Aparecida de Goiânia, quarta-feira, 22 de setembro de 2021
Paralimpiadas

Redação
30 de agosto de 2021

É preciso superar o entendimento de que qualquer desempenho de atletas paralímpicos é bom ou “extraordinário”. O nome disso é capacitismo e revela muito de quem pensa assim.

Passados os primeiros dias dos Jogos Paralímpicos já foi possível ver diversas modalidades praticadas de modo adaptado ao formato original, em maior ou menor grau, e também algumas que só existem neste padrão esportivo. É certo que, via de regra, o público em geral ainda tenta entender como funciona uma partida de goalball ou um jogo de bocha, admira um basquete em cadeira de rodas onde se quica menos a bola, ou enxerga pouco do rúgbi tradicional no praticado por cadeirantes. Fato é que os jogos são eletrizantes, cheios de emoção e disputas acirradas. O que é normal, afinal são praticados por atletas. E é isso o que eles são: atletas.

Além da visibilidade que os Jogos Paralímpicos dão a essas novas modalidades, há mais espaço para falar das pessoas com deficiências que competem em Tóquio. E, principalmente, ajudar a esquecer os discursos clichês sobre superação e aceitação de qualquer resultado como se fosse bom. O chamado capacitismo, uma forma de discriminação da pessoa com deficiência que parte do pressuposto de que ela é incapaz ou menos capaz do que as sem deficiência. Sugere que há um padrão ‘correto’ para a estrutura corporal e mental e, por consequência, que a deficiência seria uma falha, um problema, uma doença. Não é.

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Evelyn de Oliveira foi campeã na Rio-2016 na bocha (Fabio Chey/CPB)


Esse comportamento, aliás, é crime e está previsto na Lei Nº 13.146, de 6 de julho de 2015, o chamado Estatuto da Pessoa com Deficiência. Apesar do termo não estar na norma, o artigo 4º diz que “toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades com as demais pessoas e não sofrerá nenhuma espécie de discriminação” . Antes dele, o parágrafo primeiro expressa claramente: “considera-se discriminação em razão da deficiência toda forma de distinção, restrição ou exclusão, por ação ou omissão, que tenha o propósito ou o efeito de prejudicar, impedir ou anular o reconhecimento ou o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais de pessoa com deficiência, incluindo a recusa de adaptações razoáveis e de fornecimento de tecnologias assistivas.”

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Mariana D’Andrea conquistou a primeira medalha de Paralimpíada no halterofilismo, e logo a de ouro (Takuma Matsushita/CPB)

Compara-se os comparáveis
Achar que um atleta com deficiência é um “exemplo de superação” simplesmente por ser um atleta é um dos erros mais comuns neste sentido. Faz-se isso, via de regra, por compará-lo a um sem deficiência, usando como padrão do correto as condições de prática esportiva vivenciadas por esse último. Em outras palavras, fala-se que o nadador amputado é um exemplo de superação porque ele consegue fazer o que o não amputado faz.

Essa forma de avaliação não leva em conta o desempenho do amputado, se ele nadou melhor ou pior do que costuma fazer no cotidiano de seus treinamentos. Não se compara, por exemplo, o tempo que ele levou para completar os 50 metros em uma final paralímpica com o que ele marcou na semifinal. Se foi pior, é evidente que ele não se superou. Pelo contrário, foi mal ou, ao menos, frustrou suas próprias expectativas.

Claudiney Batista comemora a medalha de ouro nos Jogos Paralímpicos de Tóquio.Foto: Miriam Jeske

Claudiney Batista comemora a medalha de ouro nos Jogos Paralímpicos de Tóquio.Foto: Miriam Jeske


O mineiro Claudiney Batista conquistou o ouro no lançamento de disco da classe F56 (amputados e lesões medulares) na noite deste domingo (29), dos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020, com a marca de 45,59m. A distância também valeu o novo recorde paralímpico para o lançador brasileiro. 

Esta é 11ª medalha dourada do Brasil nesta edição paralímpica e a 98ª medalha de ouro na história dos Jogos Paralímpicos. 

