Amor de salvação

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carina“Tia, o que é afetivo?” A pergunta de uma garota que participava de um projeto de apoio a adolescentes que vivem em abrigos é menos uma indagação e mais uma resposta. Filhos do abandono, eles vão perdendo o fio do afeto e a esperança de ter uma família à medida em que crescem e não são adotados. “Afetivo” é uma palavra de sentido desconhecido em seu vocabulário e, portanto, em suas vidas. “Eles vão se encouraçando”, diz a psicóloga Maria da Penha Oliveira Silva, coordenadora do programa de Apadrinhamento Afetivo, que capacita padrinhos e madrinhas de crianças e adolescentes abrigados em serviços de acolhimento.

Não basta, porém, encontrar e capacitar os adultos que se dispõem a estabelecer um vínculo afetivo com meninos, meninas e jovens de abrigos. Tão ou mais importante é restaurar em cada um deles a capacidade de restabelecer laços de afeto com o mundo lá fora. E que, para além dos muros do abrigo, existam pessoas que possam lhes servir de referência para que consigam perseverar em seu projeto de vida. Jovens criados em instituições de acolhimento “são muito maduros em certos aspectos e muito infantis em outros”, diz Penha Silva. Daí que precisam de confiar em alguém que acompanhe, mesmo de longe, os primeiros passos da vida autônoma.

A matemática da adoção é bizarra. Existem 31.643 pretendentes inscritos no Cadastro Nacional de Adoção e 5.487 crianças e adolescentes à espera de famílias que os adotem. Fosse feita a subtração elementar, haveria 26.156 pais na fila da adoção e nenhuma criança sem pai nem mãe. A conta é irreal porque a absoluta maioria dos candidatos a pais — 31.010 — querem filhos de até 6 anos. E na outra fila estão 4.898 crianças acima dos 7 e adolescentes. De um lado, uma disposição amorosa atirada ao vazio. De outro, uma necessidade afetiva sem chão para se ancorar.

As duas jovens desta segunda parte da série Depois do Abrigo conseguiram fugir do destino que se espera para as crianças e os adolescentes que passaram boa parte da vida em instituições de acolhimento. Uma cursa engenharia da computação, e a outra, psicologia. As duas trabalham e formularam projetos de vida, com a ajuda de voluntários e de projetos de apoio a jovens acolhidos em abrigos.

Em Brasília, há um programa de apadrinhamento afetivo que capacita adultos para servirem de referência afetiva para esses jovens. Promovido pelo Grupo Aconchego, a iniciativa capacitou, no primeiro semestre, 21 padrinhos e madrinhas. Dez abrigados estão em convivência com os adultos, que, se mantidos os vínculos, podem acompanhá-los na travessia hesitante dos portões do abrigo para a vida como ela é. Em março do próximo ano, o projeto abrirá outro curso de capacitação. O problema é que a maioria dos adultos desiste do apadrinhamento nas primeiras dificuldades pessoais ou na convivência com os apadrinhados.

Carina, doce e determinada

Nos cinco anos em que viveu em abrigo, a doce Carina Bezerra da Silva, 21 anos, testemunhou o pior: meninas que saíam e se prostituíam, que afundaram nas drogas, garotos presos, baleados. “Vendo tudo aquilo, decidi que não queria aquela vida pra mim.” Fácil, não foi. Recém-chegada, adolescente, sofreu a pressão das garotas que moravam na instituição de acolhimento há muito tempo. “Elas queriam fazer besteira, então… Houve uma rejeição. Elas me cercavam, me xingavam. Eu ficava mais com as crianças no parquinho.” A rotina do abrigo incluía o dia do choro. “Toda sexta-feira à noite, eu e uma amiga, a gente chorava.” Carina ensaia um leve sorriso e chora um leve choro.

Quando foram institucionalizados, Carina tinha 13 anos e o irmão,16. Vinham de uma longa rotina de instabilidade, desde que a mãe se cansou de apanhar do marido e sumiu deixando os dois filhos ainda pequenos, a menina com 9 meses, o menino com 3 anos. Daí em diante, ora moravam com o pai, que padece de transtornos psicológicos, ora com uma tia, ora com outra tia, ora com o pai novamente, ora com um casal que conheceu as crianças e delas se compadeceram, ora de volta à casa paterna. Até que, depois de um surto de raiva do pai, o Conselho Tutelar interveio e mandou os dois adolescentes para um abrigo em Ceilândia.

