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Atividade mineradora em região de Honduras deixou rastro de doenças, destruição ambiental e desemprego

Produção agrícola foi afetada com extração do ouro, caindo 70% desde início das atividades mineradoras. 19 das 21 fontes de água secaram

mineradora“São 14 anos de luta e de exigir justiça de um Estado indiferente. A transnacional mineradora Goldcorp Inc. deve ser responsabilizada pelos danos que nos causou, por ter rompido o tecido social de nossas comunidades, por ter robado a paz e a dignidade de nosso povo, pelo estado de desolação e abandono no qual vivemos”.

O desabafo é de Carlos Amador, membro do Comitê Ambiental do Valle de Siria. Sua voz se soma às de milhares de moradores que ainda se atrevem a viver nesse canto abandonado do departamento de Francisco Morazán, em Honduras, e que se negam a esquecer a tragédia humana e ambiental que tiveram de vivenciar.

O Valle de Siria é formado pelos municípios de El Porvenir, San Ignacio e Cedros. O processo de exploração começou em meados da década de 80 com a Fisher Watt Gold Compan), mas foi em 1995 que a empresa Sociedad Minerales Entre Mares Honduras S.A., subsidiária do colosso canadense Goldcorp Inc, solicitou permissão de exploração a céu aberto – à base de cianureto – da mina de San Martín.

A permissão foi outorgada em janeiro do ano 2000 para uma área de 23 mil hectares e o processo de exploração durou até 2008, quando a empresa começou a etapa de encerramento e pós-encerramento da exploração, em meio a um verdadeiro êxodo juvenil e ao crescente protesto das comunidades que denunciavam graves efeitos socioambientais.

Minas a céu aberto

Quando se aplica o método da mineração a céu aberto, a primeira coisa que se faz é acabar com todas as árvores e tudo o que é vegetação da área a ser explorada. Depois, joga-se fora a camada fértil da terra de onde se extrai o ouro e, seguidamente, cavam-se crateras gigantescas de cerca de 100 hectares e até 200 metros de profundidade, usando cargas explosivas e máquinas.

Uma vez que se extraem as pedras do subsolo, elas são transportadas por enormes caminhões para uma planta de britagem, onde são transformadas em pó e levadas para áreas de lixiviação (lavagem). Finalmente, são adicionadas grandes quantidades de água cianetada para separar as partículas de ouro (relatório executivo “A Mina de San Martín no Valle de Siria”, 2013).

“A Entre Mares S.A. chegou ao Valle de Siria com a teoria de dar emprego e desenvolvimento a milhares de pessoas. O que gerou, na realidade, foram cerca de 330 postos de trabalho e mais pobreza para milhares de famílias camponeses que ficaram sem renda. Foi tudo uma grande mentira, e passamos de ser o maior produtor de grãos básicos do departamento de Francisco Morazán para uma das áreas mais afetadas e envenenadas do país”, disse Amador aOpera Mundi.

De acordo com pesquisas realizadas pelo Cehprodec (Centro Hondurenho de Promoção para o Desenvolvimento Comunitário), no Valle de Síria viviam cerca de 7 mil famílias, isto é, 42 mil pessoas que foram impactadas pela mineradora.

“Foram removidos mais de 50 milhões de toneladas de terra para extrair ouro, afetando a produção agrícola, que se reduziu em 70%. Além disso, 19 das 21 fontes de água que existiam já se secaram e as que restam estão contaminadas com metais pesados. Isso gerou uma emergência hídrica sem precedentes” explicou Pedro Landa, especialista em mineração e membro da Coalizão de Redes Ambientais e do Cehprodec.

Além disso, as comunidades nunca foram consultadas ou informadas sobre os riscos que a instalação da mineradora de metais a céu aberto traria para a região. Da mesma forma, leis nacionais e vários convênios internacionais ratificados por Honduras foram violados. Nem mesmo a contribuição com o fisco nacional e municipal, que foi insignificante se comparada com o suculento negócio da transnacional mineradora canadense, pôde justificar a magnitude dos impactos sobre as comunidades, seus territórios e condições de vida.

