público no país. “É só pra isso que você veio aqui, ‘chupacabra’”, dizia um dos acossadores, enquanto agarrava os genitais por cima da calça. “Essa daí”, dizia outro, intimidando Zuliana, “comia a secretária, agora come essa outra aqui”, e quase agarra o braço de Paula, que consegue se esquivar, enquanto as ofensas continuam, impublicáveis.

Zuliana responde: “Estou aqui por mandato popular, vocês e seu chefe não são capazes de respeitar isso”. Ambas haviam acabado de protocolar uma queixa contra o prefeito Jorge Castro (da UDI, de direita), por gerros na administração dos recursos para a reparação das áreas afetadas pelo mega incêndio ocorrido em abril deste ano. Na resposta que deu aos agressores, ela mostrou que sabia quem eram aqueles homens. “Alguns são jagunços do prefeito, outros são funcionários do Conselho Municipal, assessores de vereadores da direita. Trabalhamos no mesmo edifício, nos vemos todos os dias. No dia seguinte, cruzam comigo num corredor e ficam olhando, é assustador”.

Zuliana sabia que ser uma autoridade não a livraria de enfrentar preconceito e violência, como qualquer transexual de Valparaíso. Nasceu numa família com nove irmãos, uma vida nômade pelos morros mais pobres da cidade. A miséria familiar a levou às ruas, a necessidade a empurrou às da zona de prostituição. “Exerci o comércio sexual por 33 anos, não renego minha origem, e não sei se em outro país alguém como eu pode chegar à política. No Chile, sou a primeira”, orgulha-se.

Sindicato Transgênero de Valparaíso

A vida política de Zuliana Araya começou por conta da violência que sofria, junto com as companheiras. “Quem é trans sabe bem que tortura no Chile acabou da porta da delegacia pra fora. Quando você é presa está sujeita a tudo, ser amarrada num poste ou jogada nua no calabouço. Não precisa de motivo, se é por nada, eles alegam ´atentado ao pudor´, por você estar vestida como mulher”.

Para enfrentar esses e outros tipos de violência, Zuliana reuniu algumas companheiras que, juntas, criaram em 2001 o STV (Sindicato Transgênero de Valparaíso), organização que deu maior visibilidade aos transexuais e o anseio deles por, pelo menos, conquistar o respeito da sociedade. O STV conseguiu exatamente isso, começando sem muito poder, mas ganhando espaço através de ações comunitárias e festas regionais. “Durante as Festas Pátrias, em setembro, organizamos a Quermesse dos Travestis, a mais concorrida da cidade, e isso ajudou a que fôssemos reconhecidas. Isso ajuda muito na questão da identidade”.

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A identidade é um dos flancos por onde as humilhações sofridas pararam de acontecer, com o trabalho do STV. “Você era obrigada a ir vestida como homem e no tribunal precisava usar o nome de homem. Se usasse o nome que escolheu, era ridicularizada em plena corte. Já não é tão assim, os promotores sabem o nome que você usa. Agora eles respeitam isso”.

Mas a identidade voltaria a ser um problema nos primeiros desafios eleitorais. O sucesso das quermesses e das demais ações do STV lhe trouxe prestígio, e ela passou a ser procurada por outros tipos de minorias: homossexuais em geral, deficientes físicos, imigrantes. Uma popularidade que a empurrou a ser candidata ao Conselho Municipal pela primeira vez em 2008, mas sem sucesso, porque seu público não a encontrou na cédula de votação. “Ali dizia ´Enrique Araya´, e as pessoas me conhecem por Zuliana, ainda assim, tive mais de 2 mil votos, mas não foi suficiente”. Em 2012, com a cédula apresentando-a como Zuliana Araya, ela teve 3,7 mil votos, a terceira melhor votação – é preciso estar entre as dez melhores votações para ser eleito.

Como vereadora, o preconceito não acabou: apenas mudou de estilo. As agressões sofridas na prefeitura em julho passado foram apenas um exemplo de uma situação que ela enfrenta cotidianamente. “Somente agora em junho, depois de 17 meses no cargo, eu consegui o direito de usar o banheiro feminino. Antes tinha que aguentar piadinhas quase todos os dias: ´que banheiro você vai usar aqui?´, e diziam rindo”.

Mas ela diz que vale a pena, porque o cargo deu ainda mais visibilidade à luta das transgênero na cidade. Tanto que já é cogitada como futura candidata a deputada. Ela, no entanto, rejeita a ideia, pois, diz, só é possível dar um salto a outra instância quando puder acabar com a discriminação em Valparaíso. “A gente trabalha no comércio sexual por necessidade, mas as meninas com mais idade precisam de outros trabalhos, e elas podem, mas precisam de uma chance. A igualdade seria uma mulher trans poder ser professora ou advogada sem ser ofendida”.

Lei Antidiscriminação

Com relação ao combate à violência homofóbica, Zuliana diz que ainda falta muito, e que a recente Lei Antidiscriminação não ajuda muito em às transexuais. “Alguns promotores aceitam o argumento de que se você trabalha com comércio sexual não pode reclamar se é discriminada”.

Pior que isso, a discriminação verbal é apenas a mais leve das agressões a que estão sujeitas. Existem também agressões físicas e sexuais, às vezes exercidas pela polícia ou por grupos neonazistas. A Lei Antidiscriminação chilena foi batizada como Lei Zamudio, depois que um quarteto de neonazistas assassinou o jovem Daniel Zamudio, em março de 2012. “Por medo da lei, esses grupos passaram a atacar mais as trans que a outros LGBT, porque a possibilidade de sair impune é maior”, reclama a vereadora.

Os números da violência contra as transexuais em Valparaíso, a terceira maior cidade do Chile (com pouco menos de 2 milhões de habitantes), dão uma ideia da dimensão do problema a nível nacional. Segundo um parecer da Secretaria Regional de Segurança Pública da província de Valparaíso, a cidade portuária registra entre 30 e 50 casos por ano de agressões coletivas contra travestis, com ao menos um deles terminando em morte da vítima – foram registrados 16 falecimentos entre 2002 e 2013.

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