Ouro nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro 2016 e também do Parapan do de Lima 2019 na mesma modalidade, Claudiney Batista conquistou o primeiro lugar no pódio após uma prova com mais de duas horas de duração. Logo em sua primeira tentativa, com um lançamento de 44,57m ele assumiu a liderança da competição. Com este resultado, Claudiney já havia garantido a prata. No entanto, no sexto e último lançamento, o mineiro fez a marca de 45,59m, quebrando o recorde paralímpico, que era dele, conquistado nos Jogos Paralímpicos do Rio 2016, com 45,33m. O brasileiro foi o sétimo a participar e ficou aguardando o resultado do oitavo e último atleta, o grego Konstantinos Tzounis. 

Israel Stroh foi prata na Rio-2016 e não passou das quartas em Tóquio-2020 (Takuma Matsushita/CPB)
O jornalista Marcelo Romano, um dos mais especializados em esporte olímpico do país, defende que a avaliação dos atletas nos Jogos deve ser feita comparando-se o desempenho no evento com o que ele fez no chamado ‘ciclo olímpico’, período de quatro anos entre uma edição e outra da Olimpíada. Se o competidor manteve-se sempre entre os top 3 no ciclo e fica em quinto, sexto nos Jogos, por exemplo, o resultado é ruim. Se manteve-se entre o 12º, 13º lugares nos quatro anos e fica na mesma quinta colocação na Olimpíada, o resultado é acima do esperado. O mesmo vale para os Jogos Paralímpicos. Avalia-se comparando o que é comparável. Partir do princípio de que qualquer coisa que o atleta com deficiência faz já está bom só porque ele fez, sugere uma versão de que, em princípio, aquele ou aquela esportista é “incapaz”.

(Takuma Matsushita/CPB)

Israel Stroh foi prata na Rio-2016 e não passou das quartas em Tóquio-2020 (Takuma Matsushita/CPB)

“Especial é para quem você paga uma pizza”
A velocista Verônica Hipólito, um das grandes atletas paralímpicas do Brasil, viralizou uma frase em recente comentário feito ao canal SporTV. “A gente sempre escuta ‘uma grande superação o movimento paralímpico, um PCD. Não tem superação, pessoal. O que tem de verdade é muito treino, muita resiliência. A gente reclama igual a todo mundo, tem problema, tá tudo bem. A deficiência é só uma característica como qualquer outra”. E completou: “especial é aquela pessoa que você paga uma pizza, um açaí, alguma coisa maneira. Ninguém nunca me pagou, então não me chamem de pessoa especial. Só me chamem quando pagar”, falou, em tom de brincadeira, mas carregada de seriedade.

Daniel Dias, uma lenda da natação, com 27 medalhas, sendo 14 de ouro em Jogos Paralímpicos, em entrevista para o GE, foi no mesmo sentido. “É importante evitar termos que a maioria ainda usa, como ‘especial’, ‘deficiente’ e ‘portador de necessidades especiais’. Essas palavras são um eufemismo, como se fosse necessário amenizar a deficiência. O mais adequado é falar ‘pessoa com deficiência’.”

Suzana Schnarndorf, também da natação, acrescenta que não há “atleta normal” e sim “atleta sem deficiência”. Phelipe Rodrigues, outro que compete nas piscinas, acrescenta: “nós atletas só temos um propósito, que é melhorar a cada dia, batalhar contra o tempo, melhorando não nossas deficiências, mas nossas performances.

(Fabio Chey/CPB)

Jéssica Messali fazendo o que parecia impossível após acidente na sauna (Fabio Chey/CPB)


Jéssica Messali fazendo o que parecia impossível após acidente na sauna (Fabio Chey/CPB)
Contudo, a palavra superação não é proibida ao falar de atletas paralímpicos. Ela cabe quando usada em um contexto onde a deficiência não está em pauta. A triatleta Jéssica Messali, por exemplo, competiu após passar por 10 cirurgias em um período de 25 dias, todas realizadas a poucas semanas dos Jogos. Ela queimou gravemente os pés em uma sauna no dia 6 de julho. Além de retirar parte da pele, teve de amputar sete dedos e meio. No final da tarde de sábado (28), pelo horário do Brasil, ela caiu na água para nadar 750 metros, depois cumpriu 20 quilômetros de ciclismo e mais cinco de corrida. Chegou em quarto lugar, bem pertinho do pódio. Não há outra palavra que defina o desempenho de Jéssica que não superação.

Com RBA e Comitê Paralímpíco Brasileiro

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