Análise – Aritana e a Pena de Harpia

bixoUm jogo de plataforma 2D brasileiro sobre um índio tupi-guarani que busca uma cura para o pajé de sua aldeia. A ideia parece óbvia demais e até mesmo antiquada para um jogo brasileiro, mas a verdade é que Aritana e a Pena de Harpia é um dos títulos mais belos, polidos e encantadores já criados no Brasil. Desenvolvido ao longo de três anos pelos irmãos paulistanos Pérsis e Ricardo Duaik, com a ajuda de dois amigos, Aritana atinge um grau de qualidade que poucos jogos brasileiros atingiram até hoje, uma façanha impressionante para uma equipe independente.

A inspiração básica são os jogos de plataforma 2D dos anos 90, algo como uma mistura entre Donkey Kong Country e Pandemonium. É uma abordagem bastante familiar: você simplesmente sabe que precisa ir da esquerda para a direita, que coletar cem frutas de guaraná lhe garantirá uma vida (representada por um potinho de urucum) e que após três fases seguidas, você terá que enfrentar o chefe daquele “mundo” – três no total. Há até fases de bônus, que dão aos exploradores mais dedicados a chance de aumentar a barra de energia do índio – aqui, representada por folhas em um galho. Mas antes que você pense que Aritana se conforma com o que há de mais básico em um gênero tão saturado, ele já estará te engajando com sua dificuldade elevada, com seu charme e seus próprios twists.

A começar pelos controles. O direcional analógico direito concentra todos os comandos envolvendo o cajado de Aritana. Quando está em terra firme, Aritana pode usá-lo para atacar, buscar por segredos escondidos pelo cenário (erguendo-o, o que faz a câmera se afastar e a música ser substituída por um instigante silêncio) ou criar uma barreira contra o vento (batendo-o contra o chão, habilidade acessível e útil apenas nas fases finais). Quando está no ar, saltando sobre inimigos em sequência – um desafio bastante recorrente aqui, em que um único erro te manda para o início do desafio ou para o último checkpoint, caso você não tenha mais energia -, o direcional determina a direção do golpe aéreo: de baixo para cima, de cima para baixo ou para os lados.

Aliado a um level design esperto, que aproveita bem essa característica, Aritana já seria um platformer minimamente interessante e hardcore, mas há alguns ingredientes adicionais em sua fórmula. Uma dessas mecânicas envolve alternar entre as duas posturas de Aritana: a atlética, que o faz emanar uma luz verde, tornando-o mais ágil, e a agressiva, que o faz emanar uma luz roxa e é ativada automaticamente durante um ataque com seu cajado. Enquanto estiver no modo de agilidade, os inimigos são representados apenas por pequenos espíritos com diferentes cores, e não por suas formas físicas, impedindo o jogador de ver detalhes de suas carapaças, que indicam quais são seus pontos fracos e a maneira correta de atacá-los – por cima, por baixo ou pelos lados.

É comum, por exemplo, que o jogo te coloque para iniciar uma sequência de golpes e saltos aéreos no modo de agilidade, em que os inimigos e a forma correta de atacá-los só são revelados no último segundo. Ou então, pedir que o jogador observe atentamente o padrão de movimentação dos inimigos para que ele memorize a sequência correta de ataques para, só então, partir para a execução. Desta forma, Aritana acaba se tornando uma mistura interessante de plataforma e puzzle, exigindo do jogador não apenas reflexos rápidos e agilidade com os controles, mas também uma boa memória de curto prazo, ainda que tais desafios possam rapidamente entrar no campo da frustração.

A Duaik também acertou na fluidez dos movimentos de Aritana, seguindo a cartilha dos bons jogos de plataforma, como o próprio Donkey Kong Country ou mesmo Super Mario Bros.. Nem muito rígidos, nem muito soltos, os movimentos simplesmente funcionam, sendo simultaneamente justos, funcionais e agradáveis

As animações e os pequenos detalhes também contribuem para que Aritana possua um charme próprio. O indiozinho escorrega em plataformas molhadas, cambaleia nas bordas, grita quando cai de grandes alturas e se espanta quando obtém novos poderes – sempre acompanhado de um jingle marcante – tal como toda sua excelente trilha sonora. A dedicação, visão e perfeccionismo dos criadores é evidente do começo ao fim.

Talvez o que menos impressione sejam as sequências animadas que recheiam o jogo. Intencionais ou não, os traços infantis e a simplicidade das ilustrações que grosseiramente se movimentam dão às sequências um ar amador que as distanciam de todo o resto do jogo.

Com aproximadamente cinco horas de duração, Aritana consegue sintetizar algumas das melhores qualidades dos clássicos de plataforma dos anos 90, sem que isso signifique apenas repetir mecânicas já existentes. Com uma abordagem própria do gênero e muito capricho, a Duaik conseguiu dar uma personalidade única e interessante a sua primeira criação, ainda que, à primeira vista, ela não pareça muito evidente.

Nota: 4 de 5

Fonte: IG

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