Um povo doente

Segundo as diferentes organizações que integram o Comitê Ambiental do Valle de Siria, nos mais de 8 anos de exploração mineradora, os impactos socioambientais gerados pela Entre Mares S.A (Goldcorp), com o silêncio cúmplice das autoridades locais e nacionais, foram devastadores. Além de desmantelar o tecido social, dividir e deslocar as famílias camponesas, as organizações denunciam graves efeitos à saúde das pessoas.

“Foram realizados vários estudos e confirmamos que a atividade mineradora provocou graves problemas dermatológicos e de visão, queda de cabelo, partos prematuros, malformações congênitas e abortos. Também foram detectados níveis altíssimos de metais pesados no sangue das pessoas. O mais preocupante é que esse tipo de contaminação permanecerá no ambiente por mais de cem anos”, alertou o doutor Juan Almendarez, diretor do CPTRT (Centro de Prevenção, Tratamento e Reabilitação de Vítimas de Tortura).

A pesquisa “Contaminação da água na área de exploração do projeto San Martin e as repercussões sobre a saúde humana”, realizada por Flaviano Bianchini em 2006, revela que, em uma das comunidades afetadas pela exploração mineira, a mortalidade infantil a ser 12 vezes maior que a média nacional.

[Imagem de ferida supostamente provocada pela ação da mineradora no valle de Siria]

Esses valores aumentam notavelmente para os filhos dos trabalhadores da mina. Nesse caso, a taxa de mortalidade é 33 vezes maior que a média nacional.

Além disso, os valores de chumbo a arsênico no sangue das pessoas analisadas são superiores aos considerados perigosos pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

“Nossa água e os cultivos foram contaminados. Há dezenas de pessoas com altos níveis de metais pesados no sangue, enquanto outras sofrem com chagas no corpo e com um sem número de enfermidades”, lamentou Ronald López, coordenador do Comitê Ambiental do Valle de Síria.

Segundo ele, a empresa encerrou suas operações e nem sequer restaurou a parte florestal ancestral. Tampouco se responsabilizou pela drenagem ácida que sai das instalações das minas, ou pela perda de cultivos e de gado. “Nesse cenário dantesco, nem a empresa, nem as autoridades estão fazendo algo para apoiar as vítimas; em vez disso, tentam minimizar o que aconteceu”, argumentou López.

Protestos

À medida que foram percebendo que as promessas da empresa não apenas não eram reais, mas em vez de trazer desenvolvimento, tinham grandes problemas, os moradores decidiram formar o Comitê Ambiental. Dessa forma, buscavam reunir os diferentes setores sociais e organizar grupos em cada comunidade, capacitando-os sobre o problema para fazer oposição à expansão do projeto San Martín.

Diante dessa situação, a resposta da empresa não demorou. “Eu fui capturado no dia 5 de julho de 2011, junto com outros companheiros, acusado de ter colocado obstáculos contra um plano de manejo florestal para desflorestar 1800 hectares de bosque no monte de La Torrecita. Estivemos 18 meses interpondo medidas cautelares substitutivas e, finalmente, conseguimos demonstrar nossa inocência”, recorda Carlos Amador.

Da mesma forma, vários ativistas do Comitê Ambiental têm sofrido perseguição, assédio, e até ameaças de morte. No entanto, a criminalização do protesto e o contexto de miséria, doenças, escassez de água e desemprego, assim como a perda da soberania alimentar, do tecido social e da posse da terra, geraram anticorpos na população.

“Atualmente, a imensa maioria da população é contra qualquer tipo de presença mineradora na região e luta pela defesa dos bens comuns porque pôde experimentar na própria pele as consequências dessa atividade”, garantiu Ronald López.

No entanto, o Comitê Ambiental do Valle de Siria não pode baixar a guarda nem um segundo. “Os princípios não se vendem, nem se negociam e, por isso, estamos em alerta vermelho e prontos para nos declarar em rebeldia contra qualquer tentativa da Goldcorp de voltar à região. Seguiremos exigindo que os danos ambientais sejam reparados, que as pessoas doentes e também aquelas que foram despejadas de suas terras sejam indenizadas”, concluiu Amador.

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