“Banco de todos os regimes”, queda do Espírito Santo afunda família tradicional em Portugal

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bancoNem o craque Cristiano Ronaldo posando de garoto-propaganda nem o invejável posto de primeiro banco a voltar aos mercados durante a crise econômica em Portugal sem a ajuda do Estado foram suficientes para evitar a queda, agora, do Banco Espírito Santo (BES), imerso em suspeitas de crimes econômicos e gestão duvidosa. O BES era o terceiro maior banco privado português e carro-chefe de uma das dinastias mais poderosas do país.

Em sequência das investigações por suspeitas de fraude, abuso de confiança e lavagem de dinheiro envolvendo Ricardo Salgado Espírito Santo, afastado no final de junho do cargo de presidente-executivo da instituição, as ações caíram tanto que o banco, agora dividido em dois, acabou sendo temporariamente removido da Bolsa de Lisboa. Salgado está probido de sair do país enquanto decorrem as investigações.

Com um rombo nas contas superior a € 6 bilhões (cerca de R$ 18 bilhões), o Grupo Espírito Santo (GES) beira colapsar o império familiar construído desde o século XIX e que abrange bancos comerciais e de investimento em diversos países, seguros e participações em empresas estratégicas como Portugal Telecom (fundida com a brasileira Oi) e a gigante energética EDP. Algumas holdings do grupo já haviam solicitado proteção contra credores, mecanismo de insolvência controlada sob proteção da Justiça.

No último domingo (03/08), o presidente do Banco de Portugal (o equivalente ao Banco Central), Carlos Costa, anunciou que pedirá empréstimo a fundo europeu para salvar o Espírito Santo, que foi dividido em dois: um, com os ativos tóxicos, e outro, com os de boa qualidade.

O “banco de todos os regimes”

Em 2010, Ricardo Salgado declarou sobre o enriquecimento da família durante o Estado Novo Português (1933-1974): “O BES é um banco de todos os regimes”. É verdade: o grupo remonta a 1850, tendo passado pela monarquia, a ditadura e a democracia. Ficou notória a amizade entre Ricardo Espírito Santo (avô de Ricardo Salgado) e o ditador Salazar. Aos domingos, o banqueiro o visitava para tratar de negócios, nomeações, ações diplomáticas e compra de obras de arte, segundo relata o pesquisador e jornalista Pedro Castro Jorge em “Salazar e os milionários” e “O ataque aos milionários”. Ao morrer, o banqueiro deixou ao ditador uma casa no Estoril e um quadro do flamengo Quentin Metsys. A casa não foi aceita.

A relação privilegiada de algumas famílias abastadas com membros do governo pôde notar-se na alta concentração financeira do país. Nos anos 1970, final da ditadura, dez famílias controlavam 50% da riqueza de Portugal. Com a queda do regime e durante a fase mais radical após a Revolução dos Cravos, diversos empresários foram presos (entre eles, membros da família Espírito Santo) e o setor bancário, estatizado. Um comentário deixado por sindicalistas no livro de honra do BES enfatizava “o dia (…) em que a banca foi restituída aos seus legítimos donos – o povo português”. Mas a privatização viria em 1992, anos depois do retorno da família aos negócios no país.

Parte do segredo do longevo poder familiar vem da inserção de quadros das empresas em postos-chave dos governos. “Houve sempre pessoas do BES a ocupar cargos em diferentes governos, algumas das quais voltavam em seguida para o BES”, disseram a Opera Mundi Maria João Babo e Maria João Gago, autoras de “O último banqueiro”, sobre a vida de Ricardo Salgado, que ficou 22 anos à frente do BES.

 [Salgado: “O BES é um banco de todos os regimes”]

Há exemplos do lado conservador e socialista: o conservador José Manuel Durão Barroso, que este ano deixou a presidência da Comissão Europeia, havia sido consultor do BES antes de se tornar primeiro ministro de Portugal (2002-2004). Manuel Pinho foi ministro do socialista José Sócrates após passar pelos quadros administrativos do BES.

Outros nomes a circular entre empresas do GES e cargos políticos foram António Mexia, hoje presidente da EDP e antigo ministro de Obras Públicas, e Miguel Frasquilho, deputado do governante PSD (centro-direita).

Outros casos

Desde 2007 diversos bancos tem sido alvo de investigações por crimes econômicos envolvendo offshores e paraísos fiscais: o Millenium BCP, o maior banco privado em Portugal; os  pequenos Banco Português de Negócios (BPN) e Banco Privado Português (BPP) – ambos acabariam por serem dissolvidos. Agora, é a vez do BES.

Apesar do pacote de austeridade e regulação financeira adotado pela Troika, medidas eficazes para frear crimes econômicos nunca saíram da gaveta: o fim dos offshores, de paraísos fiscais e de produtos altamente especulativos, além da separação entre bancos de investimento e bancos comerciais. Vale lembrar que em 2013 o Banco Central Europeu ajudou a reforçar a liquidez do setor bancário português em 50 bilhões de euros.