Nesse percurso, conheceu o casal compadecido, católicos fervorosos, que, com o tempo, quiseram oficializar a adoção afetiva, mas Carina recusou. “Gosto muito deles, mas a minha tia ia querer me moldar para eu ser do jeito que ela quisesse. Disse a ela que ia querer namorar, ia querer sair, ia querer fazer um monte coisa que ela não ia deixar, e ela acabou não aceitando desse jeito.” Mesmo assim, o casal continuou acompanhando os dois irmãos, a despeito das dificuldades financeiras pelas quais eventualmente passavam.

Estudante de engenharia da computação com a ajuda do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), funcionária de empresa terceirizada que presta serviços ao Ministério dos Esportes, Carina mora num quarto mobiliado em Taguatinga, numa casa de família que aluga cômodos do andar de cima para jovens solteiros que estudam e/ou trabalham. Tentou morar com o irmão, mas não deu certo. “Eu trabalhava o dia todo e estudava à noite. Quando eu chegava em casa, queria que eu fizesse as coisas (serviços domésticos) para ele.”

O pai, 56 anos, mora sozinho em Santa Maria, numa casa sem água e sem luz porque ele não aceita os confortos urbanos. O Ministério Público acompanha a situação dele e quer que os filhos cuidem do pai. É mais uma incerteza. “É muito difícil lidar com ele.”

Da mãe, ela não tinha nenhuma lembrança, nenhuma fotografia. A tia que Carina chama de “adotiva” investigou e descobriu o telefone dela, no Rio de Janeiro. “Você quer conhecê-la?” “Quero.” Feito os primeiros contatos, a mãe aceitou ver a filha. Mandou passagem de ônibus. “Chorei quando a vi, mas logo percebi claramente que ela não queria a minha permanência lá. A gente percebe. Ela é casada, é empregada doméstica, não tem filhos, e o esposo é aposentado.”

A tácita decisão da mãe não deixou feridas na filha. “Vou sentir falta? Não. Eu queria conhecê-la porque é mãe, todo mundo falava ‘mãe, mãe’. Se eu perder o meu pai, vou chorar, chorar, chorar. Se eu perder a minha mãe, vou chorar. Não é a mesma coisa.” A instituição de acolhimento ainda insistiu para conseguir a reintegração familiar, mas a mãe não fez nenhum movimento que permitisse o reencontro definitivo. “O abrigo fez de tudo… Se ela quisesse, ela ia pedir de alguma forma, mas ela não expressou nada.”

Completados os 18 anos, portanto sem a proteção institucional do abrigo, Carina teve de enfrentar o mundo de igual para igual. Pergunto se ela se sente diferente das demais jovens de mesma idade, e ela encontra uma imagem para explicar o que a distingue das garotas que foram criadas com pai e mãe: “Eles saem correndo quando veem uma barata. Eu olho: ‘tem uma barata ali’”.

Não tem medo de barata, não gasta mais do que ganha, não se deixa levar pelo impulso consumista. “Gosto de fazer compras no shopping, mas não sou de estourar cartão. Pra depois ter de me virar pra pagar? Se eu não agir por mim, quem vai agir?” Terminado o curso superior, vai mirar a Petrobras. “Quero ajudar os meus pais, o meu pai principalmente. Quero ajudar os adolescentes do abrigo. Eles sentem muita falta de alguém com quem conversar, alguém pra ajudá-los, psicólogos.” Muitos deles entraram para a estatística (das infrações, das prisões, dos crimes). “A maioria das meninas se juntou, teve filho pra poder ter um cantinho pra elas. Eu não, eu não penso em me casar tão cedo. Quero me estabilizar primeiro.”

As conquistas, uma a uma, tiveram o apoio e o estímulo da rede de afetos que Carina construiu no vão do abandono. Ex-mães-sociais, ativistas de entidades de defesa e proteção de crianças e adolescentes abrigados, namorado, o casal religioso que quis adotá-la. “Sempre tem alguém com quem posso contar.”

“Chorei quando a vi (a mãe), mas logo percebi claramente que ela não queria a minha permanência lá. A gente percebe. Ela é casada, é empregada doméstica, não tem filhos, e o esposo é aposentado”